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Mariangela Hungria revoluciona a agricultura e leva o Brasil à liderança mundial da soja com bactérias que substituem fertilizantes químicos

Ciência e Tecnologia

A transformação silenciosa da agricultura brasileira nas últimas décadas tem uma ligação direta com o trabalho de uma pesquisadora que passou anos observando fenômenos invisíveis a olho nu. A microbiologista Mariangela Hungria construiu uma carreira dedicada ao estudo de microrganismos capazes de realizar um processo essencial para a vida vegetal, a conversão do nitrogênio presente no ar em nutrientes assimiláveis pelas plantas. Esse avanço científico mudou o rumo da produção agrícola no país e redefiniu a forma como a soja é cultivada.

O nitrogênio é indispensável para o crescimento das culturas, mas a maior parte desse elemento está na atmosfera e não pode ser utilizada diretamente pelas plantas. Durante décadas, a solução encontrada pela agricultura moderna foi a aplicação de fertilizantes sintéticos, produzidos a partir de processos industriais intensivos em energia e dependentes de matérias primas estratégicas. Essa tecnologia permitiu ganhos de produtividade, mas trouxe consequências ambientais relevantes, além de custos elevados e dependência externa.

No Brasil, a necessidade de importar grandes volumes de fertilizantes nitrogenados representava um desafio econômico e logístico. Oscilações no mercado internacional, crises geopolíticas e aumentos de preços afetavam diretamente o setor agrícola. Foi nesse cenário que as pesquisas desenvolvidas na Embrapa ganharam importância. Mariangela Hungria passou a investigar como bactérias presentes naturalmente no solo poderiam ser usadas para fornecer o nutriente às lavouras de forma eficiente.

Esses microrganismos, conhecidos por estabelecer uma relação simbiótica com as plantas, se alojam nas raízes e formam estruturas especializadas. Dentro dessas estruturas ocorre a fixação biológica do nitrogênio. A planta fornece energia às bactérias e recebe em troca o nutriente necessário para seu desenvolvimento. O processo é contínuo, natural e reduz a necessidade de fertilização artificial.

A cientista concentrou esforços na identificação de cepas mais eficientes, capazes de sobreviver em diferentes condições climáticas e tipos de solo. Ao longo de anos, testes de campo, validações agronômicas e desenvolvimento de tecnologias permitiram transformar esse conhecimento em soluções aplicáveis aos produtores. O método de inoculação de sementes com bactérias selecionadas passou a ser adotado em larga escala, garantindo produtividade e redução de custos.

A expansão dessa tecnologia coincidiu com o crescimento da produção de soja no país. A cultura, que já possuía potencial devido ao clima e à disponibilidade de terras, tornou se ainda mais competitiva. A economia de fertilizantes gerou impacto direto na rentabilidade do produtor e na estabilidade do setor. Com menor dependência de insumos importados, o país fortaleceu sua posição no comércio internacional e consolidou a liderança global nas exportações do grão.

Os efeitos ambientais também ganharam destaque. A fabricação e o uso de fertilizantes nitrogenados estão associados à emissão de gases de efeito estufa e à contaminação de solos e águas. A adoção da fixação biológica contribuiu para reduzir significativamente esses impactos. Estimativas indicam uma diminuição expressiva no uso de fertilizantes sintéticos, com reflexos positivos na sustentabilidade da produção agrícola.

O reconhecimento internacional veio após décadas de pesquisa contínua. A premiação com o Prêmio Mundial da Alimentação de 2025 reforçou a importância global dessa contribuição. O trabalho foi considerado um exemplo de inovação que alia ciência, produtividade e responsabilidade ambiental. Especialistas destacaram o alcance social, já que a tecnologia beneficia grandes e pequenos produtores e contribui para a segurança alimentar.

O impacto vai além da soja. A abordagem baseada em bioinsumos abre caminho para novas estratégias agrícolas. O desenvolvimento de tecnologias biológicas para diferentes culturas pode reduzir custos, melhorar a saúde do solo e ampliar a resiliência diante das mudanças climáticas. Países com limitações financeiras ou ambientais encontram nesse modelo uma alternativa viável para aumentar a produção de alimentos sem ampliar a pressão sobre os recursos naturais.

A trajetória da pesquisadora demonstra a relevância de investimentos de longo prazo em ciência e inovação. Resultados que transformam setores inteiros nem sempre surgem rapidamente. No caso da agricultura brasileira, a combinação entre pesquisa, adaptação tecnológica e parceria com produtores permitiu a construção de um sistema produtivo mais eficiente e sustentável.

Hoje, o país é visto como referência em agricultura tropical e bioeconomia. O sucesso da fixação biológica do nitrogênio reforça a ideia de que a cooperação com processos naturais pode gerar soluções duradouras. A ciência deixa de atuar apenas como ferramenta de controle e passa a funcionar como ponte entre a produção de alimentos e o equilíbrio ambiental, um caminho cada vez mais necessário em um cenário de crescimento populacional e desafios climáticos.

Fontes
Embrapa
Food and Agriculture Organization
The World Food Prize Foundation
Revistas científicas de microbiologia e agronomia internacional

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