Fifa libera Argentina para vestir uniforme considerado amuleto diante da Inglaterra oficialmente solicitado
Fifa autoriza pedido urgente da AFA e argentinos vestem uniforme reserva que só trouxe vitórias diante dos ingleses em Mundiais.
O pedido chegou à sede da Federação Internacional de Futebol no início da tarde de domingo com uma etiqueta que não deixava margem para dúvidas: urgente. A Associação do Futebol Argentino, a AFA, não queria correr o risco de ver sua seleção entrar em campo contra a Inglaterra vestindo a tradicional camisa alviceleste. A solicitação formal, protocolada em meio aos preparativos para a semifinal da Copa do Mundo de 2026, pedia autorização para que a equipe de Lionel Scaloni utilizasse o uniforme reserva na partida decisiva que será disputada nesta quarta-feira, dia 15 de julho, no Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta, a partir das 16 horas pelo horário de Brasília. A resposta positiva veio na segunda-feira, dia 13, e com ela a confirmação de que a Argentina enfrentará os ingleses trajando o manto azul escuro que carrega consigo um histórico impecável diante deste adversário específico.
Uma superstição enraizada nas profundezas do folclore futebolístico argentino
A crença que moveu os dirigentes da AFA a acionarem a Fifa com tamanha pressa não nasceu do acaso. Ela é fruto de um recorte histórico que se confunde com alguns dos capítulos mais emblemáticos do futebol mundial. Em quatro confrontos realizados em Copas do Mundo, Argentina e Inglaterra construíram uma simetria perfeita no placar geral: duas vitórias para cada lado. O que salta aos olhos de qualquer observador atento, contudo, é o padrão cromático que separa os triunfos das derrotas. Toda vez que os argentinos vestiram azul escuro contra os ingleses, saíram de campo classificados. Toda vez que insistiram no alviceleste, sucumbiram.
A primeira dessas batalhas ocorreu em solo britânico, durante a Copa de 1966. A Argentina entrou no gramado do antigo Estádio de Wembley com seu uniforme principal e protagonizou um duelo tenso contra os donos da casa. O resultado foi uma derrota pelo placar mínimo, em uma partida repleta de controvérsias de arbitragem e que culminou com a expulsão do capitão Antonio Rattín, personagem que se recusou a deixar o campo e sentou-se no tapete vermelho estendido para a Rainha Elizabeth II. A imagem se tornou um símbolo da rivalidade que transcendia o esporte.
Vinte anos se passaram até o reencontro em Copas. O palco foi o Estádio Azteca, na Cidade do México, e a data entrou para a eternidade esportiva. Com a camisa azul escura, Diego Armando Maradona protagonizou os seis minutos mais comentados da história do futebol. Primeiro, o punho esquerdo que enganou o árbitro tunisiano Ali Bin Nasser. Depois, a arrancada descomunal que deixou meio time inglês pelo caminho. Vitória por 2 a 1, classificação garantida e a convicção que se solidificava: contra a Inglaterra, o azul escuro trazia sorte.
O terceiro capítulo foi escrito na França, em 1998, pelas oitavas de final daquele Mundial. Novamente de azul, a Argentina viu Michael Owen marcar um gol antológico aos 18 anos de idade, buscou o empate com um gol de pênalti e virou em uma jogada de laboratório que terminou nos pés de Javier Zanetti. O empate inglês no segundo tempo levou a decisão para a prorrogação e depois para os pênaltis, onde a defesa do goleiro Carlos Roa selou mais um triunfo sul-americano.
Quatro anos mais tarde, em 2002, na Copa disputada no Japão e na Coreia do Sul, a escrita foi desafiada. A Argentina voltou a usar o alviceleste para enfrentar a Inglaterra na fase de grupos. David Beckham, que havia sido expulso na partida anterior entre as duas seleções, cobrou um pênalti com precisão e deu números finais ao confronto: 1 a 0 para os europeus. A mística, longe de ser quebrada, apenas ganhou mais um tijolo em sua construção. O padrão era irrefutável. O azul escuro jamais havia falhado. O alviceleste jamais havia triunfado.
Os bastidores de uma decisão tratada como prioridade máxima
A delegação argentina desembarcou nos Estados Unidos com a consciência plena do peso estatístico que carregava. Nos círculos internos da AFA, o tema já era debatido desde o momento em que a chave da semifinal foi definida. Assim que a Inglaterra confirmou sua vaga ao eliminar a França nas quartas de final, os dirigentes argentinos iniciaram as consultas sobre a viabilidade do pedido. O regulamento da competição estabelece que a equipe mandante tem prioridade na escolha do uniforme. A Inglaterra, designada como anfitriã administrativa para esta partida, comunicou formalmente que utilizaria seu conjunto completamente branco, uma tradição que remonta à fundação da seleção e que evoca a conquista do Mundial de 1966.
Com o branco inglês confirmado, o caminho ficou livre para a Argentina pleitear o uniforme reserva. O alviceleste, nestas condições, não seria obrigatório, mas poderia ser adotado por opção da comissão técnica. Foi exatamente contra essa possibilidade que a AFA se mobilizou. A solicitação foi redigida em tom protocolar, citando questões de contraste visual e conforto dos atletas sob a iluminação artificial do estádio coberto, mas nos corredores da entidade ninguém fazia segredo da verdadeira motivação: o peso da superstição sobre o elenco e sobre a torcida.
A Fifa analisou o pedido em menos de 24 horas. A entidade, acostumada a lidar com solicitações semelhantes ao longo de sua história, entendeu que não havia óbice regulamentar e deu o aval. A informação vazou para a imprensa primeiro na Argentina, depois ganhou repercussão global. A Folha de S.Paulo confirmou os detalhes da autorização em primeira mão, revelando os bastidores de uma decisão que une o pragmatismo administrativo ao misticismo que permeia o futebol de alto rendimento.
O palco da decisão e o peso da história
O Mercedes-Benz Stadium, localizado no coração de Atlanta, na Geórgia, será o cenário deste novo episódio de uma rivalidade que ultrapassou as fronteiras esportivas há décadas. Inaugurado em 2017, o estádio é uma das joias da arquitetura esportiva contemporânea, com capacidade para mais de 70 mil espectadores, cobertura retrátil e um telão circular de 360 graus que transforma cada partida em um espetáculo visual. A escolha do local para uma semifinal de Copa do Mundo reflete a estratégia da organização de levar jogos de alto impacto para arenas multiuso de padrão internacional.
Para a Argentina, a partida representa a possibilidade de manter viva a defesa do título conquistado no Catar, em dezembro de 2022. Para a Inglaterra, a chance de voltar a uma final de Copa do Mundo exatos 60 anos após a conquista de 1966, que segue sendo o único título mundial dos Três Leões. O peso simbólico não escapa a ninguém. A rivalidade entre os dois países, alimentada por questões que vão da geopolítica ao futebol, encontra no gramado um canal de expressão que nenhuma outra arena consegue proporcionar.
O uniforme que a Argentina vestirá já está separado e devidamente acomodado no vestiário visitante do estádio. Camisas azuis escuras com detalhes em dourado, calções da mesma cor e meiões que completam o conjunto reserva. Do lado inglês, a indumentária branca impecável, com os três leões bordados no peito e a tradição de uma escola de futebol que se orgulha de sua história. O contraste entre as cores será total, assim como o contraste entre as trajetórias que conduziram as duas seleções até este ponto do torneio.
A concentração argentina e a blindagem contra qualquer fator externo
O técnico Lionel Scaloni manteve, ao longo de toda a semana, um discurso focado exclusivamente no aspecto tático e técnico da partida. Questionado sobre a polêmica do uniforme, limitou-se a afirmar que a decisão cabia à direção da AFA e que o elenco estava preparado para jogar com qualquer camisa. Nos bastidores, porém, o alívio foi palpável quando a autorização foi confirmada. Jogadores mais experientes, que conhecem a fundo a história dos confrontos e a mística que os envolve, respiraram com mais tranquilidade ao saber que o azul escuro estaria sobre seus ombros no túnel de entrada.
A superstição no futebol argentino não é um fenômeno periférico. Ela está entranhada na cultura do país, que já viu cabalas serem mantidas por torcedores durante torneios inteiros, que testemunhou rituais coletivos ganharem status de patrimônio popular e que entende o esporte como uma extensão da vida emocional da nação. O uniforme reserva contra a Inglaterra não é apenas uma peça de vestuário. É um amuleto, um escudo, uma declaração de fé na repetição dos ciclos favoráveis da história.
O que está em jogo em Atlanta transcende a vaga na final da Copa do Mundo de 2026. Está em disputa a narrativa de uma rivalidade que já dura seis décadas, a honra de duas nações que se respeitam e se provocam mutuamente, e a chance de acrescentar mais um parágrafo a uma crônica que já teve mão de Deus, gol do século, vinganças simbólicas e heróis eternizados. O azul escuro estará lá, carregando consigo o peso de duas vitórias e a esperança de uma terceira. O alviceleste, desta vez, ficará guardado no armário, à espera de uma final que, se vier, poderá enfim vesti-lo sem os fantasmas de 1966 e 2002.
Fonte: FIFA