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Curiosidades

O terreno da sede da ONU em Nova York foi doado pelo bilionário norte-americano John D. Rockefeller Jr. em 1946

By Régis Andrade
30 de agosto de 2026 8 Min Read
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Como Rockefeller comprou matadouros à beira do East River em segredo para impedir que a ONU deixasse Nova York e mudasse a história

Era uma manhã fria de dezembro de 1946 quando a notícia correu pelas redações dos principais jornais do mundo. Um único homem havia resolvido, com uma canetada financeira, o impasse que ameaçava dispersar a recém criada Organização das Nações Unidas pelos subúrbios da América do Norte. John Davison Rockefeller Junior, herdeiro de uma das maiores fortunas já acumuladas na história do capitalismo, anunciara a compra de um terreno degradado às margens do East River, em Nova York, para entregá lo de presente à comunidade internacional.

O valor exato da transação foi de oito milhões e quinhentos mil dólares. Em valores corrigidos, a quantia superaria facilmente os cem milhões de dólares atuais. A área adquirida tinha aproximadamente sete hectares, o equivalente a sete quarteirões retangulares comprimidos entre a Primeira Avenida e a margem do rio. Naquele momento, o local era ocupado por matadouros industriais, curtumes, depósitos de carne, linhas férreas elevadas, cortiços e armazéns abandonados. O cheiro de sangue e gordura animal impregnava o ar. Ratos cruzavam as ruas de paralelepípedo à luz do dia.

Ninguém, nem mesmo os incorporadores mais otimistas, enxergava ali qualquer potencial imobiliário relevante. O bairro de Turtle Bay, como era conhecido, funcionava como uma zona de sacrifício urbano, espremida entre o luxo do centro financeiro e a decadência industrial da orla. Foi exatamente esse abandono que permitiu a Rockefeller agir com rapidez cirúrgica.

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A decisão de instalar a sede permanente da ONU em Nova York não foi natural nem imediata. Durante os primeiros meses após a fundação da organização, em outubro de 1945, as reuniões aconteciam em instalações provisórias e inadequadas. A Assembleia Geral se reunia num ginásio adaptado em Flushing Meadows, no Queens. O Secretariado funcionava em escritórios alugados em Lake Success, no condado de Nassau. As condições de trabalho eram precárias, e a imagem da organização sofria com a falta de um endereço próprio.

Dezenas de cidades começaram a disputar a honra de abrigar a sede. Filadélfia ofereceu terrenos históricos e vantagens fiscais. San Francisco, que havia sediado a conferência de criação da ONU, reivindicava laços afetivos com a organização. Boston, Chicago e até mesmo cidades canadenses entraram na disputa. Havia propostas para construir uma capital internacional do zero, em território neutro, longe das pressões das grandes potências. Uma ilha no rio São Lourenço chegou a ser seriamente estudada.

O governo americano, embora apoiasse a presença da ONU em solo nacional, não queria arcar sozinho com os custos de aquisição do terreno e construção dos edifícios. O Congresso, controlado por uma maioria conservadora, via com desconfiança a ideia de financiar uma organização internacional que poderia limitar a soberania americana. A imprensa especulava diariamente sobre as negociações secretas, e os diplomatas temiam que a indefinição enfraquecesse a autoridade da organização logo em seus primeiros meses de existência.

Foi nesse cenário de incerteza que Rockefeller entrou em cena. Aos setenta e dois anos, ele já havia consolidado sua reputação como um dos maiores filantropos do século. Financiara a construção do Rockefeller Center, um dos complexos comerciais mais ambiciosos da história de Nova York. Dedicara parte da fortuna à restauração de sítios históricos na Virgínia e à criação de parques nacionais no oeste americano. Diferentemente do pai, que construíra a Standard Oil com métodos implacáveis, o filho dedicou a vida a transformar dinheiro em instituições duradouras.

A operação de compra do terreno foi conduzida com o sigilo de uma transação de guerra. Rockefeller designou seu filho Nelson, então um jovem político em ascensão, para coordenar as negociações. Utilizaram empresas de fachada e intermediários para não despertar a atenção dos proprietários locais. A simples menção do sobrenome Rockefeller teria inflacionado os preços imediatamente.

Os terrenos foram adquiridos em parcelas, uma a uma, ao longo de semanas. Cada compra elevava o custo da seguinte. Os donos dos matadouros e armazéns, percebendo que algo grande estava em curso, exigiam valores cada vez mais altos. Ainda assim, o custo total permaneceu dentro do que Rockefeller considerava aceitável. A transação foi concluída no início de dezembro de 1946.

No dia onze daquele mês, o anúncio oficial foi feito. A Assembleia Geral, reunida em sessão extraordinária, aceitou formalmente a doação. A votação foi expressiva, embora não unânime. Alguns países europeus e latino americanos manifestaram reservas quanto à localização, argumentando que Nova York ficava distante demais dos centros de decisão do hemisfério sul. Mas a oferta era irrecusável.

Rockefeller não se limitou a doar o terreno. Nos anos seguintes, financiou diretamente a demolição das estruturas existentes, a remoção das linhas férreas e a preparação do solo para as obras. Também contribuiu para a aquisição de terrenos adjacentes, ampliando a área disponível para o complexo. O custo total da construção, inaugurada oficialmente em 1952, ultrapassou sessenta e cinco milhões de dólares, financiados em grande parte por um empréstimo sem juros concedido pelo governo americano.

O projeto arquitetônico merece um capítulo à parte. Pela primeira vez na história, uma organização internacional decidiu que sua sede seria desenhada por um conselho multinacional de arquitetos. Foram convidados dez profissionais de diferentes nacionalidades, entre eles o brasileiro Oscar Niemeyer, então com trinta e nove anos, e o suíço francês Le Corbusier, já consagrado como um dos mestres do modernismo.

Niemeyer apresentou uma proposta que combinava leveza, monumentalidade e integração com o espaço urbano. Seu desenho previa um prédio alto para o Secretariado, uma cúpula baixa para a Assembleia Geral e volumes horizontais para as salas de comissões. O projeto foi debatido em sessões tensas, com Le Corbusier reivindicando a autoria de elementos centrais do conjunto. O resultado final, aprovado em 1947, foi uma síntese das contribuições de vários arquitetos, com a marca inconfundível de Niemeyer no tratamento dos espaços abertos e na relação entre os edifícios.

O prédio do Secretariado, com trinta e nove andares e fachada de vidro verde, tornou se um ícone imediato. Sua silhueta esbelta, voltada para o rio, contrastava com os arranha céus maciços do centro financeiro. O edifício da Assembleia Geral, com sua cobertura curva e seu interior revestido de mármore claro, passou a receber chefes de Estado de todos os continentes. O Conselho de Segurança, com sua mesa em forma de ferradura e seus painéis de madeira escura, tornou se o cenário de decisões que moldaram a geopolítica mundial.

A transformação do bairro foi radical. Os matadouros desapareceram. Os cortiços foram demolidos. As linhas férreas elevadas deram lugar a avenidas largas e calçadas arborizadas. Hotéis de luxo, consulados, restaurantes e sedes de organizações não governamentais ocuparam os quarteirões vizinhos. O valor dos imóveis disparou. O que antes era uma zona de passagem para caminhões de carne tornou se um dos endereços mais caros de Manhattan.

A presença da ONU também mudou a economia local de forma estrutural. Estima se que a organização e suas agências associadas movimentem bilhões de dólares por ano em Nova York, entre salários, contratos de serviços, eventos diplomáticos e turismo. Delegações de cento e noventa e três países mantêm missões permanentes na cidade. Milhares de diplomatas, funcionários internacionais, jornalistas e ativistas circulam diariamente pelos corredores do complexo.

O gesto de Rockefeller, no entanto, não ficou imune a críticas. Para alguns analistas, a doação consolidou a hegemonia americana sobre a organização, contrariando o princípio de equilíbrio entre as nações. A localização em Nova York, argumentavam, tornava a ONU refém das pressões políticas e financeiras dos Estados Unidos. Outros questionavam a origem da fortuna dos Rockefeller, construída por meio de práticas monopolistas que haviam sido condenadas pela Suprema Corte americana em 1911.

Para os defensores da doação, porém, o gesto representava exatamente o tipo de visão de longo prazo que o pós guerra exigia. Rockefeller não lucrou diretamente com a operação. Não impôs condições à organização. Não exigiu homenagens nem cargos. Apenas garantiu que a jovem instituição tivesse um endereço permanente, digno e funcional, em uma das cidades mais conectadas do mundo.

Ao longo das décadas seguintes, a sede da ONU tornou se palco de momentos históricos. Foi ali que Fidel Castro discursou por mais de quatro horas em 1960, denunciando o imperialismo americano. Foi ali que Nikita Khrushchov bateu com o sapato na mesa durante uma sessão da Assembleia Geral. Foi ali que Nelson Mandela, já livre após vinte e sete anos de prisão, defendeu a reconciliação sul africana. Foi ali que o Conselho de Segurança aprovou resoluções que autorizaram intervenções militares, criaram tribunais internacionais e impuseram sanções econômicas.

A sede também enfrentou ameaças e crises. Em 1974, uma bomba explodiu no estacionamento do complexo, sem deixar vítimas fatais. Em 2001, os atentados de onze de setembro, a poucos quilômetros dali, obrigaram o fechamento temporário das instalações e reforçaram os protocolos de segurança. Reformas estruturais, concluídas em 2014, modernizaram os sistemas elétricos, hidráulicos e de comunicação, preservando as características arquitetônicas originais.

O aniversário de oito décadas da doação de Rockefeller, celebrado em 2026, encontrou a organização diante de novos desafios. Conflitos regionais, mudanças climáticas, migrações em massa e o avanço de tecnologias disruptivas testam a capacidade de resposta da diplomacia multilateral. A sede de Nova York, com seus corredores de mármore e salas de reunião climatizadas, continua sendo o ponto de encontro onde essas questões são debatidas, negociadas e, em alguns casos, resolvidas.

O terreno pantanoso comprado por oito milhões e meio de dólares tornou se uma das propriedades mais simbólicas do mundo. Seu valor financeiro é praticamente impossível de calcular, pois não há mercado comparável para um endereço que abriga a Assembleia Geral, o Conselho de Segurança e o Secretariado das Nações Unidas. Seu valor histórico, esse sim, é inestimável.

A doação de Rockefeller permanece como um estudo de caso sobre o papel do capital privado na construção de instituições públicas internacionais. Mostra como uma decisão individual, tomada em segredo, pode alterar o curso da história urbana, diplomática e arquitetônica. E lembra que, por trás dos grandes símbolos da política mundial, há sempre gestos concretos, terrenos comprados, edifícios erguidos e escolhas que definem o futuro.

Fontes consultadas ao final da matéria

United Nations Archives and Records Management Section
Rockefeller Archive Center
The Trusteeship Council Chamber: A History of the UN Headquarters
Niemeyer and the United Nations: Architectural Records of the Board of Design
The New York Times Historical Archive
A History of the United Nations: The First Fifty Years, de Stanley Meisler
World Capital or World Organization: The Debate over the UN Headquarters, documentos da Yale University Library
Turtle Bay Historical Society
Municipal Archives of the City of New York
The Rockefeller Family and the Making of Modern New York, de Peter Johnson
Records of the United Nations General Assembly, sessões de 1946
Department of Public Information, United Nations
Architectural Forum, edições de 1947 a 1952
The East River Site: Urban Transformation and the United Nations, Columbia University

Tags:

arquitetura modernadiplomacia internacionaldoação bilionáriahistória das Nações UnidasNova YorkOscar NiemeyerRockefellersede da ONU
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Régis Andrade

Eu sou Régis Andrade, criador do Portal de Notícias.

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