El Niño devastador pode vitimar 450 mil pessoas pelo calor; Brasil é o quinto país mais afetado
Estudo de Chicago projeta 13,3 mil mortes no Brasil até fevereiro de 2027, com Norte e Nordeste no centro da crise grave
Um relatório recém-divulgado pelo Climate Impact Lab, laboratório de pesquisa vinculado à Universidade de Chicago, projeta que o atual episódio do fenômeno climático Super El Niño pode resultar em aproximadamente 451 mil mortes adicionais relacionadas ao calor extremo em todo o mundo entre junho de 2026 e fevereiro de 2027. O número, que os pesquisadores descrevem como uma estimativa conservadora, representa cerca de 65 vezes o total de mortos e desaparecidos na recente inundação repentina que atingiu o Nepal e o Tibete. O Brasil ocupa a quinta posição entre os países mais afetados, com uma projeção de 13,3 mil óbitos adicionais, ficando atrás apenas de Nigéria, Indonésia, Sudão e Índia. As informações foram divulgadas originalmente pela Agência Brasil, CNN Brasil e Folha de S.Paulo.
O estudo, que utilizou dados de temperatura e mortalidade coletados em 24.378 regiões do mundo entre 1996 e 2025, estima que as temperaturas médias sobre as áreas terrestres devem ficar aproximadamente 1,2 grau Celsius acima do normal durante os próximos meses. Esse aumento deve provocar um salto de 44% no número de dias de calor extremo em comparação com um ano típico, com os efeitos se intensificando durante o verão do Hemisfério Sul. Os pesquisadores alertam que o atual Super El Niño pode se tornar o mais intenso já registrado, superando episódios anteriores e amplificando os riscos à saúde humana.
Michael Greenstone, cofundador do Climate Impact Lab e professor de Economia na Universidade de Chicago, destacou a dimensão humana por trás das projeções. Em comunicado, ele afirmou que o número de 451 mil mortes é tão elevado que pode causar insensibilidade, mas é composto por pais e filhos, avós e vizinhos, pessoas que vão trabalhar, cuidam de suas famílias e vivem suas vidas. Greenstone ressaltou que o relatório permite que tomadores de decisão identifiquem exatamente onde ações emergenciais podem ser adotadas para salvar dezenas de milhares de vidas nos próximos meses. A metodologia utilizada pelo laboratório já havia sido empregada anteriormente para prever impactos das temperaturas sobre colheitas agrícolas, e agora foi adaptada para estimar danos à saúde humana.
O Brasil aparece como o país mais afetado da América Latina e o quinto no ranking global de mortalidade adicional por calor. A projeção de 13,3 mil mortes tem margem de erro de 700 óbitos, para mais ou para menos, de acordo com a qualidade dos dados disponíveis para o país. Dentro do território brasileiro, as estimativas mais altas de mortalidade estão concentradas nas regiões Norte e Nordeste. O estado do Pará lidera as projeções, com cerca de 2,3 mil mortes adicionais, seguido pelo Maranhão, com aproximadamente 1,3 mil óbitos. Amazonas e Bahia aparecem em seguida, com uma estimativa de 1,2 mil mortes cada um. O período mais crítico para o país deve ser o trimestre entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027, quando cerca de 8 mil mortes adicionais são esperadas apenas nesse intervalo.
No cenário global, a Nigéria lidera as projeções com 31,4 mil mortes adicionais, seguida pela Indonésia, com 19,3 mil, pelo Sudão, com 17,5 mil, e pela Índia, com 15,8 mil óbitos. A região africana do Sahel, faixa semiárida ao sul do Deserto do Saara, concentra a maior parte das mortes estimadas no continente, com um total de 66,8 mil óbitos projetados. No Sudeste Asiático, o conjunto formado por Filipinas, Vietnã, Tailândia e Camboja pode registrar aproximadamente 19,4 mil mortes adicionais. Mesmo em nações desenvolvidas, o impacto será significativo. Os Estados Unidos aparecem entre os vinte países mais afetados, com uma projeção de 3,5 mil mortes adicionais, concentradas principalmente no estado do Texas. Na América do Sul, além do Brasil, Venezuela e Colômbia também enfrentam projeções alarmantes, com 2,3 mil e 2,2 mil mortes adicionais, respectivamente.
Os pesquisadores enfatizam que as projeções não representam uma sentença inevitável. Segundo o relatório, a implementação de medidas de adaptação e resposta emergencial pode evitar dezenas de milhares de óbitos. Entre as estratégias recomendadas estão a criação e expansão de sistemas de alerta precoce para ondas de calor, a ampliação do atendimento de saúde para populações vulneráveis, a instalação de centros de resfriamento e pontos de hidratação públicos, e a proteção de trabalhadores expostos ao calor. O Climate Impact Lab mantém um inventário de adaptação que reúne evidências científicas sobre medidas comprovadamente eficazes para salvar vidas, desde sistemas de alerta até proteções para trabalhadores ao ar livre.
No Brasil, o Ministério da Saúde já iniciou os preparativos para enfrentar o período crítico, com a instalação de bases da Força Nacional do Sistema Único de Saúde equipadas com pessoal e equipamentos para atuar durante emergências e desastres climáticos. Paralelamente, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima anunciou o início da elaboração do Plano Nacional de Ação pelo Resfriamento, iniciativa que busca estruturar estratégias para ampliar o acesso a soluções de resfriamento eficientes e de baixa emissão de gases de efeito estufa. Coordenado em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, o plano prevê o incentivo de soluções baseadas na natureza, eficiência energética, ventilação natural, sombreamento e projetos arquitetônicos bioclimáticos. A ministra Marina Silva destacou que a iniciativa não se trata apenas de ar-condicionado, mas de repensar o padrão de construção para escolas, hospitais e prédios públicos.
Tamma Carleton, coautora do relatório e professora da Universidade da Califórnia em Berkeley, alertou que o atual episódio funciona como um cartão-postal do futuro. As temperaturas extremas observadas durante este Super El Niño são semelhantes às que as projeções climáticas indicam que se tornarão a norma daqui a aproximadamente vinte anos. Carleton afirmou que aumentar a resposta de emergência e direcionar melhor os esforços pode salvar muitas vidas este ano, mas que, duas décadas à frente, quando as temperaturas extremas de hoje se tornarem o novo normal, não se deseja estar em um estado de emergência constante. Ela defendeu a mobilização de recursos agora para projetar, implementar e avaliar ferramentas de preparação e planejamento que salvem vidas nos próximos anos. Os pesquisadores informaram que pretendem atualizar publicamente as projeções de mortes adicionais à medida que o El Niño progride.
Fontes:
Climate Impact Lab, Universidade de Chicago; Agência Brasil; CNN Brasil; Folha de S.Paulo; O Tempo; O Povo; Folha de Pernambuco; R7; Eixos.