Cardeal Parolin preside vigília histórica e destaca a atualidade do testemunho de Santa Ágata para a Igreja
Catânia se transforma em cenário de fé e história para receber o legado do Papa Leão XIV nas celebrações do nono centenário do retorno das relíquias de Santa Ágata
As ruas milenares da Sicília voltaram a respirar a atmosfera das grandes celebrações da cristandade. Entre os dias 16 e 17 de agosto, a província de Catânia acolheu uma programação religiosa de alcance internacional para comemorar os 900 anos do retorno das relíquias de Santa Ágata, padroeira da cidade e símbolo da resistência espiritual diante da perseguição. O Papa Leão XIV escolheu para representá-lo no evento o Cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado do Vaticano, que chegou à ilha com o título de legado papal e a missão de presidir a vigília de oração, ponto alto das celebrações.
A abertura das atividades ocorreu na Piazza Castello e na Igreja Matriz de Aci Castello, localizadas a poucos quilômetros do centro de Catânia. A escolha desses espaços carrega forte valor simbólico. Aci Castello integra o território historicamente vinculado à passagem de Santa Ágata pela região, e a igreja matriz dedicada à mártir é um dos polos mais antigos de devoção da costa leste da Sicília. Foi ali que os fiéis se reuniram para o primeiro momento da vigília, com a exposição do busto relicário, leituras da Paixão da santa e a oração do terço em tom meditativo.
Com o cair da noite, milhares de peregrinos partiram em caminhada rumo a Catânia, refazendo simbolicamente o percurso que, no ano de 1126, marcou o reencontro da cidade com as relíquias da padroeira, repatriadas de Constantinopla. O translado noturno contou com velas, estandartes, cânticos tradicionais e uma impressionante organização por parte das confrarias e paróquias locais. A procissão atravessou trechos urbanos e estradas vicinais, sempre acompanhada por equipes de segurança, voluntários e membros da proteção civil.
A chegada à Piazza Duomo, já na madrugada do dia 17, transformou o centro de Catânia em um grande altar a céu aberto. A fachada da Catedral de Sant’Agata, iluminada de forma solene, recebeu os peregrinos que lotaram o adro e as ruas adjacentes. O silêncio tomou conta da praça no instante em que as relíquias foram conduzidas ao altar. Em seguida, o Cardeal Parolin iniciou a celebração da vigília eucarística, acompanhado por bispos de diversas dioceses sicilianas, pelo clero local e por autoridades civis e militares.
Na homilia, o legado papal fez uma reflexão direta sobre a atualidade do testemunho de Santa Ágata. O cardeal afirmou que a fidelidade da jovem mártir do século III não pertence apenas à história antiga, mas permanece como um chamado permanente para a Igreja de hoje. Ele recordou que Ágata viveu em um tempo de hostilidade ao cristianismo, enfrentou pressões, ameaças e torturas sem renunciar à sua fé. Para o Secretário de Estado do Vaticano, essa coerência continua a iluminar os cristãos que, em diferentes partes do mundo, sofrem perseguição, marginalização e discriminação por causa do Evangelho.
O Cardeal Parolin também destacou o significado espiritual do retorno das relíquias ocorrido há nove séculos. Para ele, aquele acontecimento representou para o povo catanês muito mais do que a recuperação de objetos sagrados. Tratou-se de um reencontro com a própria identidade religiosa e com a proteção materna da padroeira em um período de reconstrução social e espiritual. O cardeal pediu que o nono centenário seja vivido como um novo retorno: o retorno do coração dos fiéis à essência da fé, à oração, à vida sacramental e ao compromisso com o bem comum.
A celebração seguiu com adoração ao Santíssimo Sacramento, leitura de trechos da antiga liturgia agatina e a entoação do hino oficial em honra à mártir. No ponto alto da noite, o Cardeal Parolin transmitiu a bênção apostólica com indulgência plenária, conforme autorização concedida pelo Papa Leão XIV para o Ano Agatino. Os sinos da catedral soaram por vários minutos, enquanto a multidão respondia com palmas, lágrimas e orações espontâneas.
Durante a cerimônia, o prefeito de Catânia expressou publicamente a gratidão da cidade pela presença do legado papal. Ele sublinhou que a festa de Santa Ágata ultrapassa o âmbito estritamente religioso e se insere na construção da memória coletiva do povo siciliano. O governador da região também acompanhou a vigília e ressaltou o papel das celebrações no fortalecimento do turismo religioso e da economia local, especialmente em um ano comemorativo que atrai peregrinos de vários continentes.
Delegações de imigrantes sicilianos vindas da Argentina, dos Estados Unidos, da Austrália e da Alemanha participaram do evento. Muitos peregrinos vestiam os tradicionais lenços brancos e vermelhos, cores associadas ao martírio e à pureza de Santa Ágata. Bandeiras de diferentes cidades italianas e estrangeiras podiam ser vistas ao longo da praça, formando um mosaico visual que evidenciou a dimensão universal da devoção à santa.
O contexto histórico do nono centenário remonta ao período em que as relíquias de Santa Ágata foram levadas para Constantinopla, após a conquista árabe da Sicília. Durante décadas, os restos mortais da mártir permaneceram longe de Catânia. Em 1126, o soldado Gisliberto e o monge calabrês Goselmo lideraram a missão que conseguiu trazer de volta as relíquias, em meio a um movimento de grande mobilização popular. O retorno foi recebido com celebrações que atravessaram séculos e se consolidaram como uma das maiores festas religiosas da Itália.
A programação oficial do Ano Agatino inclui conferências internacionais, exposições de arte sacra, concertos, peregrinações e encontros de formação. A Arquidiocese de Catânia preparou um calendário extenso, com atividades voltadas tanto para a comunidade local quanto para os visitantes. A presença do Cardeal Parolin como enviado especial do Papa Leão XIV deu ao nono centenário um caráter de evento eclesial de primeira grandeza, conectando a história da Sicília com o coração da Igreja em Roma.
Antes de deixar a cidade, no domingo, dia 17, o Cardeal Parolin manteve um encontro reservado com o clero na Cúria Arquiepiscopal e visitou a sede da Prefeitura de Catânia. No livro de honra do município, o cardeal escreveu palavras de agradecimento ao povo catanês e destacou a vivacidade da fé local. Em declarações breves à imprensa, afirmou que levará ao Papa Leão XIV o testemunho de uma comunidade cristã madura, capaz de transformar uma tradição centenária em espaço de evangelização e encontro com Jesus Cristo.
A expectativa da cidade agora se concentra nas próximas etapas do Ano Agatino, especialmente nas celebrações de fevereiro, quando Catânia realiza as tradicionais procissões com o busto relicário, o fercolo de prata e o característico globo dourado que representa a coroa da santa. Até lá, a chama acesa na vigília de agosto permanece como sinal de que a fidelidade de Santa Ágata segue inspirando gerações.
Fontes
Sala de Imprensa da Santa Sé
Arquidiocese Metropolitana de Catânia
Comunicado oficial da Prefeitura de Catânia
Boletim do Comitê Central das Festas Agatinas
Registros históricos da Basílica Catedral de Sant’Agata
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