Em um gesto que chamou atenção nos bastidores da política internacional, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu não sancionar o projeto de lei aprovado pelo Congresso Nacional que instituía o “Dia da Amizade Brasil-Israel”, previsto para ser comemorado anualmente em 18 de fevereiro. A proposta, de autoria do deputado federal Pastor Marco Feliciano (PL-SP), já havia passado pelas duas casas legislativas e aguardava apenas a assinatura presidencial para virar lei.
Silêncio do Planalto gera especulações
A decisão de Lula — ou, neste caso, a omissão deliberada da sanção — não veio acompanhada de explicações formais por parte do Palácio do Planalto. O silêncio, no entanto, reverberou forte nos meios diplomáticos, políticos e nas redes sociais, especialmente em meio ao clima tenso no Oriente Médio e às críticas recentes que Lula tem feito ao governo de Israel devido à guerra na Faixa de Gaza.
Para muitos analistas, o gesto carrega um significado político e simbólico: Lula evita endossar qualquer movimento que possa ser interpretado como apoio ao governo de Benjamin Netanyahu, com quem mantém relações estremecidas desde suas declarações comparando ações israelenses em Gaza ao Holocausto.
Repercussão política
O autor do projeto, deputado Marco Feliciano, usou suas redes sociais para protestar contra a decisão presidencial. “O presidente Lula ignora uma data que simboliza a união e amizade entre os povos. Um gesto que fala mais alto que mil discursos”, escreveu ele.
Já membros do governo e parlamentares aliados afirmam, nos bastidores, que a decisão de não sancionar pode ter sido estratégica, para não gerar ruídos na relação com países árabes — especialmente no momento em que o Brasil busca fortalecer parcerias comerciais e diplomáticas no Oriente Médio e na África.
Comunidade judaica reage
A Confederação Israelita do Brasil (Conib) divulgou uma nota expressando “profunda decepção” com a decisão de Lula. “A instituição de um dia simbólico de amizade entre os povos não deveria ser politizada. Trata-se de um gesto de paz, de valorização do diálogo e da convivência entre nações”, declarou a entidade.
Representantes da comunidade judaica também afirmam que o Brasil, historicamente, teve um papel importante na criação do Estado de Israel, com o chanceler Oswaldo Aranha presidindo a sessão da ONU que aprovou a partilha da Palestina em 1947.
Especialistas veem cálculo geopolítico
Para o professor de Relações Internacionais da USP, Felipe Loureiro, a decisão de Lula pode ser entendida dentro de uma lógica geopolítica mais ampla: “O presidente tenta manter o Brasil como um ator neutro e defensor dos direitos humanos na arena internacional. Sancionar uma data ligada diretamente a Israel neste momento seria contraditório com suas recentes críticas à política militar israelense.”
Por outro lado, setores mais à direita classificaram o gesto como antissionista e ideológico, enquanto líderes da esquerda tentam minimizar a importância do projeto, dizendo que se trata de uma “data inócua” com pouco impacto prático.
E agora?
Sem a sanção presidencial, o projeto pode voltar ao Congresso, que pode promulgar a lei independentemente da assinatura de Lula, caso não haja veto formal — o que ainda está em análise jurídica. Tudo dependerá de como os líderes parlamentares interpretarão o gesto do Executivo.
Enquanto isso, a pergunta continua ecoando: por que o presidente Lula decidiu não sancionar uma data que simboliza a amizade entre dois povos com laços históricos? A resposta, ao que tudo indica, envolve muito mais política externa do que simples diplomacia simbólica.
