Em 1977, durante uma entrevista que ficaria marcada na memória dos estudiosos da língua, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira foi questionado sobre qual seria, em sua opinião, a palavra mais bonita do português. O criador do célebre Dicionário Aurélio, considerado até hoje uma das maiores referências da lexicografia brasileira, não hesitou em responder. Para ele, a palavra “libélula” reunia uma sonoridade delicada e uma carga poética singular, evocando a imagem de um ser frágil, leve e gracioso.
Aurélio explicou que a escolha não se baseava apenas no significado, mas também na musicalidade e no poder de sugestão que a palavra carregava. Ao pronunciá-la, segundo o mestre, era possível sentir a leveza das asas do inseto que parecia dançar no ar. Essa percepção mostrava o quanto o lexicógrafo enxergava a língua como algo vivo, cheio de ritmo e de sensibilidade estética.

Além de “libélula”, Aurélio citou outros exemplos que o encantavam. Uma delas foi “murucututu”, nome popular de uma coruja amazônica. O termo indígena, repleto de sonoridade exótica, trazia consigo a força da natureza brasileira e a riqueza das línguas nativas incorporadas ao português. Outra palavra mencionada foi “alvorada”, que, para ele, evocava não apenas o nascer do dia, mas também a ideia de recomeço, esperança e beleza natural.
Aurélio Buarque de Holanda não se limitava a catalogar termos em um livro. Seu trabalho ia além, transmitindo ao público a paixão pelo idioma e a consciência de que cada palavra possui história, música e imaginação. Seu famoso dicionário, publicado pela primeira vez em 1975, democratizou o acesso ao conhecimento linguístico no Brasil. Em pouco tempo, tornou-se presença obrigatória em escolas, bibliotecas e lares, consolidando-se como referência para gerações de estudantes, professores e escritores.
O legado de Aurélio não se resume às páginas de um dicionário. Ele foi responsável por transformar a forma como os brasileiros se relacionavam com sua própria língua. Ao unir rigor científico e sensibilidade cultural, conseguiu criar uma obra que extrapolava o caráter técnico, transformando-se em patrimônio da cultura nacional.

Aurélio faleceu em 1989, no Rio de Janeiro, mas sua contribuição permanece viva. O “Dicionário Aurélio” continua sendo atualizado e usado, prova de que seu trabalho segue essencial para a preservação e valorização da língua portuguesa. A escolha de palavras como “libélula”, “murucututu” e “alvorada” revela não apenas o gosto pessoal do lexicógrafo, mas também sua visão poética sobre o idioma que tanto amou.
Assim, ao recordar sua resposta de 1977, compreende-se que Aurélio via a língua como um espelho da beleza humana e natural. Para ele, palavras não eram apenas ferramentas de comunicação, mas símbolos capazes de emocionar, encantar e conectar as pessoas à riqueza da cultura brasileira.