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Beber café em jejum pode aumentar o cortisol e intensificar o estresse corporal geral

Ciência e Tecnologia

Para muita gente, o dia só começa de verdade depois da primeira xícara de café. O problema é que esse hábito aparentemente inofensivo, quando feito em jejum, pode estar estimulando uma cascata hormonal que aumenta o estresse do organismo e prepara o terreno para quedas de energia poucas horas depois.

Logo ao acordar, o corpo humano já entra em um estado natural de alerta. Nesse momento ocorre o chamado pico matinal de cortisol, hormônio fundamental para regular o metabolismo, manter a pressão arterial e mobilizar energia para as atividades do dia. Esse mecanismo faz parte do ritmo biológico normal e ajuda o organismo a sair do estado de repouso noturno. Quando a cafeína é introduzida imediatamente, sem nenhum alimento no estômago, ela tende a amplificar essa resposta, empurrando os níveis de cortisol ainda mais para cima.

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A cafeína age estimulando o sistema nervoso central e promovendo a liberação de adrenalina e noradrenalina, hormônios ligados ao estresse e ao estado de prontidão. Em um organismo que já está com o cortisol elevado por causa do despertar, essa combinação pode gerar uma resposta exagerada. O resultado, para muitas pessoas, aparece em forma de tremores, batimentos cardíacos acelerados, sensação de ansiedade, irritabilidade e dificuldade de manter o foco nas primeiras horas da manhã.

Além do impacto hormonal, há também um efeito metabólico importante. Em jejum, o fígado está mais sensível a estímulos que elevam a glicose no sangue. Estudos indicam que o consumo de café antes do café da manhã pode prejudicar temporariamente o controle glicêmico, favorecendo picos de açúcar seguidos por quedas rápidas. Esse sobe e desce energético explica por que tantas pessoas relatam uma disposição artificial logo após o café, seguida por cansaço intenso, fome precoce e dificuldade de concentração no meio da manhã.

Pesquisadores da Universidade de Bath, no Reino Unido, observaram que a cafeína ingerida ao acordar, especialmente após noites mal dormidas, intensifica o estresse metabólico e altera a resposta do organismo à glicose. Embora o estudo não condene o café em si, ele reforça que o momento do consumo faz diferença e pode influenciar a forma como o corpo lida com hormônios e energia ao longo do dia.

Do ponto de vista fisiológico, comer algo antes do café cria uma espécie de proteção interna. Mesmo uma refeição leve, com uma combinação de fibras, proteínas e um pouco de gordura, ajuda a desacelerar a absorção da cafeína, estabilizar o açúcar no sangue e moderar a liberação de cortisol. Esse “amortecedor” nutricional permite que o café cumpra seu papel de melhorar o estado de alerta e o desempenho mental, sem provocar uma sobrecarga hormonal logo nas primeiras horas do dia.

Nutricionistas e especialistas em metabolismo destacam que esse ajuste simples pode trazer benefícios perceptíveis. Pessoas que passam a se alimentar antes da primeira xícara costumam relatar menos ansiedade matinal, menor oscilação de humor, mais energia sustentada e menos episódios de queda brusca de disposição. Com o tempo, essa rotina também tende a favorecer uma resposta ao estresse mais equilibrada e um início de dia menos agressivo para o organismo.

Nada disso significa que o café precise ser eliminado da rotina. A bebida continua associada a efeitos positivos, como melhora da atenção, aumento do desempenho cognitivo e ação antioxidante. O ponto central é respeitar o momento em que o corpo já está naturalmente sob influência de hormônios do estresse e evitar potencializar esse estado sem necessidade.

Ajustar a ordem da manhã, primeiro um pequeno lanche, depois o café, pode ser uma estratégia simples, acessível e eficaz para reduzir a sobrecarga hormonal, melhorar o controle da energia e tornar o despertar mais estável e saudável.

Fonte científica
Betts, J. A., Richardson, J. D., Chowdhury, E. A., Holman, G. D., Tsintzas, K., Thompson, D. (2020). Glucose control upon waking is unaffected by coffee consumption prior to a disrupted night’s sleep. British Journal of Nutrition.

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