Jerome Powell descreveu um cenário que, à primeira vista, pode parecer contraditório. Os números oficiais ainda mostram uma taxa de desemprego de 4,3% e um consumo doméstico relativamente sólido, mas, ao ajustar os dados para eliminar distorções estatísticas, ele apontou que a criação líquida de empregos está praticamente em zero. Esse dado sugere que o mercado de trabalho norte-americano, embora estável na superfície, está perdendo vitalidade de forma silenciosa.
Um dos fatores centrais dessa transformação é a inteligência artificial. Powell ressaltou que executivos de grandes companhias já admitem abertamente que a tecnologia está permitindo ganhos de eficiência que reduzem a necessidade de mão de obra. A promessa de “fazer mais com menos pessoas” deixou de ser apenas uma previsão futurista e se tornou uma prática corrente em diversos setores.

No setor financeiro, por exemplo, bancos e corretoras estão substituindo equipes inteiras de analistas por sistemas de IA capazes de processar grandes volumes de dados em segundos, identificar padrões de risco e até sugerir estratégias de investimento. Isso reduz custos e aumenta a precisão, mas também elimina funções que antes eram ocupadas por milhares de profissionais.
Na saúde, hospitais e clínicas estão adotando algoritmos para leitura de exames de imagem, triagem de pacientes e até apoio em diagnósticos. Embora a tecnologia melhore a eficiência e reduza erros, ela também diminui a demanda por técnicos e especialistas em funções intermediárias, deslocando trabalhadores para atividades de menor complexidade ou simplesmente eliminando postos.
O varejo é outro setor em rápida transformação. Grandes redes já utilizam sistemas de autoatendimento, estoques automatizados e algoritmos de previsão de demanda que reduzem a necessidade de caixas, estoquistas e até gerentes de loja. A experiência do consumidor melhora em termos de rapidez e personalização, mas o impacto sobre o emprego é direto e visível.

Powell destacou que, em paralelo a essa redução de vagas, há um movimento intenso de investimentos em infraestrutura tecnológica. A construção de data centers, a aquisição de servidores de alto desempenho e a expansão de redes de energia para suportar a demanda da IA se tornaram motores de crescimento econômico. Esses investimentos sustentam o PIB e criam oportunidades em setores específicos, como engenharia, construção civil e tecnologia da informação, mas não compensam a perda de empregos em larga escala em áreas tradicionais.
Esse quadro coloca o Federal Reserve diante de um dilema inédito. A economia cresce, impulsionada pela automação e pela inovação, mas o mercado de trabalho não acompanha esse ritmo. A política monetária, tradicionalmente usada para equilibrar crescimento e emprego, enfrenta limites diante de uma transformação estrutural que não depende apenas de ciclos econômicos, mas de mudanças tecnológicas profundas.
O risco, segundo Powell, é que os Estados Unidos avancem para um modelo de crescimento sustentado por máquinas e algoritmos, mas com menos espaço para trabalhadores humanos. Isso pode ampliar desigualdades, pressionar salários e gerar tensões sociais em um país que historicamente associou prosperidade econômica à expansão do emprego.
Esse retrato sugere que o futuro do trabalho nos EUA dependerá não apenas da política monetária, mas também de decisões regulatórias, educacionais e empresariais sobre como equilibrar os ganhos da inteligência artificial com a necessidade de preservar um mercado de trabalho inclusivo e dinâmico.