Lula aceita todas as exigências de Flávio e promete abrir sigilos de familiares
Campanha de Lula confirma aceite integral às condições de Flávio Bolsonaro e promete abrir sigilos de parentes, empresas e assessores nesta quinta hoje
A campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva comunicou formalmente, nesta quarta-feira, que não oferecerá resistência a nenhuma das condições impostas pelo senador Flávio Bolsonaro para a quebra mútua de sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemático. A decisão foi anunciada pelo coordenador político da campanha petista, senador Camilo Santana, que classificou as exigências do adversário como uma “manobra” política, mas garantiu que o presidente aceitará integralmente os termos e protocolará a resposta oficial no Tribunal Superior Eleitoral na quinta-feira, às 11h.
A movimentação representa uma guinada decisiva no confronto iniciado no debate da Band, no domingo, quando Lula desafiou Flávio a abrir seus dados financeiros. O senador reagiu na terça-feira com uma petição ao TSE na qual autoriza a quebra de seus próprios sigilos dos últimos 20 anos, bem como os de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, de sua esposa Fernanda, de sua mãe Rogéria e de seus irmãos Carlos, Eduardo e Jair Renan, além de quatro empresas das quais é sócio ou administrador, incluindo o escritório de advocacia, uma empresa de seguros e a offshore Alcazar Holdings, com sede na Ilha da Madeira, em Portugal. A autorização, no entanto, foi condicionada a uma extensa lista de exigências que alcança o entorno familiar, empresarial e político do presidente.
Entre as condições impostas por Flávio estão a apresentação de autorizações individuais para a quebra de sigilo de assessores diretos de Lula, com destaque para Marco Aurélio Santana Ribeiro, o “Marcola”, ex-chefe de gabinete da Presidência, cujos dados bancários, fiscais e telefônicos deveriam ser integralmente abertos. O senador também exigiu a divulgação dos sigilos de Fábio Luís Lula da Silva, o “Lulinha”, de sua esposa Renata de Abreu Moreira, das cinco empresas nominalmente citadas e de outras sociedades do antigo grupo Gamecorp/Gol, além de offshore da qual Lulinha participe, incluindo a Synapta, constituída em Madri. A lista se estende a empresas dos demais filhos do presidente, como a Flexbr Tecnologia Ltda., ligada a Sandro Luís e Marcos Cláudio, e sociedades de Lurian e Luís Cláudio, bem como a empresas de Fernando Bittar, sócio de Lulinha, como a TV Araras, a Coskin Assessoria e a M7 Produções.
No campo político-institucional, Flávio requereu a divulgação integral dos registros de visitantes dos Palácios do Planalto e da Alvorada, com informações sobre a reunião ocorrida em dezembro de 2024 entre Lula e o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, e sobre reuniões do ex-ministro Guido Mantega com integrantes do governo, além de registros de voos de uma aeronave atribuída a Vorcaro. A petição também cobra esclarecimentos sobre os vínculos do governo com a lobista Roberta Luchsinger, a quebra do sigilo do sindicalista Frei Chico, irmão do presidente, a abertura de todos os gastos do cartão corporativo da Presidência desde janeiro de 2023 e a divulgação da agenda institucional da primeira-dama, Rosângela Lula da Silva, a Janja.
A manifestação inicial de Lula, protocolada no TSE na terça-feira, já havia sinalizado a disposição do petista em abrir seus sigilos dos últimos oito anos, bem como os de Janja e de seus cinco filhos, Lurian, Marcos Cláudio, Sandro Luís, Luís Cláudio e Fábio Luís, além da única pessoa jurídica de sua propriedade, a LILS Palestra e Eventos, mas condicionou a medida à abertura, por parte de Flávio, dos dados de suas empresas e familiares. Com a aceitação integral das condições do adversário, a campanha de Lula amplia o escopo da transparência para incluir assessores, empresas de familiares e documentos oficiais do Palácio do Planalto.
Camilo Santana foi enfático ao afirmar que o presidente “não tem nada a se opor” e que o adversário, caso não cumpra o que propôs, demonstrará temer a exposição de seus próprios dados. “Se não tem nada a dever, que ele cumpra o que o presidente propôs. Amanhã às 11h estaremos no TSE para protocolar a resposta do presidente e é o prazo para ele estar lá também”, declarou o senador. A expectativa é de que a resposta de Lula seja protocolada no horário indicado, abrindo caminho para que Flávio, em teoria, libere seus dados dos últimos 20 anos e os de seus familiares.
O presidente do TSE, ministro Kássio Nunes Marques, já sinalizou a interlocutores que a proposta é um “esboço” e que mudanças nas regras a poucos dias do segundo turno são desaconselháveis. Ainda assim, a movimentação das duas campanhas configura um dos mais amplos exercícios de abertura de sigilos já vistos em uma disputa presidencial, envolvendo não apenas os candidatos, mas seus parentes mais próximos, empresas, assessores e documentos oficiais do governo federal. Até o fechamento desta edição, os sigilos de ambos os candidatos seguiam mantidos, e o desfecho dessa queda de braço deverá definir os rumos do debate político na última semana antes da votação.
Fontes consultadas: Agência Brasil, Diário do Nordeste, Estadão, Jornal de Brasília, CNN Brasil, Congresso em Foco, O Povo e CBN.