Embrião humano sintético: ciência cria modelo sem óvulo, espermatozoide ou útero
Modelo de embrião humano criado em laboratório sem óvulo ou espermatozoide avança e reacende debate ético no mundo hoje!
Cientistas do Instituto Weizmann de Ciências, em Israel, alcançaram um marco sem precedentes na biologia do desenvolvimento ao criar, em laboratório, um modelo completo de embrião humano a partir de células-tronco pluripotentes, sem a utilização de óvulos, espermatozoides ou útero. O estudo, liderado pelo professor Jacob Hanna, do Departamento de Genética Molecular, foi publicado na revista Nature e descreve a formação de estruturas que recapitulam a organização de um embrião humano no estágio pós-implantação, equivalente ao 14º dia de desenvolvimento. A pesquisa representa um avanço significativo para a compreensão das etapas iniciais da gestação humana, período que permanece amplamente desconhecido devido a limitações técnicas e éticas.
A equipe utilizou células-tronco embrionárias humanas em estado naïve, cultivadas em condições de meio enriquecido, e as reprogramou quimicamente para que se auto-organizassem espontaneamente nas quatro linhagens celulares que compõem o início da gestação humana: células epiblásticas, que darão origem ao embrião propriamente dito; células trofoblásticas, precursoras da placenta; células hipoblásticas, que formam o saco vitelino; e células do mesoderma extraembrionário. O processo começou com a agregação de aproximadamente 120 células, em uma proporção precisa, que foram cultivadas fora do útero por oito dias. Ao final desse período, os modelos atingiram cerca de 2.500 células e mediram 0,5 milímetro, apresentando estruturas anatômicas essenciais como o disco embrionário, o disco bilaminar, a cavidade amniótica, o saco vitelino polarizado, a cavidade coriônica e uma camada trofoblástica circundante com formação de sincício e lacunas. Em um dos testes realizados, o modelo produziu a hormona detectada por testes de gravidez, e o resultado foi positivo.
O professor Jacob Hanna destacou a relevância desse período inicial do desenvolvimento. “O drama está no primeiro mês. Os oito meses restantes da gravidez são principalmente crescimento”, afirmou. “Mas esse primeiro mês ainda é amplamente uma caixa preta. Nosso modelo de embrião humano derivado de células-tronco oferece uma forma ética e acessível de espiar dentro dessa caixa.” A pesquisa também revelou que, em aproximadamente 1% dos agregados celulares, as células começaram a se diferenciar corretamente, migrando e se organizando na estrutura adequada, e o desenvolvimento mais avançado alcançado foi o de 14 dias, período que marca o limite legal para a pesquisa com embriões naturais em diversos países.
O avanço representa um salto fundamental para a medicina biológica, pois permite investigar em laboratório as principais causas de abortos espontâneos precoces, falhas na fixação uterina e malformações congênitas. Atualmente, apenas cerca de 30% dos embriões se implantam com sucesso, e as razões para essa baixa taxa permanecem desconhecidas. A tecnologia também abre novas possibilidades para avaliar a segurança de medicamentos durante o início da gestação, uma vez que gestantes são tradicionalmente excluídas de ensaios clínicos e os estudos pré-clínicos em animais têm limitações. Além disso, o modelo evita o uso de embriões biológicos em testes, respeitando rigorosamente os limites éticos que proíbem o implante desses modelos em úteros.
Os cientistas ressaltam que o objetivo não é criar vida humana em laboratório, e que o embrião sintético não tem potencial de se desenvolver além das primeiras semanas. Hanna enfatizou que a equipe está “muito, muito longe” de criar um embrião a partir do zero e que a questão central é determinar quando um modelo de embrião passa a ser considerado um embrião. O próximo objetivo da equipe é avançar o desenvolvimento do modelo até o dia 21 e alcançar uma taxa de sucesso de 50%. A pesquisa foi publicada na Nature em setembro de 2023, após uma prévia divulgada em junho durante a reunião anual da Sociedade Internacional para Pesquisa com Células-Tronco.
O trabalho integra uma série de artigos da mesma edição da revista que apresentam estruturas semelhantes desenvolvidas por outros grupos de pesquisa, todos utilizando apenas células-tronco humanas em laboratório. A pesquisa também suscita debates éticos e legais sobre o status desses modelos e como devem ser regulamentados. A Sociedade Internacional para a Pesquisa com Células-Tronco estabeleceu duas linhas vermelhas: proibir a transferência desses modelos para úteros humanos e vetar a ectogênese, que seria a criação de vida artificial completa. Especialistas argumentam que, embora esses modelos não sejam embriões reais, sua crescente complexidade exige uma reflexão contínua sobre os limites da pesquisa e a necessidade de engajamento público para que “nada seja feito nas sombras”.
Fontes: Nature (2023), Instituto Weizmann de Ciências, Reuters, BBC News Brasil, Weizmann Australia, RTVE, Folha de Maputo, Genetics and Society, Technology Review.