Irmão de Eloá é executado em emboscada sobre duas rodas no ABC paulista
O ataque que derrubou o tenente da Rota Ronickson Pimentel dos Santos na tarde deste sábado, na Avenida Goiás, em São Caetano do Sul, foi calculado para não deixar vestígios de reação. A dupla que se aproximou em uma motocicleta não anunciou a abordagem, não exigiu pertences e não hesitou no gatilho. O policial militar, que vestia roupas comuns e conduzia uma moto particular, tombou imediatamente após o projétil atravessar a região craniana. As câmeras de vigilância que captaram a cena revelam uma sequência de poucos segundos, suficientes para transformar um cruzamento movimentado da cidade do ABC paulista em palco de um crime cuja apuração desafia os limites entre o acaso e a emboscada.
Ronickson tinha acabado de reduzir a velocidade para respeitar a sinalização luminosa. O semáforo fechado interrompeu seu deslocamento e o deixou exposto, estático, no ângulo exato em que a moto ocupada por dois homens se encaixou à sua direita. O garupa levantou o braço, mirou e disparou. Apenas um tiro foi suficiente. O tenente desabou sobre o guidão e, em seguida, tombou para o lado, enquanto a motocicleta ainda sustentava o peso do corpo inconsciente. Os atiradores aceleraram e sumiram entre os veículos antes que os primeiros pedestres conseguissem compreender a gravidade do que havia ocorrido.
A reação de quem estava nas proximidades alternou entre o pânico e a tentativa de organizar o socorro. Um comerciante que fechava as portas do estabelecimento chamou a Polícia Militar, cujas viaturas alcançaram o endereço em menos de cinco minutos. A poucos metros dali, um corredor de ambulâncias era bloqueado pelo tráfego da tarde, o que fez com que o comando da corporação acionasse o helicóptero Águia. A aeronave pousou em uma área descampada, utilizada ocasionalmente como estacionamento informal, e recolheu o oficial ainda com vida. Ele não recobrou a consciência durante o trajeto aéreo até a unidade hospitalar, onde permanecia sob cuidados intensivos até a última atualização do boletim clínico, que não foi divulgado à imprensa.
A violência sofrida por Ronickson carrega o peso de uma tragédia que a família Pimentel já conhecia desde outubro de 2008. Ele era o irmão mais velho de Eloá Cristina Pimentel, a adolescente de 15 anos que teve a casa onde vivia, no Conjunto Habitacional Santo André, convertida em cenário de um sequestro brutal. Durante mais de cem horas, Eloá foi mantida sob a mira do ex-namorado Lindemberg Alves Fernandes, em um apartamento simples de onde se ouviam gritos e súplicas. O caso mobilizou cobertura jornalística contínua, negociadores do Grupo de Ações Táticas Especiais e a esperança de um desfecho pacífico que jamais se concretizou. A invasão da PM resultou em tiros e, naquele fim de semana, a jovem morreu com um disparo na cabeça, enquanto a opinião pública se dividia entre culpar o agressor, questionar a operação policial ou dissecar cada minuto das transmissões ao vivo.
Lindemberg foi condenado em 2012 a 39 anos de reclusão, pena que o Tribunal de Justiça de São Paulo manteve. A sentença encerrou um capítulo jurídico, mas a dor atravessou gerações e desembocou na trajetória de Ronickson, que anos depois ingressaria nas fileiras da Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, a tropa de elite da Polícia Militar paulista. O oficial construiu uma carreira marcada pela discrição, distante do sobrenome que a imprensa nacional reproduziu à exaustão nos noticiários.
A condição de irmão de uma vítima emblemática e, ao mesmo tempo, de integrante de uma unidade de combate que atua nos confrontos mais severos do estado coloca o atentado sob uma lupa investigativa de espectro amplo. As autoridades consideram múltiplas hipóteses, mas nenhuma foi formalizada como tese predominante até o momento. A primeira linha de apuração, que cogitava uma tentativa de roubo, perdeu força à medida que as imagens foram analisadas quadro a quadro pelos peritos do Instituto de Criminalística. Os atiradores não recolheram a arma do policial, que estava em coldre discreto, nem vasculharam a vítima caída ao solo.
A segunda vertente, que ganha corpo dentro do inquérito conduzido pela Delegacia de São Caetano do Sul, aponta para um atentado planejado. A maneira como a moto dos criminosos acompanhou brevemente o deslocamento do tenente antes de emparelhar no semáforo indica que a vítima pode ter sido seguida por alguns quarteirões. Os investigadores trabalham com a possibilidade de o crime ter sido encomendado, seja em retaliação a operações da Rota, seja por motivações pessoais que ainda estão sendo mapeadas. Uma terceira linha, mantida em sigilo, explora se o histórico público da família Pimentel poderia, de alguma forma, ter exposto o policial a alguma ameaça remanescente, embora não haja até agora nenhuma evidência concreta que sustente essa correlação.
A cúpula da Secretaria de Segurança Pública determinou a formação de uma força-tarefa que reúne equipes do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, da inteligência da Polícia Militar e de setores especializados em análise de imagens. Os registros das câmeras de monitoramento da Avenida Goiás e das vias adjacentes estão sendo submetidos a softwares de reconhecimento facial e de placas. Os policiais tentam refazer a rota completa dos atiradores desde o momento em que surgiram no campo de visão de uma câmera de um posto de combustíveis, dois minutos antes do crime, até o instante em que se perderam em uma alameda de bairro residencial na divisa com Santo André.
A região do ABC paulista, onde o crime ocorreu, é familiar aos Pimentel. Foi ali que Eloá cresceu, estudou e morreu. Foi ali que o nome da família se transformou em símbolo nacional dos estragos provocados pela violência de gênero e pela espetacularização dos dramas privados. Agora, o mesmo pedaço de mapa assiste a um novo capítulo de sangue. A dupla que abriu fogo contra o peito urbano de São Caetano do Sul conseguiu ferir um homem e reabrir uma cicatriz coletiva. Cabe à investigação responder qual dessas duas feridas era o alvo real.
Fontes
Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo – Boletim de ocorrência e informações sobre o resgate aeromédico. Polícia Militar do Estado de São Paulo – Comando de Policiamento de Choque – Confirmação de lotação e carreira do oficial. Polícia Civil do Estado de São Paulo – Delegacia Seccional de São Caetano do Sul – Instauração de inquérito e linhas de investigação. Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo – Processo referente ao caso Eloá Cristina Pimentel, acórdão condenatório de 2012. Imagens de circuito de segurança da Avenida Goiás e adjacências – Acervo da investigação policial.