A Holanda está prestes a mudar de forma definitiva a maneira como celebra o Ano Novo. A partir de 2026, o uso e a venda de fogos de artifício para consumidores serão proibidos em todo o país, encerrando uma tradição profundamente enraizada na cultura holandesa, especialmente nas festas de Réveillon. A medida representa um dos maiores endurecimentos já adotados na Europa em relação ao uso civil de fogos e surge após anos de debates políticos, pressão social e sucessivos episódios de violência e acidentes durante as viradas de ano.
O banimento foi aprovado pelo Parlamento e confirmado pelo Senado da Holanda, com previsão de entrada em vigor na virada de 2026 para 2027. Na prática, isso significa que o Réveillon de 2025 para 2026 deve ser o último em que a população poderá comprar e soltar a maioria dos fogos de artifício por conta própria. A decisão encerra décadas de discussões e propostas parciais que, até então, restringiam apenas horários, tipos de fogos ou deixavam a regulamentação a cargo dos municípios.

O principal argumento por trás da proibição é a segurança pública. Todos os anos, hospitais holandeses registram centenas de feridos por queimaduras, amputações de dedos, lesões oculares e traumas causados por explosões. Além disso, a virada do ano costuma ser marcada por confrontos entre grupos e forças de segurança, ataques a policiais, bombeiros e socorristas, além de incêndios provocados pelo uso indiscriminado de fogos em áreas residenciais. Autoridades afirmam que o custo humano e financeiro desses episódios se tornou insustentável.
Outro fator decisivo foi o impacto sobre animais e o meio ambiente. Organizações de proteção animal há anos alertam para o sofrimento de cães, gatos, aves e animais silvestres, que entram em pânico com os estampidos. Já ambientalistas apontam a poluição do ar, o acúmulo de resíduos tóxicos nas ruas e cursos d’água e o aumento temporário, porém intenso, de partículas nocivas na atmosfera logo após a meia-noite do dia 31 de dezembro.

O texto aprovado prevê que o banimento se aplique aos chamados fogos de artifício para consumidores, aqueles tradicionalmente vendidos ao público em supermercados e lojas especializadas. Permanecem liberados apenas itens classificados como de risco mínimo, enquadrados na categoria F1, como estrelinhas, estalinhos simples e pequenos artefatos sem explosão significativa. Já rojões, baterias, morteiros e fogos com estampido ou grande alcance deixam de ser permitidos para uso doméstico.
A nova política não elimina completamente os fogos do céu holandês. O governo pretende incentivar espetáculos profissionais organizados por prefeituras ou empresas licenciadas, com regras rígidas de segurança, perímetros controlados e equipes técnicas especializadas. A ideia é substituir milhares de pontos de explosão espalhados pelas cidades por eventos concentrados, mais seguros e previsíveis, reduzindo o caos típico da virada do ano.
A fiscalização será um dos maiores desafios da medida. A Holanda já enfrenta problemas recorrentes com fogos ilegais, muitos deles contrabandeados de países vizinhos e com poder explosivo muito superior ao permitido. Para isso, estão previstos reforços nas ações policiais, campanhas de conscientização, cooperação internacional e punições mais severas para quem comercializar ou armazenar fogos proibidos.
Apesar da resistência de parte da população e do setor comercial, pesquisas recentes indicam apoio crescente ao banimento, especialmente entre moradores de grandes cidades, profissionais da saúde e forças de segurança. Para muitos holandeses, a tradição deixou de ser sinônimo de celebração e passou a representar medo, desordem e riscos desnecessários.
Com a proibição nacional, a Holanda se junta a um grupo cada vez maior de países e cidades que repensam o uso de fogos de artifício e buscam alternativas mais seguras e sustentáveis para comemorar datas festivas, marcando uma mudança cultural significativa no país.