Trump anuncia ajuda de US$ 150 milhões para a Venezuela após terremotos
O Palácio de mármore do Departamento de Estado ainda exalava o silêncio protocolar das manhãs em Washington quando a confirmação veio em papel timbrado, sem entrevistas coletivas e sem a presença de câmeras. Eram exatamente onze horas da manhã desta quinta-feira quando o governo norte-americano removeu qualquer dúvida remanescente sobre a escala de sua participação no socorro ao território venezuelano. O número apareceu primeiro nos terminais das agências de notícias e depois reverberou nos telefones dos coordenadores humanitários que já trabalhavam sob lonas improvisadas nas zonas de desabamento: cento e cinquenta milhões de dólares acabavam de ser destravados. Convertidos em reais, são setecentos e setenta e oito milhões que cruzarão o Caribe em forma de medicamentos, farinha, tendas e equipes capazes de escavar concreto com as mãos e com máquinas.
A decisão não foi tomada de improviso. Nas últimas setenta e duas horas, engenheiros da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional vinham debruçados sobre imagens de satélite que mostravam bairros inteiros reduzidos a montanhas de entulho, enquanto diplomatas cuidavam da arquitetura financeira que permitiria ao dinheiro chegar ao solo sem se perder nos labirintos burocráticos. O resultado desse esforço é um pacote dividido em duas correntes de distribuição meticulosamente escolhidas para furar bloqueios logísticos e políticos. A primeira corrente, avaliada em cinquenta milhões de dólares, opera por acordos bilaterais costurados diretamente com seis organizações que já mantêm armazéns, veículos e funcionários dentro do país. A segunda corrente, mais volumosa, despeja cem milhões de dólares no fundo humanitário que as Nações Unidas mantêm ativo para a Venezuela, um instrumento multilateral que permite coordenar a compra de insumos em larga escala e negociar o acesso a regiões onde a presença estatal sempre foi irregular e agora é simplesmente inexistente.
Entre as entidades que receberão os repasses da primeira janela financeira está a World Vision, organização que nas últimas semanas transformou escolas rurais em centros de acolhimento para famílias que dormem ao relento temendo réplicas. Também figura na lista a Samaritan’s Purse, cujos cirurgiões montaram salas de operação em contêineres refrigerados nos arredores de Petare, onde o solo continua tremendo de forma intermitente. A Catholic Relief Services aparece como responsável por parte significativa da logística de abastecimento de água potável, enquanto o International Medical Corps concentrará seus novos recursos na compra de antibióticos e na contratação de enfermeiros para desafogar prontos-socorros que já não dispõem de geradores. A Organização Internacional para as Migrações foi incluída no esforço com a missão específica de cadastrar as famílias que perderam documentos e de tentar restabelecer contato entre parentes separados pelas avalanches de escombros. O Programa Mundial de Alimentos, que há anos opera na Venezuela com uma das maiores frotas humanitárias ainda em funcionamento, utilizará os fundos para quadruplicar a distribuição de cestas básicas nas áreas onde os mercados simplesmente desapareceram sob o pó.
Enquanto o dinheiro iniciava seu caminho pelos sistemas bancários internacionais, uma segunda decisão mobilizava bases aéreas na Flórida e no Texas. O governo autorizou a partida imediata das equipes urbanas de busca e salvamento que compõem a força de resposta rápida da FEMA, acrônimo em inglês para a Agência Federal de Gestão de Emergências. São profissionais acostumados a pousar em aeroportos destruídos com cães farejadores, sensores acústicos capazes de captar batimentos cardíacos sob toneladas de concreto e britadeiras hidráulicas silenciosas o suficiente para permitir que se escute um grito vindo das profundezas das lajes. O primeiro grupo saiu de Miami no início da tarde com autorização para sobrevoar o espaço aéreo de quatro países que já consentiram na abertura de corredores humanitários expressos. Os bombeiros que embarcaram levam equipamento para permanecer autônomos por duas semanas e treinamento para atuar em edificações que podem ruir completamente a qualquer novo abalo.
A contagem de cento e oitenta e oito mortos, confirmada por autoridades locais no início da manhã, era vista como provisória até mesmo nos boletins oficiais. Equipes de resgate que já atuam na zona central do país relataram que o número real de corpos sob os destroços pode ser consideravelmente maior, uma vez que bairros construídos em encostas íngremes simplesmente deslizaram, enterrando famílias inteiras antes que qualquer sirene pudesse soar. A dificuldade de comunicação com as regiões mais remotas transformava cada novo balanço em uma aproximação dolorosa da realidade.
O Departamento de Estado fez incluir na documentação do envio uma cláusula de monitoramento independente, um dispositivo contratual que permite a auditores externos verificar a entrega dos suprimentos em tempo real, da saída dos armazéns até a chegada às mãos dos beneficiários. O texto do comunicado diplomático evitou adjetivos e limitou-se a afirmar que a assistência se destina exclusivamente a salvar vidas. Nos corredores do edifício Harry S. Truman, onde a burocracia humanitária americana funciona vinte e quatro horas por dia, a ordem interna era clara: não há tempo a perder discutindo adjetivos quando ainda existem pessoas presas sob o concreto e crianças dormindo em praças públicas sem proteção contra as chuvas tropicais que começam a cair no início da noite.
A operação conjunta entre os recursos bilaterais e multilaterais representa o maior aporte humanitário americano para a Venezuela em anos recentes, superando em volume e velocidade programas anteriores de assistência. O desenho da engenharia financeira, com metade do valor sendo canalizado pela ONU e a outra metade sendo injetada diretamente nas organizações que já possuem equipes no terreno, foi pensado para criar redundância operacional, de modo que um eventual gargalo diplomático não estrangule completamente o fluxo de ajuda. Os coordenadores em campo foram avisados de que novos carregamentos poderão ser anunciados nas próximas semanas, a depender da evolução da crise sísmica e da eficácia demonstrada pelas equipes que agora começam a cavar.
Fontes: Departamento de Estado dos Estados Unidos, Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, Organização das Nações Unidas, World Vision, Samaritan’s Purse, Catholic Relief Services, International Medical Corps, Organização Internacional para as Migrações, Programa Mundial de Alimentos, Agência Federal de Gestão de Emergências.