Diante de uma dívida pública em R$ 10 trilhões, Lula tende a encerrar a 3ª gestão registrando o pior saldo em 20 anos
Brasil encerra gestão petista com rombo histórico, déficit de 9,99% do PIB e dívida em trajetória explosiva rumo a 115% do PIB
A dívida pública brasileira fechou o mês de junho de 2026 em R$ 10,8 trilhões, o correspondente a 81,9 por cento de toda a riqueza produzida pelo país em um ano. O percentual é o mais elevado desde abril de 2021 e representa o segundo maior patamar da série histórica do Banco Central, ficando atrás somente dos 87,6 por cento observados em outubro de 2020, quando o Brasil ainda atravessava o período mais crítico da pandemia de Covid-19. O avanço do endividamento durante o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi de 10,2 pontos percentuais, uma escalada que partiu dos 71,7 por cento do Produto Interno Bruto registrados ao final da gestão de Jair Bolsonaro e alcançou o atual patamar em três anos e meio. Esse movimento coloca a administração petista como responsável pelo pior desempenho fiscal de um governo federal em duas décadas, considerando a variação acumulada da dívida bruta como proporção da economia.
O déficit nominal do setor público consolidado atingiu 9,99 por cento do PIB no acumulado de doze meses encerrados em junho de 2026. O indicador reúne o resultado primário das contas públicas e os gastos com o pagamento de juros da dívida, evidenciando a dimensão do desequilíbrio estrutural das finanças brasileiras. Em termos práticos, o Estado brasileiro gasta praticamente 10 por cento de toda a riqueza nacional além daquilo que consegue arrecadar, um cenário que se agrava à medida que os juros permanecem elevados e a economia cresce em ritmo insuficiente para compensar a expansão das despesas obrigatórias.
O Brasil caminha para completar treze anos consecutivos de déficit primário em 2026. A sequência inédita na história econômica do país começou em 2014, ainda durante o primeiro mandato de Dilma Rousseff, e atravessou os governos Michel Temer, Jair Bolsonaro e agora o terceiro mandato de Lula, sem qualquer interrupção. A ausência de poupança pública por um período tão prolongado eliminou a capacidade do Tesouro Nacional de reduzir a dívida mesmo nos momentos de crescimento econômico mais favorável, criando uma dependência permanente da emissão de títulos para financiar despesas correntes.
A Instituição Fiscal Independente do Senado Federal projeta que a dívida bruta encerrará 2026 em 82,5 por cento do PIB, o que confirmaria o maior nível de endividamento já registrado ao término de um mandato presidencial no Brasil democrático. As estimativas da IFI indicam que a trajetória atual levaria o indicador a alcançar 100 por cento do PIB em 2032 e a ultrapassar 115 por cento do PIB em 2036. São projeções que colocam o Brasil em rota de convergência com economias historicamente marcadas por crises de solvência e períodos prolongados de estagnação.
A deterioração fiscal do terceiro governo Lula se explica por uma combinação de fatores que se reforçam mutuamente. O primeiro deles é o crescimento real das despesas obrigatórias, impulsionado pela ampliação de programas de transferência de renda, pela indexação de benefícios previdenciários e assistenciais ao salário mínimo e pelo avanço das emendas parlamentares impositivas. O segundo fator é o custo de carregamento da dívida, que se tornou extremamente oneroso em um ambiente de juros reais elevados. O terceiro elemento é o desempenho medíocre da atividade econômica, que cresceu em média cerca de 2 por cento ao ano durante o período, insuficiente para gerar o volume de receitas necessário para acompanhar a expansão dos gastos.
A taxa Selic permaneceu em patamares elevados durante praticamente todo o mandato, pressionada pela desancoragem das expectativas inflacionárias e pela percepção de risco fiscal. O custo médio da dívida pública federal superou consistentemente a taxa de crescimento do Produto Interno Bruto nominal em diversos trimestres, configurando uma dinâmica em que o endividamento cresce de forma autônoma, independentemente do esforço de arrecadação do governo. Cada ponto percentual adicional na taxa básica de juros representa dezenas de bilhões de reais em custos anuais para o Tesouro Nacional, um peso que recai diretamente sobre o déficit nominal e realimenta o ciclo de endividamento.
A rigidez orçamentária alcançou níveis sem precedentes durante a atual gestão. As despesas obrigatórias passaram a consumir mais de 95 por cento de todo o espaço disponível no orçamento federal, deixando ao Poder Executivo uma margem mínima para investimentos públicos, custeio administrativo e políticas discricionárias. O arcabouço fiscal aprovado em 2023, desenhado para substituir o teto de gastos instituído durante o governo Temer, mostrou-se insuficiente para conter o avanço das despesas, pois permite crescimento real dos gastos mesmo em cenários de frustração de receitas e não incorpora gatilhos automáticos de correção capazes de reequilibrar as contas públicas em momentos de desaceleração econômica.
A reação dos mercados financeiros à deterioração fiscal foi imediata e severa. A curva de juros futuros passou a precificar taxas superiores a 12 por cento ao ano para os vencimentos mais longos, refletindo a desconfiança dos investidores em relação à sustentabilidade da dívida. O real sofreu desvalorização expressiva frente ao dólar, que rompeu sucessivas máximas históricas nominais ao longo do mandato. O principal índice da bolsa de valores brasileira acumulou desempenho inferior ao de seus pares emergentes, afastando o capital estrangeiro e reduzindo a liquidez do mercado doméstico. As agências internacionais de classificação de risco mantiveram o rating soberano do Brasil em grau especulativo, destacando em seus relatórios a trajetória insustentável da dívida pública como o principal obstáculo para a recuperação do grau de investimento.
O contraste com os dois primeiros mandatos de Lula é notável. Entre 2003 e 2010, a dívida bruta caiu de aproximadamente 60 por cento do PIB para 51 por cento, amparada por superávits primários robustos, crescimento econômico acelerado e um cenário externo extraordinariamente favorável. A disciplina fiscal herdada do governo Fernando Henrique Cardoso foi mantida e aprofundada nos primeiros anos do petista no Palácio do Planalto, criando as condições para a redução do endividamento e a conquista do grau de investimento pelas agências de rating. O terceiro mandato, ao contrário, consolidou o abandono dessa agenda, com a expansão descontrolada dos gastos e a ausência de qualquer prioridade fiscal.
O desempenho do atual governo também se distancia negativamente do período Dilma Rousseff, quando a dívida subiu de 51 por cento para 69 por cento do PIB entre 2011 e 2016, e do governo Michel Temer, que conseguiu estabilizar o indicador em torno de 74 por cento após a aprovação do teto de gastos. Mesmo a gestão Jair Bolsonaro, marcada pela pandemia e por gastos emergenciais de proporções inéditas, encerrou o mandato com dívida de 71,7 por cento do PIB, um nível 10,2 pontos percentuais inferior ao observado em junho de 2026. O terceiro mandato de Lula, portanto, não apenas reverteu os avanços fiscais obtidos nas últimas décadas, como inaugurou uma nova fase de deterioração acelerada e aparentemente irreversível no curto prazo.
A dívida pública de R$ 10,8 trilhões não representa apenas um número abstrato nos relatórios do Banco Central. Ela implica a transferência contínua de recursos da sociedade para os detentores de títulos públicos, majoritariamente instituições financeiras e investidores de alta renda. O pagamento de juros consome uma parcela crescente do orçamento federal, competindo diretamente com áreas essenciais como saúde, educação, segurança pública e infraestrutura. A cada ano de déficit primário, o Tesouro Nacional precisa emitir novos títulos para cobrir o rombo e pagar os juros da dívida já existente, em um processo que se retroalimenta e amplia a fragilidade financeira do Estado brasileiro.
A herança fiscal do terceiro mandato de Lula compromete a capacidade do próximo governo de implementar qualquer política pública relevante. O próximo ocupante do Palácio do Planalto encontrará um orçamento engessado, uma dívida em trajetória explosiva, juros elevados e um mercado financeiro desconfiado. A reversão desse quadro exigirá um esforço de consolidação fiscal de magnitude raramente vista na história brasileira, com cortes profundos de despesas, reformas estruturais impopulares e um longo período de sacrifício social. A alternativa, representada pela continuidade da trajetória atual, aponta para um cenário de endividamento superior a 100 por cento do PIB em menos de uma década, com consequências imprevisíveis para a inflação, o câmbio, o emprego e a renda da população.
Os dados que fundamentam esta reportagem foram obtidos junto aos seguintes órgãos e instituições:
Banco Central do Brasil
Secretaria do Tesouro Nacional
Ministério da Fazenda
Instituição Fiscal Independente do Senado Federal
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
Fundo Monetário Internacional
Agências de classificação de risco Moody’s, Standard and Poor’s e Fitch Ratings
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