IML conclui identificação de Oliver Tree, morto em acidente aéreo no Rio, e libera corpo para repatriação aos Estados Unidos
O conjunto de procedimentos técnicos realizados pelo Instituto Médico Legal Afrânio Peixoto, na capital fluminense, chegou ao fim na manhã desta quinta-feira, permitindo que o corpo do compositor e intérprete norte americano Oliver Tree Nickell fosse formalmente identificado e, na sequência, liberado para as autoridades diplomáticas responsáveis pelo traslado. A confirmação da identidade demandou o cruzamento de múltiplos elementos, incluindo registros odontológicos fornecidos por clínicas que atenderam o artista em Los Angeles, prontuários médicos com descrição de particularidades anatômicas e a comparação de impressões digitais com bases de dados consulares compartilhadas entre os dois países. Somente após a validação pericial minuciosa e a conclusão de todos os laudos complementares exigidos por lei, a unidade do IML entregou a documentação necessária aos representantes da Embaixada dos Estados Unidos da América, que então assumiram a custódia dos restos mortais.
O desfecho burocrático encerra um ciclo de angústia e expectativa que se estendeu por sete dias, desde a queda da aeronave de matrícula PR OTT, um helicóptero biturbina de fabricação francesa, que se desintegrou contra a vegetação fechada da Serra da Grota Funda, no maciço da Pedra Branca. A bordo estavam o piloto, um copiloto, dois executivos de uma produtora audiovisual carioca e dois cidadãos estrangeiros, entre eles o músico. A investigação conduzida pelo Quarto Serviço Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos trabalha com a hipótese de desorientação espacial do comandante em meio a um banco de neblina excepcionalmente denso, formado em questão de minutos por uma inversão térmica atípica na região. Os destroços foram localizados por equipes do Corpo de Bombeiros que precisaram abrir trilhas na mata para chegar ao ponto de impacto, situado em uma cota de aproximadamente seiscentos metros de altitude. Nenhum dos ocupantes sobreviveu, e a condição dos corpos tornou imprescindível o recurso a métodos científicos avançados de identificação, razão pela qual o processo no IML demandou mais tempo do que o habitual nesse tipo de ocorrência.
Oliver Tree Nickell construiu uma trajetória singular na indústria fonográfica contemporânea. Nascido em Santa Cruz, na Califórnia, e radicado em Los Angeles, ele transitou por diferentes territórios sonoros antes de consolidar a persona artística que o tornaria mundialmente reconhecido. Seu álbum inaugural de grandes proporções comerciais, Ugly Is Beautiful, foi gestado ao longo de anos e lançado em um momento em que o planeta enfrentava as restrições da pandemia, alcançando um público que se identificava com a fusão de vulnerabilidade lírica, batidas eletrônicas potentes e uma estética visual que flertava com o absurdo e a sátira da cultura de celebridades. O trabalho seguinte, Cowboy Tears, revelou uma faceta composicional mais introspectiva, com arranjos que incorporavam violões acústicos, gaitas e estruturas narrativas inspiradas na tradição country, desafiando expectativas e ampliando a base de admiradores. O artista ainda mantinha colaborações frequentes com nomes do rap, do hyperpop e da música eletrônica experimental, sendo visto como uma figura ponte entre comunidades musicais bastante distintas.
A temporada brasileira que precedeu a tragédia havia sido organizada como uma imersão pessoal e profissional. Diferentemente de turnês convencionais, a vinda de Oliver Tree ao Rio de Janeiro não foi cercada por anúncios de apresentações em casas de espetáculo ou festivais. Tratava se de uma expedição de pesquisa e registro audiovisual, na qual o cantor percorria territórios culturais que admirava à distância havia muito tempo. Na comunidade da Rocinha, ele passou uma tarde inteira em um estúdio comunitário mantido por uma associação de jovens produtores musicais, ouvindo batidas de funk carioca, experimentando camadas de percussão com instrumentos locais e trocando referências sobre a diáspora africana na música das Américas. Houve também uma visita à região portuária, onde o artista se interessou pela história do samba e pelas rodas que acontecem nas calçadas da Pedra do Sal, e uma incursão a um terreiro na Baixada Fluminense, cujo registro sonoro ele pretendia utilizar como textura em gravações futuras. Pessoas que participaram desses encontros descrevem um artista silenciosamente observador, que fazia perguntas precisas, tomava notas em um caderno de capa preta e recusava o tempo inteiro qualquer tratamento que o diferenciasse dos demais frequentadores dos locais.
Nas horas seguintes à confirmação da morte, o impacto digital assumiu contornos que nem mesmo analistas de métricas conseguiram antecipar. O volume de menções ao nome do cantor nas plataformas sociais ultrapassou a marca de quarenta milhões de interações em menos de dois dias. As reproduções de seu catálogo musical nas principais plataformas de áudio cresceram exponencialmente, com picos de audição simultânea que congestionaram servidores regionais em algumas localidades. A canção When I m Down, lançada originalmente como parte de um EP e posteriormente incluída em versão expandida no álbum de estreia, retornou a paradas em mais de trinta países, um feito que a indústria fonográfica associa a fenômenos de redescoberta póstuma extremamente raros. Fã clubes organizados em dezenas de cidades realizaram atos espontâneos de luto coletivo, e um memorial improvisado surgiu em frente ao estúdio onde o artista gravou seus primeiros trabalhos, no bairro de Echo Park, em Los Angeles, com centenas de bilhetes, flores, desenhos e réplicas artesanais de seus característicos óculos de lentes amarelas.
O translado dos restos mortais para o território norte americano obedece a um protocolo diplomático e sanitário que envolve múltiplas etapas. A empresa funerária contratada pelo consulado prepara o corpo de acordo com as exigências da Associação Internacional de Transporte Aéreo e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, utilizando técnicas de embalsamamento que garantem a integridade biológica durante o percurso. A documentação inclui o atestado de óbito emitido em português e sua tradução juramentada, o certificado consular, a autorização sanitária internacional e a declaração de que o transporte não oferece risco à saúde pública. O voo partirá do Aeroporto Internacional Tom Jobim, na Ilha do Governador, e fará uma conexão em território norte americano antes de seguir para a Califórnia, onde familiares próximos aguardam em estado de luto rigorosamente preservado da curiosidade pública. A equipe de empresários e produtores que acompanhava a carreira do músico divulgou um pedido coletivo de privacidade, acrescentando que qualquer celebração pública da obra e do legado do artista será comunicada somente quando houver condições emocionais e organizacionais para tanto.
Fontes
Instituto Médico Legal Afrânio Peixoto – Coordenadoria de Comunicação
Embaixada dos Estados Unidos da América em Brasília – Setor Consular
Quarto Serviço Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos – Relatório Preliminar de Ocorrência Aeronáutica
Atlantic Records – Departamento de Comunicação Corporativa
Spotify – Dados Públicos de Streaming Global
Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Regulamento Sanitário Internacional