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Homem que partiu em 1998 para dar a volta ao mundo a pé está prestes a concluir sua jornada histórica após quase 30 anos

História

Em 1º de novembro de 1998, o inglês Karl Bushby deixou Punta Arenas, no extremo sul do Chile, com uma proposta simples no papel e quase impossível na prática. Voltar para Hull, sua cidade natal na Inglaterra, apenas com a força das próprias pernas, sem usar carro, ônibus, trem, avião ou qualquer outro meio motorizado. Ele imaginava concluir tudo em cerca de 12 anos, passaram-se quase três décadas, a rota se estendeu, o mundo mudou várias vezes, e a caminhada segue viva. O saldo até aqui impressiona, mais de 58 mil quilômetros percorridos, mais de 25 países, uma coleção de fronteiras difíceis, florestas agressivas, desertos intermináveis, montanhas geladas, doenças, guerras e burocracias que teriam feito muita gente desistir.

Quem é o homem por trás do feito

Bushby é um aventureiro britânico, ex-militar, com perfil obstinado. Sua expedição ganhou um nome que combina com a escala do desafio, Goliath Expedition. Ao longo dos anos, ele alternou períodos de avanço diário com pausas forçadas por clima, visados e saúde, sempre mantendo uma regra central, cada quilômetro precisa ser conquistado na sequência correta, sem “pular” trechos com transporte motorizado. Nas travessias de água, vale nadar, remar, velejar de modo não motorizado, ou contar com apoio logístico sem impulso mecânico direto, desde que o deslocamento principal continue ancorado nos próprios passos.

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A rota, um continente por vez

O início na Patagônia foi um teste de resistência ao vento frio e às distâncias vazias da América do Sul. Subindo o continente, Bushby encarou planícies intermináveis, serras e selvas, até alcançar o grande gargalo do hemisfério ocidental, o Darién Gap. Trata-se de um mosaico de pântanos e mata fechada na fronteira entre Colômbia e Panamá, região notória por violência, contrabandistas e terreno hostil. A travessia entrou para a lista das passagens mais arriscadas da expedição.

Na América Central e no México, o calor e a umidade deram lugar, pouco a pouco, às temperaturas extremas do Alasca. Em 2006 veio um dos momentos que mais marcaram a jornada, a travessia do Estreito de Bering, sobre gelo e água, ligando Alasca e Rússia por uma janela curta de condições aceitáveis. A ligação entre continentes por esforço humano, sem motores, elevou a expedição a outro patamar de ambição.

A etapa asiática trouxe novos pratos de resistência, longas pernadas pela Sibéria, burocracias pesadas, invernos rigorosos, e o xadrez sempre delicado de vistos e permissões. Mais adiante, já na Ásia Central, surgiu outra ousadia logística, a travessia do Mar Cáspio. Bushby passou 31 dias entre nado e apoio de barco para cruzar do Cazaquistão até o Azerbaijão, uma solução que preservou a coerência do projeto, movimento progressivo sem motores, embora com suporte de segurança no mar.

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A partir daí a Europa começou a ficar ao alcance do passo. Em 2025, Bushby alcançou a Turquia e atravessou o Estreito de Bósforo, marco que sela a entrada no continente que, enfim, o reconduz para casa. A reta final já está no horizonte, resta “apenas” caminhar até Hull, o que significa cruzar países europeus, lidar com sazonalidade de clima, regras de travessia de canais e, por fim, encarar o desafio de chegar ao Reino Unido sem uso de motores.

Marcas e números da jornada

• Data de partida: 1º de novembro de 1998, Punta Arenas, Chile.
• Distância acumulada aproximada: 58 mil quilômetros, equivalentes a uma volta e meia no Equador terrestre.
• Países percorridos: mais de 25, com passagens por Américas, Ásia e Europa.
• Destaques técnicos: Darién Gap na fronteira Colômbia–Panamá, Estreito de Bering em 2006, Mar Cáspio entre Cazaquistão e Azerbaijão em 31 dias, Estreito de Bósforo em 2025.
• Regra de ouro: progressão sem veículos motorizados, com travessias aquáticas feitas por nado, remo, vela ou apoio sem tração mecânica.

Os perrengues que não aparecem no mapa

Clima extremo: calor desidratante em desertos e selvas, frio paralisante no Ártico e em cadeias montanhosas.
Terreno: pântanos, gelo quebradiço, lama profunda, trilhas improvisadas, rodovias sem acostamento.
Saúde: bolhas, tendinites, hipotermia, infecções, exaustão, tudo potencializado pela rotina de esforço e pela alimentação irregular.
Burocracia: vistos negados, fronteiras fechadas, mudanças repentinas de política migratória, exigências sanitárias e de segurança.
Conflitos e riscos humanos: presença de grupos armados, áreas com alto índice de criminalidade, regiões em estado de tensão.
Logística: envio de equipamentos, reposição de botas, conserto de carrinhos de carga, planejamento de rotas com água e abrigo, obtenção de alimento em trechos remotos.
Financiamento: alternância entre patrocínios pontuais, doações e trabalho eventual, o que por vezes impôs pausas longas e replanejamento.

Por que a façanha é única

Caminhadas oceânicas de longo curso são raras, caminhadas transcontinentais são históricas, uma caminhada ininterrupta intercontinental que costura Américas, Ásia e Europa, conectada por Bering e por travessias aquáticas não motorizadas, é uma categoria à parte. Se Karl Bushby chegar a Hull mantendo as regras que traçou em 1998, poderá assinar a caminhada contínua mais longa já registrada, um feito de persistência física, habilidade logística e tenacidade psicológica.

O que ainda falta

Da Turquia até o Reino Unido, o traçado exato pode variar conforme clima, burocracia e segurança. Existem rotas pelo sul da Europa, com passagens por Grécia, balcãs, Itália e França, existem rotas mais setentrionais, passando por países da Europa Central, todas com vantagens e riscos diferentes. O Canal da Mancha representa o último grande obstáculo aquático. A regra do projeto exige uma travessia não motorizada, o que implica remar, velejar sem motor ou outra solução coerente. Depois da chegada à costa inglesa, resta o fecho simbólico, caminhar até Hull e encostar os pés no ponto final que desde 1998 orienta cada passo.

O que se aprende em 30 anos de passos

Planejamento importa, mas adaptação decide. Caminhar por tantos países obriga a negociar com imprevistos, idioma, cultura, lei e clima. O corpo se transforma, a cabeça também, os mapas mudam, as fronteiras abrem e fecham, a única constante é a próxima passada. A Goliath Expedition ensina que projetos de década pedem uma estratégia simples, metas claras, margem para contingências, e um motivo emocional forte o bastante para atravessar as fases ruins.

Curiosidades de estrada

• O equipamento mudou muito desde 1998, materiais ficaram mais leves, barracas mais resistentes, filtros de água mais eficientes, eletrônica mais confiável, o que reduziu peso e ampliou segurança.
• O calçado é item crítico, escolhas erradas custam pele e tempo, por isso Bushby testou marcas, solados e meias até encontrar combinações que aguentassem calor, gelo e asfalto.
• A navegação saiu do mapa dobrado para o GPS de pulso e para o celular, ainda assim, bater perna exige olhar atento, pois atalhos no aplicativo podem esconder riscos reais de terreno.
• A alimentação é um equilíbrio entre calorias, praticidade e custo, com cardápios que vão de comida de trilha liofilizada a refeições locais em vilas pelo caminho.

O desfecho possível

Com o Bósforo já para trás e a Europa pela frente, a chegada a Hull deixou de ser uma ideia abstrata e virou um objetivo mensurável. Ainda existem variáveis fora de controle, clima, política e saúde sempre podem impor pausas. Ainda assim, a trajetória construída ao longo de 58 mil quilômetros aponta para um final poderoso. Se Karl fechar o círculo com os pés no chão e as mesmas regras que o trouxeram até aqui, sua jornada entrará para a história das grandes travessias humanas, não apenas pelo número de quilômetros, também pelo que representa em disciplina, coragem e paciência. Resta caminhar, um país de cada vez, até a porta de casa.

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