Homem salvou a esposa grávida de 8 meses durante enchente ao colocá-la dentro de uma geladeira
Arrastada por um quilômetro na correnteza, jovem grávida de oito meses sobrevive após marido improvisar resgate com eletrodoméstico.
A noite de março de 2024 transformou a rotina simples de uma casa em Mimoso do Sul, no Espírito Santo, em um pesadelo líquido e avassalador. As chuvas que castigavam o sul do estado fizeram o rio transbordar com uma ferocidade que os moradores mais antigos diziam jamais ter testemunhado. Para o pedreiro Ruliam Dias, de 20 anos, e sua esposa, Elivanda de Souza Brandão, de apenas 18, aquele temporal deixou de ser um evento climático distante quando a água começou a escorrer por baixo da porta da frente. Em menos tempo do que se leva para preparar uma refeição, o chão da sala desapareceu sob uma lâmina marrom e espessa que subia com uma determinação aterradora.
Elivanda estava com oito meses de gestação. Sua mobilidade era naturalmente reduzida pelo volume da barriga, mas havia um agravante que transformava o avanço da enchente em uma sentença potencialmente fatal: ela não sabia nadar. Cada movimento da água que engolia os móveis pobres da residência representava um cerco que se fechava. O som dos objetos sendo arrastados e dos barrancos desmoronando nas proximidades compunha uma trilha sonora de desespero. Não havia tempo para telefonemas, para esperar resgate ou para elaborar qualquer plano sofisticado. A realidade impunha uma única exigência: agir com o que se tinha às mãos.
Foi nesse contexto de urgência absoluta que Ruliam Dias demonstrou uma presença de espírito que mistura instinto de sobrevivência e amor incondicional. Seus olhos percorreram o interior da casa já parcialmente tomada pela água e se fixaram em um objeto de cor branca que se destacava na penumbra: a geladeira da família, um eletrodoméstico modesto, adquirido com esforço e parcelado em suaves prestações. A porta foi aberta às pressas. Prateleiras e gavetas foram arrancadas e lançadas de lado. O interior oco do eletrodoméstico, selado e revestido com material isolante, tinha um potencial de flutuação que o pedreiro compreendeu instintivamente. Ele não pensou em termos de física ou princípios de Arquimedes. Pensou apenas que aquele objeto poderia manter sua esposa fora da água.
Com as mãos trêmulas e o coração acelerado, Ruliam tombou a geladeira de lado e ajudou Elivanda a se acomodar em seu interior. A posição era desconfortável. As bordas metálicas pressionavam suas costas. O espaço era exíguo para um corpo adulto e uma barriga de oito meses. Mas ali, dentro daquele casulo improvisado e frio, residia a única esperança de não ser tragada pela correnteza. O plano inicial era simples: usar a geladeira como uma pequena embarcação e empurrá-la até um ponto elevado, onde a água ainda não houvesse chegado. Ruliam, com água já na altura do peito, começou a guiar a embarcação insólita em direção à porta dos fundos, onde o terreno oferecia um aclive sutil.
O que aconteceu em seguida fulminou qualquer vestígio de controle que o jovem casal pudesse imaginar ter sobre a situação. Uma onda de correnteza, formada pelo encontro de dois fluxos de água que convergiam naquela rua, atingiu a geladeira com violência. O eletrodoméstico, que não tinha quilha, lastro ou qualquer estabilidade náutica, girou sobre seu próprio eixo e emborcou em questão de segundos. Elivanda foi despejada na água escura e turbulenta. O corpo, pesado pela gestação e pelas roupas encharcadas, afundou por um instante. O choque térmico paralisou seus músculos. A lama turvava a visão. O barulho do mundo exterior foi substituído por um silêncio subaquático e opressor.
O instinto, no entanto, a trouxe de volta à superfície. Elivanda emergiu tossindo, engolindo ar e água ao mesmo tempo. Seus braços se agitaram descoordenados, tentando reproduzir movimentos que jamais aprendera. A correnteza, implacável, a tomou como se fosse um pequeno galho. Ela foi arrastada sem cerimônia, seu corpo servindo de joguete para a força hidráulica que descia em direção às partes mais baixas da cidade. Ruliam, que tentava se manter em pé contra a enxurrada, viu sua esposa desaparecer na escuridão e na chuva. Seu grito de desespero foi abafado pelo rugido das águas. Ele próprio foi derrubado e arrastado em uma direção diferente, engolido por um turbilhão de detritos, tábuas e galhos de árvore.
Elivanda percorreu aproximadamente um quilômetro sendo levada pela correnteza. A distância, que em terra firme pode ser vencida com uma caminhada de poucos minutos, se converteu em uma jornada interminável de luta pela vida. Durante o trajeto, ela se agarrou a tudo que estava ao alcance: um pedaço de madeira que logo afundava, uma cerca de arame que se desmanchava ao toque, um tambor plástico que girava e escapulia. A água lançava seu corpo contra postes, muros submersos e veículos abandonados. Cada impacto arrancava um gemido de dor e um medo renovado. Em sua mente, uma oração se repetia em ciclos, misturada a um pensamento fixo: o bebê. Ela sentia o bebê se mexer dentro de si, uma agitação que lhe dava ao mesmo tempo pavor e esperança. Enquanto houvesse movimento, havia vida. Enquanto houvesse vida, havia motivo para continuar lutando.
A exaustão começou a vencer a resistência. Os músculos de Elivanda falhavam. Os braços pesavam como chumbo. A respiração se tornava mais difícil. A água lamacenta entrava em sua boca e nariz a cada tentativa de tomar ar. A hipotermia começava a se instalar, roubando o calor de seu corpo. A jovem gestante estava a poucos minutos de perder completamente as forças e se entregar ao abraço frio da enchente quando avistou um ponto de luz. Eram lanternas. Pessoas estavam agrupadas em um telhado e em uma laje alta, iluminando a escuridão líquida na esperança de encontrar sobreviventes. Ao verem o vulto de Elivanda se debatendo na água, os moradores agiram com a rapidez de quem já havia resgatado outros vizinhos naquela noite de horror.
Cordas foram lançadas. A princípio, ela não teve forças para segurá-las. Os dedos enregelados não obedeciam aos comandos do cérebro. Uma segunda tentativa foi feita, desta vez com um laço improvisado na ponta de uma mangueira de jardim. Elivanda conseguiu enfiar o braço por dentro da alça, e os moradores começaram a içá-la em direção à segurança. A subida foi lenta e dolorosa. Seu corpo raspou contra a parede áspera. Sua barriga era pressionada contra o reboco. Ela gritou de dor, mas não pediu que parassem. Cada centímetro que a afastava da água era um presente. Quando finalmente foi puxada para dentro de uma janela do segundo andar, Elivanda desabou sobre o chão de cerâmica, tremendo incontrolavelmente, os lábios arroxeados, a pele coberta de pequenos cortes e hematomas. Estava salva. Não sabia ainda se o marido estava vivo, não sabia se o bebê resistira, mas estava fora do alcance da correnteza.
Ruliam, enquanto isso, havia sido arrastado por cerca de quatrocentos metros. Ele conseguiu se prender a uma árvore de grande porte que resistia bravamente à enchente. Abraçado ao tronco áspero, com a água rugindo ao seu redor, permaneceu por horas. Durante esse tempo, não soube nada de Elivanda. Sua mente o torturava com imagens terríveis. Rezava em silêncio, fazia promessas, negociava com o divino. Quando as águas começaram a baixar lentamente, ele se desprendeu da árvore e, exausto, cambaleou em direção às áreas mais altas. Perguntou a cada pessoa que encontrava sobre uma jovem grávida, arrastada pela água. Ninguém sabia dar informações precisas. A cidade era um cenário de guerra, com casas partidas ao meio, carros empilhados e um cheiro onipresente de lama e esgoto.
O reencontro aconteceu horas depois, já sob a luz cinzenta do amanhecer. Elivanda havia sido levada para um abrigo improvisado em uma igreja. Quando Ruliam entrou pelo portão e viu a esposa enrolada em um cobertor doado, sentada em um colchonete no chão, suas pernas fraquejaram. Ele se ajoelhou ao lado dela e chorou. Elivanda, com os olhos inchados e a voz rouca, apenas repetia que estava bem. O abraço que se seguiu foi longo, silencioso e carregado de um significado que as palavras jamais poderiam traduzir.
A avaliação médica trouxe o veredito que ambos mais ansiavam ouvir. O bebê, contrariando todas as probabilidades, apresentava batimentos cardíacos normais. O estresse extremo não desencadeou trabalho de parto prematuro. A gestação poderia prosseguir. O corpo de Elivanda exibia as marcas da provação: escoriações múltiplas, hematomas nos braços e nas pernas, uma infecção leve nos olhos causada pela água contaminada. Mas ela estava viva. O bebê estava vivo. Ruliam também sobrevivera. Era, dentro da dimensão da tragédia, um desfecho milagroso.
A casa do casal não existia mais. A estrutura de alvenaria simples havia sido comprometida pela força da água. Os móveis, as roupas, os documentos pessoais, os poucos objetos de valor sentimental, tudo foi levado pela enxurrada ou arruinado pela lama que demorou semanas para secar. A geladeira, a embarcação improvisada que terminou em naufrágio, foi encontrada dias depois a centenas de metros dali, amassada e irreconhecível, encaixada sob um viaduto. Elivanda e Ruliam passaram a integrar a estatística de milhares de desabrigados no Espírito Santo em decorrência das chuvas de março daquele ano.
A reconstrução material começou do zero absoluto. O casal foi acolhido por parentes em um bairro vizinho que escapou ileso da inundação. Campanhas de solidariedade organizadas por igrejas, associações de moradores e pela prefeitura municipal arrecadaram roupas, alimentos e móveis usados. Ruliam recebeu a doação de uma caixa de ferramentas nova, item essencial para que pudesse retomar seu ofício de pedreiro. Uma loja de artigos infantis, sensibilizada com a história, doou um berço, um carrinho e um enxoval completo para o bebê. As mãos anônimas da comunidade se estenderam para amparar o jovem casal, transformando a narrativa de perda em uma história de recomeço coletivo.
O nascimento ocorreu semanas depois, em uma maternidade pública da região. O parto foi tranquilo, cercado pela equipe médica que conhecia os detalhes da jornada extraordinária que mãe e filho haviam enfrentado. Uma menina saudável veio ao mundo, chorando forte, com os pulmões cheios de ar e de vida. Ruliam segurou a filha nos braços com a mesma determinação que o fizera transformar uma geladeira em barco. Olhou para Elivanda, que descansava na cama hospitalar com um sorriso exausto e radiante, e soube que, apesar de tudo o que haviam perdido, possuíam o mais valioso dos bens. A geladeira ficou para trás, amassada e inútil, mas cumpriu seu papel involuntário em uma corrente de eventos que terminou com o choro bem-vindo de um recém-nascido. A vida, teimosa e insistente, havia vencido a enchente.
Fontes:
Defesa Civil do Estado do Espírito Santo
Corpo de Bombeiros Militar do Espírito Santo
Prefeitura Municipal de Mimoso do Sul
Hospital Apóstolo Pedro de Mimoso do Sul