ONU apela para Tennessee poupar mulher sobrevivente de tentativa de injeção letal
Christa Pike sobrevive a duas doses de injeção letal e ONU pede comutação imediata da pena no Tennessee em Nashville já.
A tentativa de execução de Christa Gail Pike, de 50 anos, na Penitenciária de Segurança Máxima de Riverbend, em Nashville, Tennessee, terminou de forma inesperada na noite de quarta-feira, 30 de outubro de 2026. Condenada à morte pelo assassinato de Colleen Slemmer, de 19 anos, crime cometido em janeiro de 1995, Pike recebeu duas aplicações de pentobarbital e, contrariando o protocolo, continuou respirando. Testemunhas presentes na sala de execução relataram que a condenada permaneceu viva por mais de uma hora, moveu-se, falou e foi ouvida roncando de forma audível cerca de 40 minutos após a administração das doses letais. Diante da falha, ela foi retirada do local e levada de ambulância a um hospital externo, onde recebeu atendimento médico para salvar a vida, segundo informou sua defesa.
O caso, classificado por organizações de direitos humanos como uma falha sem precedentes na história recente da pena de morte nos Estados Unidos, desencadeou uma série de consequências institucionais imediatas. O governador do Tennessee, Bill Lee, anunciou na quinta-feira, 1º de novembro, a suspensão de todas as execuções previstas no estado até o fim de 2026 e determinou a abertura de uma investigação independente para apurar o que deu errado no procedimento. Em pronunciamento, Lee afirmou estar profundamente decepcionado com o ocorrido e disse que, até onde se sabe, o Departamento de Correção seguiu exatamente o protocolo estabelecido e aprovado pelo gabinete do procurador-geral. É justamente por isso que teremos uma investigação, declarou o governador, que não divulgou informações sobre o estado de saúde de Pike.
O Departamento de Correção do Tennessee confirmou que a condenada sobreviveu à tentativa de execução e defendeu a condução do procedimento. Em comunicado, a pasta afirmou que a substância química de injeção letal prevista no protocolo tem-se mostrado consistentemente eficaz e que o protocolo não prevê procedimentos adicionais para além dos realizados esta noite. Ainda segundo o órgão, Pike foi transportada para uma unidade médica externa, e o estado de saúde dela não foi divulgado de imediato.
A execução frustrada é a segunda ocorrência do tipo no Tennessee apenas neste ano. Em maio de 2026, as autoridades penitenciárias já haviam interrompido a tentativa de executar um homem condenado por assassinatos depois de não conseguirem encontrar uma veia adequada para aplicar a injeção letal. O episódio com Pike, no entanto, é considerado mais grave por ter envolvido a administração efetiva dos fármacos e a sobrevivência da condenada. A suspensão determinada por Bill Lee impede, por ora, a realização da execução prevista para 3 de dezembro no estado, cujo condenado aguardava o cumprimento da pena.
Christa Pike foi condenada à morte em 1996 pelo assassinato de Colleen Slemmer, crime cometido quando ela tinha 18 anos. As duas participavam do Job Corps, um programa federal de treinamento profissional para jovens, no campus da Universidade do Tennessee. Segundo o processo, Pike acusou Colleen de tê-la insultado e de tentar se aproximar de seu namorado, Tadaryl Shipp, então com 17 anos. A vítima foi espancada, torturada e morta. O corpo de Colleen foi encontrado com mutilações e com um pentagrama, símbolo associado a rituais satânicos, esculpido no peito. Durante o julgamento, testemunhas relataram que Pike teria contado a outras pessoas que havia cometido o assassinato e mostrado a terceiros um fragmento do crânio da vítima.
Pike e Shipp confessaram o crime e foram condenados no ano seguinte. Enquanto Pike recebeu a pena de morte, Shipp foi condenado à prisão perpétua com possibilidade de liberdade condicional. Pike também foi condenada, em agosto de 2001, por tentar contratar outro detento para matar um promotor e uma testemunha, o que reforçou sua permanência no corredor da morte. Ao longo de quase três décadas, a defesa de Pike tentou reverter a sentença com base em argumentos como traumas de infância, histórico de abuso sexual e doença mental não tratada. Horas antes da execução, um tribunal de primeira instância havia suspendido temporariamente o procedimento, mas a Suprema Corte dos Estados Unidos revogou a decisão e autorizou o cumprimento da sentença. A defesa chegou a apresentar uma petição emergencial durante o próprio procedimento, citando relatos de testemunhas de que Pike ainda estava viva e roncando após as duas seringas com os produtos químicos letais. A tentativa de Pike seria a primeira execução de uma mulher no Tennessee em mais de 200 anos.
Na quinta-feira, 1º de novembro, o alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, e nove especialistas independentes do organismo pediram formalmente que as autoridades do Tennessee desistam de uma nova tentativa de executar Pike e conmute sua pena. Em comunicado, Türk classificou o sofrimento decorrente de execuções fracassadas como abominável e cruel e afirmou que o caso evidencia múltiplas razões pelas quais deveria abolir-se a pena de morte. O alto-comissário também apontou que persistem questionamentos sobre a equidade do julgamento de Pike, o que adiciona preocupação à possibilidade de uma nova tentativa.
O estado do Tennessee deve imediatamente e irrevogavelmente pôr fim a esta crueldade, comutando a sentença de morte de Christa Pike, declararam os nove especialistas independentes designados pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU. Não um, mas dois intentos fracassados de execução constituem uma violação flagrante da proibição da tortura e da privação arbitrária da vida, e mostram por que a pena de morte deve ser proibida em todos os lugares, acrescentaram.
O advogado de Pike, Randy Spivey, afirmou em coletiva de imprensa que a cliente está em estado crítico e recebendo atenção médica para salvar a vida. Segundo ele, a demora para iniciar a reanimação pode ter causado lesão cerebral. Spivey pediu que o governador Bill Lee anule a condenação: Depois de ter suportado mais de 20 anos em regime de isolamento e uma tentativa de execução por injeção letal, Christa sofreu um castigo maior do que o de qualquer outra pessoa na história da pena de morte nos Estados Unidos. O governador deve comutar a condenação de Christa agora mesmo.
Robin Maher, diretor do Death Penalty Information Center, organização de referência nos Estados Unidos, classificou o caso como sem precedentes. Segundo o centro, sete pessoas já sobreviveram a problemas médicos durante execuções no país, mas nenhuma havia permanecido viva depois de receber os fármacos utilizados no procedimento. A mãe da vítima, May Martinez, que viajou ao Tennessee para testemunhar a execução, disse à NBC News que o que presenciou foi uma bagunça.
O caso de Pike ocorre em um contexto de aumento do número de execuções nos Estados Unidos e de renovação do debate sobre as garantias processuais e o tratamento dispensado a pessoas condenadas à morte. A suspensão determinada por Bill Lee impede, por ora, a realização de novas sentenças capitais no Tennessee até que a investigação independente seja concluída, enquanto o apelo da ONU e de especialistas em direitos humanos pressiona as autoridades estaduais a comutar a pena de Pike e a rever os procedimentos adotados pelo estado.
Fontes consultadas: KUNC/NPR, ZMINA, Aratu ON, El Comercio, Europa Press, Metrópoles, CBC News, AP News, NBC News, The Guardian, CBN Globo, Death Penalty Information Center.