Um novo capítulo na neurociência: cirurgia pioneira dá resultados surpreendentes
Lorena Rodríguez, administradora de empresas com mestrado em marketing e gestão comercial, de 37 anos, tornou-se a primeira pessoa no mundo a passar por um procedimento cirúrgico inovador para tratar depressão severa e resistente a tratamentos convencionais. Após mais de duas décadas sofrendo com crises de ansiedade, episódios depressivos e falta de resposta a medicações e terapias, ela foi submetida à cirurgia em abril, no Hospital Internacional da Colômbia, sob os cuidados do neurocirurgião William Contreras.
A trajetória de um sofrimento invisível que durou décadas
Lorena começou a apresentar sintomas na adolescência. Descreve sua vida como vivida “no piloto automático”, dominada por tristeza, vazio e ansiedade persistente. Mesmo durante momentos felizes, ela não conseguia estar presente. Sofreu com enxaquecas crônicas e dificuldade para realizar tarefas simples como sair da cama. Seu diagnóstico foi de transtorno misto de ansiedade e depressão resistente.

Ela tentou mais de cinco tipos de antidepressivos, ansiolíticos, estabilizadores de humor, diferentes abordagens de psicoterapia, meditação, medicina funcional, mudanças de país e práticas espirituais. Alguns métodos trouxeram alívio, mas nunca duradouro.
A cirurgia inovadora: estratégia multitarget sem precedentes
O procedimento pioneiro consistiu em uma estimulação cerebral profunda (DBS – Deep Brain Stimulation), com implantação de quatro eletrodos em múltiplas regiões cerebrais, uma abordagem inédita até então.
Alvos dos eletrodos:
- Subgênuo do córtex cingulado (SCG 25), relacionado à tristeza profunda.
- Braço anterior da cápsula interna, que conecta o pensamento racional a estruturas emocionais como o núcleo accumbens.
Antes da intervenção, foram realizados mapeamentos detalhados com ressonância magnética e tractografia para identificar com exatidão os pontos a serem estimulados.
A estratégia multitarget com quatro eletrodos, em vez do eletrodo único por hemisfério adotado normalmente, permitiu estimulação personalizada de redes cerebrais associadas a ruminação, culpa, ansiedade e tristeza.
A intervenção: precisão milimétrica e tecnologia de ponta
Durante a cirurgia, Lorena manteve-se acordada por boa parte do tempo, o que permitiu aos médicos testar em tempo real os sinais de estimulação, ajustando conforme suas reações.
Os eletrodos implantados foram conectados a um neuroestimulador colocado no tórax. Esse dispositivo envia impulsos elétricos constantes com o objetivo de regular a atividade dos circuitos cerebrais afetados.
Em geral, entre 40 % e 60 % dos pacientes submetidos à DBS apresentam melhora significativa dos sintomas. Cerca de 20 % a 30 % atingem remissão prolongada.
Um renascimento: resultados imediatos e duradouros
Nos primeiros dias, Lorena sentiu dores de cabeça e cansaço, mas percebeu uma mudança latente. Ela descreve a sensação como “voltar a ver a luz, como se a luz estivesse entrando por frestas que antes estavam fechadas”.
Quatro meses após o procedimento, relatou estar estável como nunca. “Voltei a fazer planos sem medo. Ainda sou eu, mas agora tenho espaço para viver, não só resistir”. Para ela, a cirurgia representou um renascimento e uma nova escolha pela vida com esperança real.
Um marco para a medicina latino-americana
Para o neurocirurgião William Contreras, esse caso simboliza um avanço científico imenso, demonstrando que a América Latina pode oferecer tratamentos de ponta sem que os pacientes precisem buscar ajuda em outros continentes.
A abordagem multitarget abre caminho para futuras intervenções personalizadas e regulamentadas. E ainda que a DBS esteja longe de ser uma cura universal, ela oferece uma alternativa concreta para pessoas com depressão resistente, um dos maiores desafios da saúde mental no mundo contemporâneo.
Conclusão
A história de Lorena Rodríguez é um farol de esperança para pacientes que não respondem à psiquiatria tradicional. A cirurgia inédita de estimulação cerebral profunda com múltiplos alvos mostra que a inovação médica pode ser sensível, precisa e verdadeiramente transformadora. Mesmo que o procedimento siga em caráter experimental, ele inaugura uma nova era de possibilidades. Uma era em que escolher a vida deixa de ser mera esperança para se tornar uma realidade concreta.