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Curiosidades

Congelados a -196 °C: sete pessoas pagam R$ 1 milhão para tentar voltar à vida em 250 anos

By Régis Andrade
29 de setembro de 2026 4 Min Read
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Em galpão na Austrália, corpos são mantidos em nitrogênio líquido na aposta de que a medicina do futuro reverta a morte.

Em um galpão industrial de aparência comum na pequena cidade de Holbrook, no interior de Nova Gales do Sul, Austrália, sete pessoas estão suspensas de cabeça para baixo dentro de dois enormes recipientes de aço inoxidável. Os corpos são mantidos a cento e noventa e seis graus Celsius negativos em nitrogênio líquido. Antes de morrerem, essas pessoas pagaram quantias que ultrapassam um milhão de reais para passar pelo processo de criopreservação. A expectativa que sustenta o empreendimento é de que a medicina avance o suficiente para permitir o despertar delas daqui a cerca de duzentos e cinquenta anos.

A estrutura pertence à Southern Cryonics, empresa que iniciou operações em dois mil e vinte e três e que se apresenta como a única instalação de criônica do hemisfério sul. No mundo, existem outras seis instalações do tipo, localizadas nos Estados Unidos, na Suíça, na China e na Rússia. A escolha de Holbrook não foi aleatória. A cidade fica entre Sydney e Melbourne, tem baixo risco de terremotos e enchentes e já recebia carregamentos de nitrogênio líquido por causa de atividades ligadas à criação de gado. Isso facilita a reposição contínua do insumo usado para manter os corpos na temperatura necessária.

O primeiro paciente chegou ao galpão em maio de dois mil e vinte e quatro, depois da morte de um homem que tinha mais de oitenta anos. A suspensão mais recente ocorreu em junho, após a morte de outro homem, na casa dos noventa anos. A equipe da empresa não se refere aos corpos como mortos, mas como pacientes. O termo reforça a aposta central do negócio, que é a de que a morte não representa um estado irreversível, mas uma condição que pode ser pausada até que a tecnologia seja capaz de revertê-la.

O processo começa imediatamente após a declaração de morte legal. A equipe tenta iniciar o resfriamento o mais rápido possível, inclusive com bolsas de gelo colocadas ao redor da cabeça. Em seguida, profissionais bombeiam substâncias semelhantes a anticongelantes para dentro do corpo, substituindo parte da água das células e evitando a formação de cristais de gelo que poderiam causar danos aos tecidos. Esse procedimento recebe o nome de vitrificação e pode durar cerca de oito horas. Quando termina, o corpo é transportado para Holbrook e colocado dentro dos dewars, recipientes que funcionam como garrafas térmicas gigantes e que precisam ser reabastecidos constantemente, já que o nitrogênio líquido evapora de forma contínua.

Os corpos são posicionados de cabeça para baixo dentro dos dewars. A escolha tem um propósito prático. Caso o nível de nitrogênio líquido caia por algum motivo, a empresa tenta manter o cérebro e a cabeça na temperatura necessária pelo maior tempo possível. Nem todos os pacientes passaram pelo procedimento completo de vitrificação. Alguns receberam apenas um congelamento direto, sem a mesma preparação, o que aumenta ainda mais as incertezas sobre a preservação das estruturas cerebrais.

O custo do processo é um dos principais filtros para os interessados. A Southern Cryonics cobra duzentos mil dólares australianos para criopreservação e armazenamento no caso de membros da empresa, valor que ultrapassa um milhão de reais na conversão atual. Para não membros, o custo sobe para duzentos e trinta mil dólares australianos. A esses valores soma-se uma anuidade de trezentos e cinquenta dólares australianos, além dos gastos com as etapas médicas e logísticas que antecedem o transporte do corpo até Holbrook. O contrato assinado pelos clientes é explícito ao afirmar que qualquer método conhecido de suspensão criônica pode causar danos físicos ao corpo e que esses danos podem ser irreversíveis.

Peter Tsolakides, presidente da Southern Cryonics, não faz promessas. Ele afirma que, para que os pacientes voltem à vida, seria necessário primeiro conquistar a morte, curar todas as doenças e, só então, desenvolver a capacidade de trazer pessoas de volta. Tsolakides estima em cerca de dez por cento a probabilidade de que seus pacientes sejam reanimados daqui a duzentos e cinquenta anos. Para ele, essa chance é maior do que zero. A empresa descreve o serviço como uma chance de extensão da vida e não garante a reversão do processo.

A comunidade científica tradicional, no entanto, permanece cética. A criônica é amplamente considerada uma pseudociência pela corrente principal da ciência, e sua prática já foi caracterizada como charlatanismo. O consenso científico atual é de que a reversão da morte por criopreservação é impossível com o conhecimento médico disponível. A vitrificação, embora evite a formação de cristais de gelo, causa danos ao cérebro e aos circuitos neurais que, segundo os críticos, inviabilizam a recuperação da consciência e da memória. Pesquisas indicam que entre médicos há falta de consenso sobre o tema, com uma parcela significativa considerando a preservação para reanimação futura como implausível.

Até hoje, não há registro de qualquer pessoa criopreservada que tenha sido reanimada. A temperatura de cento e noventa e seis graus Celsius negativos é a do nitrogênio líquido, usada para interromper reações químicas e reduzir a decomposição. A vitrificação substitui a água por agentes crioprotetores, mas esses compostos podem ser tóxicos e causar lesões nos tecidos. Mesmo que o corpo seja mantido em condições ideais, não existe garantia de que o cérebro preserve memórias, personalidade ou consciência. A aposta depende de avanços que ainda não foram demonstrados e que talvez nunca sejam alcançados.

Ainda assim, a iniciativa reflete uma aposta de entusiastas dispostos a investir altas fortunas na promessa de uma segunda chance. Para os defensores, a criônica oferece aventura e um vislumbre de esperança de uma vida mais longa ou potencialmente ilimitada. A aposta, no entanto, permanece suspensa em um galpão no interior da Austrália, à espera de uma tecnologia que ainda não existe.

As informações desta matéria foram apuradas a partir de reportagens publicadas por The Guardian, Diário do Litoral, Jurnalul, Zenodo, EPFL Graph Search e Chosun.

Tags:

Austráliacriogeniacriopreservaçãoimortalidademedicina do futuronitrogênio líquido
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Régis Andrade

Eu sou Régis Andrade, criador do Portal de Notícias.

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