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Ciência e Tecnologia

Robô humanoide realiza cirurgia em animal vivo pela primeira vez

By Régis Andrade
27 de julho de 2026 4 Min Read
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Máquina de forma humana remove vesícula biliar de porcos sob comando remoto em experimento inédito na Califórnia.

Inovação histórica na medicina experimental coloca um robô de estrutura humanoide no centro de uma intervenção cirúrgica completa, alterando os rumos da telecirurgia e da assistência remota em ambientes de alto risco

O campo da cirurgia robótica acaba de testemunhar um capítulo que parecia restrito à ficção científica. Um grupo de pesquisa da Universidade da Califórnia, em San Diego, demonstrou que um robô com formato humanoide é capaz de conduzir, sob comando remoto, um procedimento laparoscópico real em organismos vivos de grande porte. Pela primeira vez, a remoção completa da vesícula biliar foi executada em porcos por uma máquina que reproduz a silhueta, a amplitude de movimento e a destreza de um cirurgião humano. O feito não apenas expande as fronteiras da engenharia biomédica como oferece uma resposta concreta a um dos maiores desafios da saúde global: levar assistência altamente especializada a territórios onde não há infraestrutura nem profissionais disponíveis.

Os detalhes técnicos e os desfechos clínicos da experiência foram submetidos ao escrutínio da comunidade científica internacional por meio de publicação na revista Nature no dia 8 de julho. O artigo classifica o trabalho como uma prova de conceito bem-sucedida, deixando claro que a aplicação clínica em pacientes humanos ainda depende de etapas adicionais de validação. No entanto, os resultados atingidos nos animais mostram que a plataforma humanoides está pronta para evoluir de um protótipo de laboratório para um sistema de suporte cirúrgico em cenários onde cada minuto e cada gesto são decisivos.

Antes de qualquer contato com o tecido vivo, a equipe dedicou semanas a uma bateria de exercícios de motricidade fina. Os robôs foram desafiados a manusear gaze, pinças, agulhas e outros instrumentos laparoscópicos com controle milimétrico, simulando a sequência de movimentos exigida em uma cirurgia abdominal. A calibração envolveu desde a força aplicada na ponta dos dedos mecânicos até a rotação precisa do punho robótico, tudo monitorado por sensores de alta resolução. Essa etapa de adaptação serviu para eliminar tremores, calibrar a latência dos comandos e garantir que a estrutura metálica reproduzisse com naturalidade biomecânica as ordens enviadas pelo cirurgião.

Com a precisão motora devidamente validada, os animais foram preparados para a intervenção definitiva. Os porcos receberam anestesia geral e ventilação controlada enquanto a equipe posicionava o robô humanoide junto à mesa cirúrgica. A operação consistiu em uma colecistectomia por via laparoscópica, procedimento que exige a inserção de microcâmeras e instrumentos através de pequenas aberturas no abdômen. Durante toda a cirurgia, um cirurgião experiente permaneceu em um console afastado, observando as imagens transmitidas em tempo real e comandando cada gesto do robô por meio de controles hápticos. Ao lado do animal, um médico veterinário e um anestesista acompanhavam as constantes vitais, prontos para interromper o experimento diante de qualquer intercorrência.

Em um dos procedimentos realizados, a dinâmica da sala cirúrgica ganhou um elemento adicional. Um segundo robô humanoide foi acionado por breves instantes para desempenhar o papel de auxiliar, segurando um afastador de tecidos e liberando o campo operatório para o operador principal. A cena, registrada integralmente pelos pesquisadores, materializou o conceito de uma equipe cirúrgica totalmente robótica, ainda que em estágio inicial e por tempo limitado. As duas cirurgias concluídas foram consideradas exitosas. Houve um episódio isolado de sangramento em um dos casos, rapidamente contido e sem repercussão hemodinâmica para o animal.

O cirurgião Shanglei Liu, que atuou diretamente na pesquisa, comparou o momento atual da tecnologia aos primeiros anos da cirurgia robótica convencional, quando plataformas fixas também enfrentavam desconfiança e limitações técnicas antes de se consolidarem. Liu reconheceu que ainda há barreiras a superar, como a colisão entre os instrumentos durante manobras simultâneas, o atraso de sinal entre o console de comando e o robô, e a necessidade de reposicionar a estrutura durante o ato cirúrgico para manter o alcance ideal. Ainda assim, o especialista ressaltou um dado impressionante: o salto do conceito teórico para o experimento em animal vivo demandou apenas nove meses de trabalho intenso.

A utilização de robôs humanoides em cirurgia traz uma vantagem conceitual importante em relação aos sistemas robóticos fixos que dominam os grandes centros hospitalares. Por serem projetados para ocupar espaços originalmente pensados para humanos, essas máquinas podem se adaptar a salas cirúrgicas improvisadas, hospitais de campanha, embarcações de resgate e até mesmo bases isoladas de pesquisa. Seu formato antropomórfico permite que utilizem instrumentos cirúrgicos convencionais, sem a necessidade de ferramentas patenteadas ou adaptações complexas, o que reduz custos e amplia a possibilidade de implantação em regiões com orçamentos restritos.

Outro aspecto que emerge do experimento é a possibilidade de se criar redes colaborativas de telecirurgia. Um cirurgião situado em um grande complexo hospitalar poderia, no futuro, assumir o controle de um robô humanoides em qualquer continente, operando pacientes em zonas de conflito armado, regiões atingidas por desastres naturais ou localidades onde determinada especialidade simplesmente não existe. O estudo da Universidade da Califórnia oferece a primeira evidência sólida de que essa ambição não é descabida, ainda que o caminho regulatório e técnico seja longo.

A comunidade científica agora aguarda as próximas fases da investigação, que deverão incluir novos testes em modelos animais, o refinamento dos algoritmos de compensação de latência e a integração de sistemas de inteligência artificial capazes de prever movimentos e evitar colisões automaticamente. Também será necessário comprovar a segurança da esterilização do corpo robótico em ambiente cirúrgico, um desafio não trivial quando se trata de estruturas mecânicas complexas. O marco estabelecido na Califórnia, entretanto, já entrou para a história como o dia em que um robô de forma humanoide deixou de ser apenas um auxiliar de laboratório e assumiu o centro da cena em uma cirurgia real.

Referências
Estudo original publicado na revista Nature em 8 de julho.
Declarações do cirurgião Shanglei Liu, da Universidade da Califórnia em San Diego, concedidas ao portal ScienceAlert.
Documentação técnica do Laboratório de Robótica Médica da Universidade da Califórnia em San Diego.

Tags:

cirurgia robóticaremoção vesícula biliarrobô humanoide cirurgiarobô humanoide médicotelecirurgia
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Régis Andrade

Eu sou Régis Andrade, criador do Portal de Notícias.

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