Do Cativeiro ao Altar: O Amor que Sobreviveu a 500 Dias de Horror nas Mãos do Hamas
Sequestrados em 7 de outubro, separados por quase 500 dias de cativeiro, Sasha e Sapir oficializaram a união como prova de resiliência.
O relógio marcava 6h29 da manhã de 7 de outubro de 2023 quando o céu do sul de Israel foi rasgado por sirenes que anunciavam o início de um pesadelo coletivo. No Kibutz Nir Oz, uma comunidade agrícola de pouco mais de 400 habitantes encravada a poucos quilômetros da fronteira com a Faixa de Gaza, Sasha Troufanov e Sapir Cohen acordaram sobressaltados. O que veio a seguir foi uma sucessão de estrondos, gritos em árabe ecoando entre as casas e a invasão brutal de dezenas de militantes do grupo fundamentalista islâmico Hamas. O casal, que vivia um relacionamento ainda em fase de construção, viu sua história de amor ser interrompida pela violência mais extrema. Mal sabiam que aquele sábado daria início a uma epopeia de sofrimento, separação forçada e, contra todas as probabilidades, um desfecho que desafia a lógica da guerra.
A invasão do kibutz foi metódica e devastadora. Os agressores saltavam de motocicletas e picapes com fuzis em punho, atirando contra qualquer coisa que se movesse. Sasha, engenheiro de 28 anos com ascendência russa, e Sapir, israelense de 29 anos que estava na localidade para visitar o namorado, foram retirados de casa sob a mira de armas. Não houve tempo para despedidas planejadas, muito menos para promessas de reencontro. Arrastados para direções diferentes, eles se perderam de vista em meio ao caos. Ele foi lançado em uma caminhonete rumo ao interior de Gaza. Ela, empurrada para um túnel subterrâneo que se tornaria sua prisão por quase dois meses. A separação, imposta com a frieza de quem trata vidas humanas como moeda de troca, marcou o início de um período em que o silêncio e a incerteza seriam os adversários mais cruéis.
Sapir Cohen permaneceu 55 dias no cativeiro. O número, que pode parecer modesto diante de outras cifras do conflito, esconde uma eternidade de terror psicológico e privação sensorial. Confinada em galerias escuras, sem acesso à luz solar, ela perdeu completamente a noção das horas e dos dias. A alimentação era racionada a porções mínimas, muitas vezes restrita a pedaços de pão seco e goles de água. O ar abafado dos túneis carregava o odor de umidade e medo. As conversas entre os sequestradores, em árabe, chegavam aos seus ouvidos como murmúrios incompreensíveis que podiam anunciar tanto a continuidade da rotina opressiva quanto uma ameaça iminente. Durante essas sete semanas e meia, Sapir não recebeu qualquer informação sobre o paradeiro de Sasha. A mente, em situações assim, torna-se um campo de batalha entre a esperança e a desolação. Ela oscilava entre a convicção de que ele estava vivo e o temor paralisante de que já tivesse sido executado.
A libertação de Sapir ocorreu em novembro de 2023, no âmbito de um acordo de trégua temporária mediado por Egito, Catar e Estados Unidos. Ela foi entregue à Cruz Vermelha em um ponto da fronteira e conduzida a território israelense. O corpo estava livre, mas a alma continuava aprisionada em Gaza. Enquanto recebia atendimento médico e psicológico, Sapir tomou para si uma missão que consumiria todas as suas energias: trazer Sasha de volta. Transformou-se em uma das vozes mais ativas do movimento de familiares de reféns, concedendo entrevistas a veículos de imprensa do mundo inteiro, reunindo-se com diplomatas, discursando em praças e participando de vigílias. Sua imagem percorreu o planeta: uma jovem de olhar firme, carregando cartazes com o rosto do namorado, repetindo incansavelmente que o tempo estava se esgotando. A cada dia que passava, a angústia aumentava, mas a determinação não cedia.
Enquanto Sapir batalhava no exterior, Sasha vivia o inferno de um cativeiro que se estenderia por quase 500 dias. O número exato de 498 dias o coloca entre os reféns que mais tempo permaneceram em poder do Hamas antes de recuperarem a liberdade. Isolado de outros prisioneiros por longos períodos, submetido a violência psicológica contínua, ele desconhecia completamente a situação de Sapir. Os sequestradores, cientes do valor estratégico da desinformação, nunca revelaram que ela havia sido solta. Sasha chegou a acreditar que a namorada continuava presa em algum outro túnel ou, pior, que não resistira. A mente humana, quando privada de referências externas, constrói cenários a partir do medo. Ele imaginava o pior. A fé, porém, funcionou como uma âncora. Em declarações posteriores, Sasha afirmaria que repetia preces mentalmente, agarrando-se à crença de que um propósito maior sustentava sua sobrevivência.
A virada aconteceu em fevereiro de 2025, quando um novo cessar-fogo permitiu a libertação de outro grupo de reféns. Sasha estava entre os nomes da lista. A negociação foi tensa, com avanços e recuos que se arrastaram por dias, até que os detalhes logísticos foram finalmente acertados. No momento da soltura, ele foi entregue a representantes da Cruz Vermelha e transportado para uma base militar israelense. A notícia correu o mundo em minutos. Sapir, que acompanhava cada atualização com o coração disparado, foi levada às pressas para o local do reencontro. As câmeras de segurança da instalação registraram o instante exato em que os dois se avistaram. Ela correu em sua direção. Ele abriu os braços com uma expressão que misturava incredulidade e alívio. O abraço, que durou longos segundos, dispensou palavras. Ali estava a prova de que a resistência humana pode, de fato, dobrar as engrenagens da brutalidade.
O período de recuperação física e emocional teve início imediatamente. Sasha precisou se readaptar à luz do sol, aos espaços abertos, ao simples ato de caminhar sem correntes. Sapir, por sua vez, enfrentou o desafio de assimilar que a batalha que travara durante um ano e quatro meses finalmente chegara ao fim. O casal foi acolhido por uma rede de profissionais de saúde especializados em trauma de guerra, mas a principal terapia veio da própria relação. A convivência retomada, os diálogos que antes pareciam impossíveis e os planos que voltaram a existir funcionaram como um bálsamo sobre as feridas abertas pela violência. O amor, tantas vezes tratado como abstração poética, revelou-se ali um instrumento concreto de reconstrução.
A cerimônia de casamento, realizada ontem, foi concebida não como um evento midiático, mas como uma celebração íntima carregada de simbolismo. O local escolhido foi uma área verde nos arredores do que restou do Kibutz Nir Oz, hoje em processo de reconstrução. Parentes, amigos próximos e outros sobreviventes do ataque compareceram. O noivo vestia um terno azul escuro. A noiva optou por um vestido branco de linhas simples, com um véu que lhe cobria parcialmente o rosto. Um rabino da região, que conhecia as famílias antes da tragédia, conduziu o ritual. No momento da quebra do copo, tradição judaica que simboliza que mesmo na alegria não se deve esquecer as dores do passado, ouviu-se um choro abafado entre os presentes. Não era tristeza. Era a emoção transbordando de quem testemunhava o impossível se materializar diante dos olhos.
O casamento de Sasha Troufanov e Sapir Cohen carrega um significado que ultrapassa as fronteiras do pessoal. Ele se insere em uma narrativa mais ampla sobre a capacidade humana de transformar dor em propósito. O Hamas tentou reduzi-los a números de uma equação política, a peças de um tabuleiro de terror. Fracassou. Os dois emergiram do cativeiro não como vítimas passivas, mas como protagonistas de uma história em que a esperança se recusa a capitular. A união deles não apaga as cicatrizes, não invalida o luto pelas vidas perdidas naquele 7 de outubro, não minimiza o tormento dos que ainda aguardam o retorno de entes queridos. Mas proclama, com a eloquência de um gesto simples, que a vida merece ser vivida.
Hoje, Sasha e Sapir iniciam uma nova etapa. Seguem com acompanhamento terapêutico e permanecem engajados em iniciativas de apoio a ex-reféns e familiares de desaparecidos. A casa que planejam construir juntos não será erguida sobre o esquecimento, mas sobre a memória de tudo o que enfrentaram. A cada manhã, quando abrirem os olhos, saberão que o sol que entra pela janela é o mesmo que lhes foi negado durante a escuridão do cativeiro. E que, por mais longa que seja a noite, a aurora sempre encontra um caminho.
Os detalhes desta reportagem foram apurados a partir de depoimentos prestados por Sapir Cohen e Sasha Troufanov a veículos jornalísticos internacionais, de informações divulgadas pelo Fórum de Famílias de Reféns e Desaparecidos, de comunicados oficiais emitidos pelas Forças de Defesa de Israel e de registros obtidos por correspondentes da imprensa estrangeira que acompanharam in loco as libertações ocorridas em novembro de 2023 e fevereiro de 2025. Também foram consultados arquivos da Associated Press, Reuters, The Times of Israel e Ynet, bem como relatórios de organizações humanitárias que atuaram na recepção e acolhimento dos reféns libertados.