A presença de fósseis marinhos no topo do Monte Everest revela uma história fascinante sobre a formação das montanhas mais altas do planeta. Em uma altitude que ultrapassa 8.848 metros, nas rochas que compõem a estrutura do Everest, pesquisadores encontraram trilobitas, braquiópodes e outros organismos marinhos com aproximadamente 450 milhões de anos. Essas criaturas viveram no Período Ordoviciano, uma era em que a Terra era dominada por oceanos e ainda não existiam florestas ou animais terrestres.
Esses achados são possíveis porque as rochas do Everest pertencem à Formação de Lhotse, um conjunto de calcários e dolomitos típicos de ambientes marinhos rasos. De acordo com estudos apresentados pela Geological Society of America, esses sedimentos se formaram no antigo Mar de Tetis, um oceano que existia entre os supercontinentes de Gondwana e Laurásia. Ao longo de milhões de anos, camadas de material orgânico, areia e lodo se acomodaram no fundo marinho, endurecendo e originando as rochas que hoje sustentam o topo do mundo.

A mudança drástica desse cenário se deve à tectônica de placas. Cerca de 50 milhões de anos atrás, a placa indiana avançou em direção ao norte e colidiu com a placa eurasiática. Essa colisão contínua gerou uma compressão intensa que empurrou o antigo fundo do oceano para cima, formando o Himalaia. O processo permanece ativo, portanto o Everest continua crescendo alguns milímetros por ano, em concordância com medições recentes divulgadas pela National Geographic Society em 2020.
Os fósseis encontrados na região, como trilobitas e restos de crinoides, são essenciais para entender o passado da Terra. Trilobitas eram artrópodes marinhos que dominaram os oceanos por centenas de milhões de anos e desapareceram muito antes dos dinossauros surgirem. Crinoides, parentes distantes das estrelas do mar, deixaram em algumas rochas registros circulares que ajudam os cientistas a identificar a idade e o ambiente de deposição das camadas.
A análise desse material não apenas confirma que o topo do Everest já esteve submerso, mas também destaca como as forças internas da Terra podem transformar completamente a paisagem. Como afirmou o geólogo David Buchs, da Cardiff University, em 2018, as montanhas do Himalaia funcionam como uma biblioteca natural e revelam etapas importantes da evolução geológica do planeta. Cada estrato rochoso é uma página que mostra como o oceano se deslocou para regiões cada vez mais elevadas, culminando no ponto mais alto da superfície terrestre.
Fontes:
Geological Society of America Bulletin GSA 2016, Stratigraphy and structure of the Everest massif
National Geographic Society 2020, Mount Everest grows taller after new survey
Cardiff University Research 2018, Tectonic uplift and fossil evidence in the Himalaya