O proprietário da casa de Lulinha é também dono do sítio de Lula em Atibaia
Dentista ligado ao sítio de Atibaia assina aluguel de mansão usada por Lulinha e lobista em Brasília e expõe elo Bittar.
O contrato de locação da mansão de 2.110 metros quadrados no Lago Sul, em Brasília, não foi assinado pela lobista Roberta Luchsinger, mas sim pelo dentista Rafael Nicolau Arbex, que atuou como testemunha de Fernando Bittar no processo da Operação Lava Jato relacionado ao sítio de Atibaia. A informação foi confirmada pela imobiliária TRK, responsável pela intermediação do negócio, que declarou que Roberta participou das tratativas e visitou o imóvel, mas não figurou como locatária no contrato. O imóvel, avaliado em 28 mil reais mensais, possui piscina, jardim, churrasqueira, três quartos e um cômodo utilizado como escritório, e o proprietário, que mora no exterior, exigiu cláusula de confidencialidade para preservar seu nome.
A ligação entre a mansão brasiliense e o sítio de Atibaia não se resume ao nome do locatário. Fernando Bittar, que figura como proprietário formal do sítio ao lado de Jonas Suassuna, indicou Arbex como testemunha no processo que investigou o uso da propriedade campineira pela família Lula. Em depoimento prestado à 13ª Vara Federal de Curitiba em 2018, Arbex afirmou que morava no sítio de Atibaia a convite de Bittar, conhecia Lulinha e o próprio Bittar havia 25 anos, e negou que a família do então ex-presidente frequentasse o local. A mulher de Bittar, Lilian, é prima do dentista, o que reforça o vínculo pessoal e patrimonial entre os personagens envolvidos. O sítio de Atibaia, adquirido em 2010 por 1,5 milhão de reais, teve 500 mil reais pagos por Bittar e 1 milhão de reais por Jonas Suassuna, primo do ex-senador Ney Suassuna, ambos antigos sócios de Lulinha em empreendimentos como a BR4 Participações e a G4 Entretenimento.
A Polícia Federal apura se Lulinha, Fernando Bittar e Roberta Luchsinger mantiveram uma sociedade informal e oculta para intermediar negócios com o governo federal. Segundo o relatório da investigação, os três atuavam de forma coordenada para obter vantagens privadas e contratos públicos utilizando o acesso privilegiado que possuíam a integrantes do alto escalão do Planalto. As apurações indicam que a lobista mencionou em mensagens a necessidade de colocar Fábio em cima do Berge, em referência a Swedenberger Barbosa, então número dois do Ministério da Saúde, com o objetivo de viabilizar um contrato para o fornecimento de medicamentos à base de canabidiol ao SUS. Em uma das conversas, Roberta escreveu que o futuro dos dois era a Suíça, ao que Lulinha respondeu que trabalhava muito e que nunca dava em nada.
A investigação também identificou um grupo de WhatsApp intitulado Musaranhos, composto pelos três, utilizado para discutir projetos e negociações com empresas interessadas em contratos públicos. Lulinha e Bittar eram chamados de musos, e Roberta, de musa. A PF também encontrou referências a 500 mil reais guardados em malas e apontou que a empresa de Roberta transferiu quase 2,3 milhões de reais para a conta de seu motorista entre 2022 e 2025, além de pagamentos em dinheiro vivo a integrantes do Ministério do Desenvolvimento Social.
A defesa de Lulinha nega qualquer prática de tráfico de influência e afirma que ele vive na Espanha e não possui vínculos com negócios no Palácio do Planalto. Os advogados do filho do presidente também criticam a conduta de setores da Polícia Federal, alegando motivações políticas. Roberta Luchsinger nega irregularidades e, por meio de sua defesa, declarou que deixou de frequentar a mansão do Lago Sul porque está submetida a restrições impostas pelo Supremo Tribunal Federal que a impedem de sair de São Paulo. O dentista Rafael Arbex, por sua vez, alega que assinou o contrato de aluguel porque Roberta não poderia estar em Brasília na data marcada e que tinha um acordo para cuidar do imóvel e de tarefas pessoais da lobista em troca de moradia, versão semelhante à que apresentou à Lava Jato no caso do sítio de Atibaia.
A coincidência de personagens entre a mansão de Brasília e o sítio de Atibaia expõe uma rede de relações que atravessa anos e investigações. O mesmo dentista que testemunhou em favor do proprietário formal do sítio figura agora como locatário do imóvel usado por Lulinha e pela lobista investigada. O proprietário formal do sítio, por sua vez, é apontado pela Polícia Federal como sócio informal do filho do presidente em um esquema que, segundo os investigadores, utilizava a proximidade com o poder para viabilizar interesses privados. As apurações seguem em sigilo, mas os elementos já revelados indicam que a teia de vínculos entre patrimônios, pessoas e negócios está longe de se esgotar.
Fontes consultadas: Poder360; O Globo (colunas de Malu Gaspar e Bela Megale); Times Brasil/CNBC; Gazeta do Povo; CBN Globo; O Tempo; CNN Brasil; GP1; Folha de Pernambuco; UOL Notícias; Brado Jornal; Diário do Poder; Antagonista.