Quase 15 anos após o desastre nuclear de Fukushima, o Japão se prepara para um dos movimentos mais simbólicos e estratégicos de sua política energética recente. O país planeja reativar a usina de Kashiwazaki-Kariwa, considerada a maior usina nuclear do mundo em capacidade instalada. Localizado na província de Niigata, no litoral do Mar do Japão, o complexo deverá ter o reator número 6 reiniciado em janeiro de 2026, conforme informou a operadora Tokyo Electric Power Company, a TEPCO, responsável também pela usina de Fukushima Daiichi.
Kashiwazaki-Kariwa é formada por sete reatores nucleares e, quando totalmente operacional, pode gerar cerca de 8,2 gigawatts de energia, volume suficiente para abastecer milhões de residências e sustentar parte significativa da demanda elétrica da região metropolitana de Tóquio. Desde o acidente de 2011, provocado por um terremoto seguido de tsunami, todos os reatores do complexo permaneceram desligados, tanto por questões técnicas quanto pela forte resistência política e social à energia nuclear no país.

A decisão de retomar as operações representa uma mudança clara de postura do governo japonês e das autoridades regulatórias. Após anos de revisões, o país passou a considerar a energia nuclear como peça essencial para garantir segurança energética, estabilidade no fornecimento e redução das emissões de carbono. O Japão importa a maior parte dos combustíveis fósseis que consome, como gás natural e carvão, o que o torna vulnerável a crises internacionais, flutuações de preços e tensões geopolíticas. Nesse contexto, a reativação de grandes reatores nucleares passou a ser vista como estratégica.
O reator 6 foi escolhido como prioridade por estar tecnicamente mais avançado no processo de adequação às normas de segurança criadas após Fukushima. Desde 2012, o Japão adotou alguns dos padrões regulatórios mais rigorosos do mundo, exigindo reforços estruturais contra terremotos, tsunamis, falhas elétricas prolongadas e outros cenários extremos. A TEPCO afirma que o reator passou por extensas melhorias, incluindo sistemas de resfriamento adicionais, fontes de energia de emergência e protocolos mais rígidos de resposta a acidentes.
Outro ponto crucial para o avanço do plano foi o aval político local. A província de Niigata sempre teve papel central no debate sobre a retomada da usina, já que abriga o complexo e concentra comunidades diretamente afetadas por qualquer eventual incidente. Após anos de estudos independentes, consultas públicas e negociações, o governo provincial sinalizou apoio à reativação, removendo um dos últimos grandes obstáculos para o reinício do reator. Mesmo assim, o tema segue dividindo a população, com grupos contrários alertando para riscos ambientais, planos de evacuação e a confiança na operadora.
A TEPCO também enxerga a retomada como essencial para sua própria sobrevivência financeira. A empresa ainda arca com custos bilionários relacionados à limpeza, compensações e descomissionamento de Fukushima, além de enfrentar uma reputação fragilizada dentro e fora do Japão. Colocar Kashiwazaki-Kariwa novamente em operação permitiria aumentar receitas, reduzir a dependência de termelétricas caras e reforçar sua posição no setor elétrico japonês.
No plano nacional, a reativação da maior usina nuclear do mundo reforça a estratégia do Japão de ampliar a participação da energia nuclear em sua matriz, que já chegou a representar cerca de 30 por cento da geração elétrica antes de 2011. Embora o governo não tenha como meta retornar exatamente a esse patamar, a expectativa é que os reatores nucleares tenham papel relevante na transição energética e no cumprimento das metas climáticas estabelecidas para as próximas décadas.
Até janeiro de 2026, o reator 6 ainda passará por inspeções finais, testes operacionais e validações regulatórias antes de entrar em operação comercial. Se o cronograma for mantido, a volta de Kashiwazaki-Kariwa marcará um novo capítulo na história da energia nuclear japonesa, sinalizando que o país considera possível conviver novamente com grandes usinas atômicas, mesmo sob a sombra de um dos maiores desastres nucleares da história.
Fonte: Reuters, Associated Press, comunicados oficiais da Tokyo Electric Power Company (TEPCO).