Marcelo Marques e Claudiomar transformam produção no quintal em gigante bilionária do pão no Brasil
Em um cenário comum da periferia da região metropolitana de Porto Alegre, no fim da década de 1990, uma oportunidade discreta deu origem a uma das maiores operações do setor alimentício do país. O ponto de partida foi Gravataí, onde a rotina de trabalho duro e renda limitada fazia parte da realidade de muitas famílias. Foi nesse ambiente que Claudiomar Marques, então policial militar, complementava sua renda atuando como segurança em um pequeno mercado de bairro.
Nos fundos desse estabelecimento, funcionava uma produção artesanal de pães que já não despertava mais o interesse do proprietário. A decisão de encerrar a atividade abriu espaço para uma negociação direta, sem formalidades, que resultou na oferta de todo o negócio por R$ 30 mil. Mesmo sem capital sobrando e com riscos evidentes, Claudiomar identificou potencial naquilo que muitos considerariam apenas mais um ponto comercial comum.
Para transformar a oportunidade em algo viável, ele buscou apoio dentro de casa. O irmão mais novo, Marcelo Marques, ainda dividia seus planos entre a tentativa de seguir carreira no futebol e a necessidade de construir um futuro mais concreto. A escolha foi pragmática. Ao lado de Claudiomar, decidiu apostar no negócio, iniciando uma jornada empreendedora sem qualquer estrutura industrial.
A produção começou no quintal da casa dos pais, Edemar e Elga, em um ambiente improvisado, onde cada etapa era realizada manualmente. Não havia escala, tecnologia ou distribuição estruturada. O que existia era esforço contínuo, adaptação e uma rotina intensa para garantir qualidade e consistência em um produto básico. O pão francês, conhecido regionalmente como cacetinho, foi o foco desde o início. A escolha não foi casual. Trata-se de um dos itens mais consumidos do país, presente diariamente na mesa do brasileiro, mas também um dos mercados mais disputados.
A logística inicial refletia as limitações da operação. As entregas eram feitas com uma Kombi pertencente à família, utilizada anteriormente em serviços de buffet. Foi nesse veículo que Marcelo percorreu ruas da região, estabelecendo os primeiros contatos comerciais com pequenos mercados e padarias. A proximidade com os clientes e a regularidade das entregas foram fundamentais para consolidar confiança e garantir pedidos recorrentes.
Com o passar do tempo, o crescimento deixou de depender apenas da produção manual. A necessidade de ampliar a capacidade e atender uma demanda crescente exigiu mudanças estruturais. O momento decisivo veio com a adoção do modelo de pão congelado, uma estratégia que redefiniu completamente o alcance do negócio. Ao permitir maior durabilidade e facilitar o transporte em longas distâncias, o produto deixou de estar restrito ao consumo local e passou a abastecer diferentes regiões com padronização e eficiência.
A partir dessa mudança, a operação ganhou características industriais. Investimentos em tecnologia, logística e expansão geográfica começaram a moldar uma empresa com ambição nacional. Um dos marcos dessa trajetória ocorreu em 2013, com a inauguração de uma unidade em Tatuí, no interior de São Paulo. A entrada no Sudeste representou não apenas crescimento territorial, mas também acesso ao maior mercado consumidor do país.
Nos anos seguintes, a expansão seguiu de forma acelerada e estruturada. A empresa consolidou presença em diferentes regiões, ampliou sua rede de distribuição e fortaleceu sua capacidade produtiva. Atualmente, a operação conta com nove unidades industriais espalhadas pelo Brasil, sustentadas por uma frota de aproximadamente 600 caminhões responsáveis por garantir abastecimento contínuo. O quadro de funcionários ultrapassa 5 mil colaboradores, e a base de clientes gira em torno de 20 mil pontos de venda atendidos regularmente.
A escala atingida impressiona pelos números. A produção diária chega a cerca de 20 milhões de pães, posicionando a empresa como a maior fabricante de pão francês do mundo. O faturamento anual alcança aproximadamente R$ 4 bilhões, resultado de uma combinação entre volume, eficiência logística e presença nacional consolidada.
Paralelamente ao crescimento empresarial, Marcelo Marques protagonizou um episódio que ampliou sua visibilidade fora do setor. Em 2024, realizou um aporte financeiro significativo para quitar a dívida da Arena do Grêmio, permitindo que o estádio retornasse ao controle do clube. A iniciativa foi interpretada como um gesto pessoal, ligado à sua relação com o time, e ganhou repercussão em diferentes setores.
A trajetória construída ao longo de mais de duas décadas revela um padrão consistente de decisões estratégicas bem executadas. O que começou como uma produção artesanal no quintal de uma residência evoluiu para uma operação industrial de grande porte, com presença nacional e impacto direto no cotidiano de milhões de consumidores.
Fonte: informações públicas sobre a trajetória da empresa e declarações divulgadas pela própria companhia e imprensa nacional.