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As estátuas mais detestadas da China são esbofeteadas há cinco séculos, e ainda ninguém se cansou

Curiosidades

A tradição que envolve as estátuas ajoelhadas diante do mausoléu de Yue Fei, em Hangzhou, se transformou num dos rituais culturais mais curiosos e persistentes da China. Essas figuras de bronze representam Qin Hui e sua esposa. Qin Hui é lembrado como o responsável pela falsa acusação que levou à execução do general Yue Fei no século XII, um herói militar considerado símbolo supremo de lealdade e patriotismo. Desde o século XV, visitantes de várias regiões do país se dirigem ao local para expressar indignação contra o casal representado nas esculturas. A prática se tornou tão comum que entrou para o imaginário popular, funcionando como uma catarse coletiva que atravessa gerações.

Ao se aproximar do mausoléu, o visitante encara a cena singular das estátuas ajoelhadas, com as mãos amarradas atrás do corpo, posicionadas em frente à tumba monumental de Yue Fei. Essa configuração reforça a ideia de humilhação e penitência eterna. Muitos turistas batem nas esculturas, outros dão chutes, alguns cospem e há quem simplesmente murmure insultos tradicionais que fazem parte da narrativa histórica transmitida de pais para filhos. O gesto é repetido com naturalidade, como se fosse parte obrigatória da visita, e cada pessoa acredita contribuir para manter vivo o sentimento de justiça em memória do general.

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A intensidade desse ritual é tanta que as estátuas já precisaram ser substituídas diversas vezes ao longo dos séculos. O desgaste provocado pelas agressões, pela ação do tempo e pela enorme quantidade de visitantes tornou inevitável a renovação das peças. A simbologia, porém, permanece intocada. A cada nova escultura instalada, o ciclo recomeça. As pessoas continuam a se aproximar, levantam a mão e desferem tapas simbólicos que, para muitos, representam uma forma de corrigir um erro histórico que jamais foi esquecido.

A história que envolve Yue Fei e Qin Hui mexe com sentimentos profundos na população chinesa. Yue Fei é visto como o retrato ideal do guerreiro leal, enquanto Qin Hui se tornou a personificação da traição. Essa dualidade transformou as estátuas em um ponto de descarga emocional, um lugar onde o passado é revivido não só pela memória, mas pelo toque físico, pelo gesto repetitivo que reforça a separação entre honra e fraude. A cultura local alimentou ainda mais essa narrativa ao associar elementos do cotidiano, como o famoso alimento frito conhecido popularmente como “diabo frito em óleo”, que faz referência direta aos traidores.

A preservação desse hábito ao longo de quase quinhentos anos demonstra como a tradição e o sentimento coletivo moldam comportamentos que atravessam gerações. Apesar das mudanças sociais, políticas e tecnológicas, a população continua encontrando sentido nesse ato simples. Cada tapa representa, para muitos, uma participação ativa na defesa da honra de Yue Fei. Assim, as estátuas permanecem ali, imóveis, de joelhos, como testemunhas silenciosas de um ritual que mistura história, cultura, indignação e um desejo profundo de manter viva a justiça simbólica que o povo acredita que o general merece.

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