Paquistão treme duas vezes em 24 horas enquanto o mundo contabiliza mortos e desaparecidos
O solo voltou a ceder sob os pés dos paquistaneses na manhã deste sábado. Um tremor de magnitude 5,4 sacudiu a província de Balochistão, no sudoeste do país, exatamente doze horas depois de outro abalo de magnitude 5,3 ter despertado a mesma região durante a madrugada anterior. A sequência em tão curto intervalo de tempo obrigou milhares de famílias a abandonarem suas casas em pelo menos oito distritos, transformando praças, terrenos baldios e leitos de estradas em abrigos improvisados sob o sol escaldante do deserto paquistanês.
O epicentro foi localizado pelo Departamento Meteorológico do Paquistão em uma zona árida situada a 15 quilômetros da superfície, nas proximidades da cidade de Chaman, encravada na fronteira com o Afeganistão. A profundidade relativamente baixa do evento sísmico amplificou a percepção do tremor em toda a metade norte de Balochistão. Em Quetta, capital provincial com mais de um milhão de habitantes, o abalo foi descrito por testemunhas como uma sacudida seca e vertical, seguida por uma oscilação horizontal que fez lustres balançarem violentamente e derrubou objetos de prateleiras em centenas de residências. Os 42 segundos de duração estimada foram suficientes para reacender memórias traumáticas em uma população que convive com o fantasma dos grandes terremotos.
As autoridades provinciais montaram postos de avaliação de danos em todos os hospitais distritais e acionaram equipes móveis para percorrer os assentamentos rurais da região, muitos deles construídos com tijolos de barro e madeira, materiais que oferecem pouca resistência a solicitações sísmicas. A Defesa Civil de Balochistão confirmou que até o final da manhã não havia registro de mortos ou feridos graves, mas relatou o colapso parcial de três residências desocupadas no distrito de Qila Abdullah e rachaduras significativas em uma escola primária na periferia de Pishin. As aulas foram suspensas preventivamente em todo o cinturão afetado.
A Autoridade Nacional de Gestão de Desastres do Paquistão emitiu um comunicado ainda pela manhã orientando a população a permanecer em espaços abertos por pelo menos seis horas, período considerado crítico para a ocorrência de réplicas. O alerta se mostrou pertinente. Pouco depois do meio-dia, um abalo secundário de magnitude 3,8 foi registrado na mesma falha geológica, sentido com menor intensidade mas suficiente para manter o estado de apreensão coletiva. Equipes do exército paquistanês estacionadas na região foram colocadas em prontidão para eventuais operações de socorro, enquanto helicópteros de reconhecimento sobrevoaram as áreas montanhosas de difícil acesso onde vivem comunidades isoladas.
A sucessão de tremores em Balochistão é explicada pela posição geológica singular do Paquistão, assentado exatamente sobre a zona de sutura entre a placa tectônica indiana e a placa eurasiática. A placa indiana, que se desprendeu do supercontinente Gondwana há cerca de 120 milhões de anos, continua sua deriva em direção ao norte, empurrando-se contra a massa continental asiática em um movimento que não cessou e não cessará em escala humana de tempo. O resultado desse embate de proporções planetárias é o soerguimento da cordilheira do Himalaia, mas também a criação de um intrincado sistema de falhas geológicas que cruzam o território paquistanês como cicatrizes na crosta terrestre. A falha de Chaman, com mais de 900 quilômetros de extensão, é a principal dessas estruturas, cortando Balochistão de norte a sul e acumulando tensões que se libertam periodicamente na forma de terremotos.
O sábado paquistanês se insere em um cenário global que tem exigido atenção redobrada de sismólogos e agências humanitárias. A Venezuela contabiliza os escombros de dois terremotos consecutivos que devastaram cidades inteiras em uma das piores tragédias naturais de sua história recente. Os números oficiais, ainda provisórios diante da escala de destruição, apontam 920 corpos resgatados e uma lista de desaparecidos que alcança a cifra estarrecedora de 50 mil nomes. Equipes de resgate de dezoito nacionalidades diferentes trabalham em turnos ininterruptos sobre montanhas de concreto retorcido, enquanto familiares aguardam notícias em acampamentos improvisados nos arredores das zonas de exclusão. A ajuda humanitária enfrenta dificuldades logísticas severas, com estradas bloqueadas por deslizamentos e pontes que simplesmente deixaram de existir.
No flanco oposto do planeta, as Filipinas também experimentaram o sobressalto da terra em movimento. Um terremoto de magnitude 6,4 atingiu a ilha de Mindanao no início da semana, provocando o desabamento de um edifício comercial de três andares na cidade de Davao e interrompendo o fornecimento de energia elétrica para mais de duzentas mil residências. O Instituto Filipino de Vulcanologia e Sismologia registrou mais de oitenta réplicas nas 48 horas seguintes ao evento principal, mantendo a população costeira em alerta máximo diante da possibilidade de um tsunami que, felizmente, não se concretizou. O saldo de dezessete mortos e cerca de duzentos feridos, embora trágico, foi considerado contido pelas autoridades locais, que atribuíram o número relativamente baixo de vítimas aos investimentos recentes em reforço estrutural de hospitais e escolas públicas.
A concentração de eventos sísmicos significativos em um mesmo período não configura, segundo especialistas, uma anomalia estatística. O planeta registra anualmente cerca de 150 terremotos de magnitude entre 5,0 e 5,9, o que representa uma média de três abalos por semana nessa faixa de intensidade. A percepção de que a atividade sísmica global está aumentando decorre mais da amplificação midiática e da maior densidade populacional em áreas de risco do que de uma alteração real nos padrões geológicos. No entanto, o que os números não capturam é a dimensão humana do medo, a interrupção violenta da normalidade cotidiana e a sensação de vulnerabilidade que acomete populações inteiras quando o chão que pisam deixa de ser a metáfora da estabilidade para se tornar a fonte do perigo.
No Paquistão, a noite de sábado caiu sobre uma população ainda em vigília. As rádios locais transmitiam boletins de hora em hora com atualizações sobre a atividade sísmica e recomendações de segurança. Nas ruas de Quetta, famílias organizavam escalas para que alguns pudessem dormir enquanto outros permaneciam acordados, atentos a qualquer novo sinal de tremor. A província de Balochistão, acostumada a conviver com a hostilidade do terreno e as tensões geopolíticas de uma fronteira conflagrada, adicionava mais uma camada de incerteza à sua já complexa existência. A terra, mais uma vez, havia falado, e sua mensagem, embora geologicamente previsível, jamais deixava de soar como um trovão vindo das profundezas.
Fontes consultadas pela reportagem:
Pakistan Meteorological Department, National Seismic Monitoring Centre
United States Geological Survey, Earthquake Hazards Program
National Disaster Management Authority, Government of Pakistan
Provincial Disaster Management Authority, Balochistan
European-Mediterranean Seismological Centre
Philippine Institute of Volcanology and Seismology
Fundación Venezolana de Investigaciones Sismológicas
Protección Civil y Administración de Desastres, República Bolivariana de Venezuela
Servicio Geológico Colombiano, Red Sismológica Nacional
International Federation of Red Cross and Red Crescent Societies, Situation Reports