Um estudo recente da Universidade de São Paulo (USP) aponta que o aumento da carga tributária sobre os mais ricos pode ter impactos positivos significativos na economia brasileira. A pesquisa, desenvolvida por economistas do Núcleo de Economia Fiscal do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP), sugere que uma reforma tributária focada na progressividade – ou seja, na cobrança proporcionalmente maior sobre quem ganha mais – pode impulsionar o Produto Interno Bruto (PIB) e gerar milhões de novos empregos ao longo dos próximos anos.
Redistribuição inteligente
Segundo o estudo, o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo em termos de distribuição de renda, e parte disso se deve à estrutura do seu sistema tributário. Enquanto os mais pobres pagam proporcionalmente mais impostos sobre o consumo, os mais ricos se beneficiam de isenções em lucros, dividendos e heranças.
A proposta dos pesquisadores inclui a criação de novas alíquotas de Imposto de Renda para os super-ricos, taxação de grandes fortunas, cobrança de tributos sobre lucros e dividendos distribuídos, além da reformulação de benefícios fiscais considerados regressivos.
Impacto econômico positivo
O levantamento estima que, com uma alíquota progressiva sobre os 0,1% mais ricos, seria possível arrecadar cerca de R$ 100 bilhões por ano. Esses recursos poderiam ser direcionados para investimentos públicos em infraestrutura, educação e saúde – setores que, além de fundamentais para o bem-estar da população, têm forte capacidade de gerar empregos diretos e indiretos.
“O aumento da carga tributária sobre os muito ricos, quando revertido em políticas públicas eficazes, tende a aquecer a economia e melhorar a distribuição de renda”, explica o economista e coordenador do estudo, Ricardo Abramovay.
Mais empregos, menos desigualdade
O estudo projeta que a aplicação dessas medidas pode gerar até 2 milhões de empregos em um período de cinco anos, principalmente nas áreas de construção civil, educação básica e assistência social.
Além disso, o PIB poderia crescer até 3% a mais do que o projetado em cenários de manutenção do status quo, segundo simulações feitas pelos pesquisadores. A redução da desigualdade social, por sua vez, poderia colocar o Brasil em patamares mais equilibrados de justiça fiscal em comparação com países da OCDE.
Resistência e debate político
Apesar dos dados promissores, a proposta enfrenta forte resistência de setores econômicos ligados ao mercado financeiro e grandes empresas. Críticos argumentam que a alta tributação pode desestimular investimentos privados e provocar fuga de capitais. No entanto, o estudo da USP rebate esse argumento ao mostrar que países com maior progressividade tributária, como Alemanha, Canadá e França, mantêm altos níveis de investimento e crescimento sustentável.
Para os autores, o caminho para uma reforma tributária justa passa por um debate sério, técnico e baseado em evidências, longe de ideologias extremadas. “Não se trata de punir os ricos, mas de tornar o sistema mais justo e eficiente”, afirma Abramovay.
