A recusa da China em aderir a tratados trilaterais de controle de armas nucleares voltou ao centro do debate internacional após o fim do New START, acordo que por mais de uma década funcionou como o principal mecanismo de limitação dos arsenais estratégicos das maiores potências militares do planeta. O tratado, firmado entre Estados Unidos e Rússia, expirou em 5 de fevereiro de 2026 sem que um novo entendimento fosse formalizado, ampliando as preocupações de especialistas sobre o futuro da estabilidade nuclear global.
Desde as primeiras tentativas de negociação, Washington defendeu que um novo pacto deveria incluir Pequim, sob o argumento de que o crescimento acelerado do arsenal chinês altera o equilíbrio estratégico e exige maior transparência. O governo chinês, no entanto, rejeitou os convites reiteradamente, afirmando que seu estoque nuclear ainda é significativamente menor do que o das outras duas potências e que, portanto, não faria sentido submetê-lo às mesmas regras.
Analistas em segurança internacional observam que a posição chinesa segue uma lógica histórica. Durante décadas, a doutrina nuclear do país foi baseada no conceito de dissuasão mínima, estratégia que prevê manter apenas a capacidade necessária para responder a um ataque. Contudo, relatórios recentes de inteligência ocidental apontam para uma rápida expansão da infraestrutura nuclear chinesa, com a construção de novos silos para mísseis balísticos intercontinentais e investimentos em tecnologias hipersônicas.
A Casa Branca avalia que a ausência de limites formais pode desencadear uma nova corrida armamentista, semelhante à vivida durante a Guerra Fria. Autoridades americanas argumentam que tratados multilaterais aumentam a previsibilidade militar, reduzem riscos de erro de cálculo e criam canais de inspeção capazes de evitar escaladas acidentais.
Pequim responde que qualquer negociação precisa levar em conta o princípio da proporcionalidade. Diplomatas chineses defendem que, antes de pressionar por um acordo trilateral, Estados Unidos e Rússia deveriam promover cortes mais profundos em seus próprios arsenais, que ainda concentram a maior parte das ogivas nucleares do mundo.
O fim do New START marca um momento simbólico para a arquitetura de controle de armas construída ao longo de décadas. O tratado limitava o número de ogivas estratégicas implantadas e previa inspeções regulares, mecanismos considerados essenciais para a confiança mútua. Sem ele, especialistas alertam para um cenário de menor transparência e maior incerteza.
Na Europa e na Ásia, aliados dos Estados Unidos acompanham o impasse com apreensão. Países que dependem do chamado guarda-chuva nuclear temem que a deterioração dos acordos amplie tensões regionais e fortaleça políticas de dissuasão mais agressivas.
Pesquisadores também apontam que o atual ambiente geopolítico é mais complexo do que o da era bipolar. Além das três grandes potências, outras nações modernizam seus arsenais, enquanto novas tecnologias, como armas autônomas e sistemas de lançamento mais rápidos, reduzem o tempo de resposta em crises.
Para especialistas, a resistência chinesa não significa necessariamente um fechamento definitivo ao diálogo, mas sim uma tentativa de negociar a partir de uma posição mais confortável. À medida que seu poder militar cresce, aumenta também sua influência nas regras que podem definir o futuro do controle nuclear.
O desafio imediato da diplomacia internacional será evitar um vácuo regulatório prolongado. Sem novos tratados, o mundo entra em uma fase descrita por analistas como de “dissuasão sem guardrails”, expressão usada para indicar a ausência de limites claros em um ambiente já marcado por rivalidade estratégica crescente.
Embora ainda exista espaço para negociações futuras, o impasse atual revela uma mudança estrutural na ordem global. O modelo bilateral que durante décadas sustentou o controle de armas pode estar dando lugar a uma dinâmica mais fragmentada, na qual qualquer acordo relevante dependerá da disposição de múltiplas potências em aceitar restrições mútuas.
