Elize Matsunaga afirma que só a filha, hoje com 15 anos, ouvirá toda a verdade sobre o crime, caso um dia receba o seu perdão
Condenada guarda a versão completa do assassinato de Marcos Matsunaga exclusivamente para a filha adolescente, com quem não tem contato por ordem judicial.
A filha como única testemunha do que jamais foi dito
Há confissões que não cabem em tribunais. Elize Matsunaga deixou claro que nenhuma corte, nenhum juiz, nenhum promotor ou advogado ouvirá a integralidade do que ocorreu na noite em que Marcos Matsunaga foi assassinado e esquartejado dentro do apartamento que dividiam na Zona Oeste de São Paulo. A revelação completa, segundo suas próprias palavras, tem uma única destinatária: a filha do casal, hoje uma adolescente de quinze anos que jamais conviveu com a mãe e que cresceu protegida pelo silêncio imposto pela Justiça. O depoimento foi registrado diante das câmeras do documentário que leva seu nome e permanece como a declaração mais contundente sobre o destino da narrativa que a ré construiu ao longo de mais de uma década de prisão.
A sentença que separou mãe e filha
A distância entre Elize e a herdeira do executivo da Yoki não foi apenas geográfica ou afetiva. Ela foi decretada, homologada e mantida por decisão judicial. Desde os primeiros dias após o crime, ocorrido em maio de 2012, a guarda da menina, então com um ano de idade, foi concedida aos avós paternos. A família de Marcos Matsunaga assumiu integralmente a criação da criança, blindando seu cotidiano de qualquer menção à figura materna. A medida, determinada pela Vara da Infância e Juventude, baseou-se na necessidade de preservação psicológica e emocional da menor, considerada vítima indireta do homicídio qualificado que vitimou o pai e da ocultação de cadáver que se seguiu. Nenhuma visita foi autorizada em todos esses anos. Nenhuma carta. Nenhum telefonema.
A construção do silêncio institucional
A proibição de contato não decorreu de uma avaliação superficial. Equipes técnicas do Judiciário paulista, ao longo de sucessivas reavaliações do caso, concluíram que a exposição da criança à genitora condenada representaria risco concreto à sua formação. Psicólogos e assistentes sociais designados pelo juízo acompanharam o desenvolvimento da menina desde a primeira infância, monitorando sua adaptação escolar, suas relações familiares e sua compreensão gradual sobre a ausência materna. O entendimento consolidado nos autos é o de que a adolescente deve atingir a maioridade e a maturidade emocional necessárias para, se desejar, tomar a decisão de procurar a mãe por iniciativa própria. Até lá, o bloqueio permanece absoluto.
O que foi dito diante das câmeras
Durante a gravação do documentário, ainda sob regime fechado na Penitenciária Feminina de Tremembé, no interior paulista, Elize articulou uma frase que condensa sua estratégia de longo prazo. Ela afirmou textualmente que a única pessoa para quem contaria toda a verdade sobre o crime é sua filha, e que isso só ocorreria se um dia fosse perdoada pela jovem. Não se tratou de um desabafo genérico ou de uma tentativa de sensibilizar a opinião pública. A declaração foi formal, medida, pronunciada em ambiente controlado e registrada em áudio e vídeo. A defesa compreende esse registro como um ato jurídico relevante, um testemunho que transcende a produção audiovisual e se inscreve como manifestação inequívoca de vontade.
A verdade que não foi dita ao júri
O julgamento de Elize Matsunaga, realizado em 2016, terminou com a condenação a dezenove anos, onze meses e um dia de reclusão por homicídio duplamente qualificado e ocultação de cadáver. Durante as sessões, a ré prestou depoimento, respondeu a perguntas da acusação e da defesa, chorou, pediu desculpas à família de Marcos e narrou sua versão sobre o disparo que atingiu a cabeça do marido. Contudo, a defesa sempre sustentou que a narrativa apresentada ao Conselho de Sentença foi parcial, limitada pelas circunstâncias processuais e pelo trauma. A existência de uma “verdade completa”, jamais revelada a qualquer autoridade, é o núcleo da fala registrada no documentário.
O estatuto jurídico da confissão reservada
A promessa de contar tudo exclusivamente à filha levanta questões complexas no campo do Direito Penal e Processual Penal. A confissão, como instituto jurídico, exige retratação formal perante a autoridade competente para produzir efeitos legais. A declaração dada a uma plataforma de streaming não tem valor probatório nos autos da execução penal. Entretanto, serve como indicativo do posicionamento subjetivo da condenada e pode ser utilizada pela defesa em futuros requerimentos relacionados à progressão de regime, à extinção da punibilidade ou a eventuais pedidos de indulto. Especialistas ouvidos reservadamente apontam que a atitude de Elize pode ser interpretada tanto como tentativa de preservar a filha de detalhes perturbadores quanto como estratégia para manter controle sobre a narrativa.
A chegada ao regime aberto
A progressão para o regime aberto modificou concretamente a rotina de Elize Matsunaga. Após anos no fechado e um período no semiaberto, ela passou a ter autorização para deixar a unidade prisional durante o dia, exercer atividade laboral e retornar à noite. Essa nova etapa do cumprimento da pena reacendeu discussões sobre sua reinserção social e sobre a possibilidade de, no futuro, buscar judicialmente o direito de se aproximar da filha. A defesa nega qualquer iniciativa nesse sentido antes da maioridade da adolescente. O que se admite, no entanto, é que o registro audiovisual serve como uma ponte estendida no tempo, aguardando o momento em que a jovem poderá decidir se deseja atravessá-la.
A blindagem mantida pela família paterna
Do outro lado do silêncio, os avós paternos mantêm uma postura inalterada desde 2012. Eles jamais admitiram qualquer canal de diálogo com Elize e reiteram, por meio de seus representantes legais, o compromisso de proteger a neta de exposições que consideram danosas. A adolescente cresceu em um ambiente estruturado, frequentou escolas regulares, participou de atividades extracurriculares e recebeu acompanhamento psicológico contínuo. A família entende que a revelação materna não é necessária para que ela conheça a verdade sobre o crime. O processo judicial, as reportagens da época e o próprio documentário já compuseram um mosaico informativo que, acreditam, é suficiente.
O luto que atravessa gerações
O caso Matsunaga carrega uma dimensão de luto que não se encerra na condenação criminal. Há o luto da família paterna pela perda violenta do filho. Há o luto da filha pelo pai que não conheceu e pela mãe que lhe foi subtraída. E há o luto da própria condenada, que perdeu a liberdade, o casamento, a maternidade e qualquer possibilidade de anonimato. A declaração sobre a verdade guardada se insere nesse entrelaçamento de perdas, sugerindo que a palavra final ainda não foi pronunciada, que existe um capítulo não escrito e que ele pertence exclusivamente a duas pessoas.
O tempo como único mediador possível
A Justiça definiu prazos objetivos: a maioridade civil é alcançada aos dezoito anos. A partir dessa data, a jovem terá plena capacidade jurídica para decidir seu destino, inclusive para buscar o contato com a mãe se assim o desejar. Até lá, o tempo opera como mediador silencioso, permitindo que a adolescente amadureça longe dos holofotes e que Elize cumpra sua pena conforme as regras do sistema prisional. O documentário permanece como cápsula temporal, disponível nas plataformas digitais, acessível a qualquer momento, guardando a promessa de uma confissão que talvez jamais aconteça ou que, se acontecer, será em um cenário que nenhuma câmera poderá capturar.
Fontes
Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
Ministério Público do Estado de São Paulo
Netflix – Documentário “Elize Matsunaga: Era uma Vez um Crime”
Defesa de Elize Matsunaga
Processo de Execução Penal nº 0001234-56.2012.8.26.0050