Morreu, aos 94 anos, Cecilia Giménez, a espanhola que entrou para a história da arte e da internet após protagonizar uma das restaurações mais polêmicas de todos os tempos. Ela faleceu nesta segunda-feira, 29 de dezembro, na cidade de Borja, na Espanha, onde viveu durante toda a vida. A causa da morte não foi divulgada pelas autoridades locais nem pela família.
Cecilia ficou mundialmente conhecida em 2012 ao tentar restaurar, de forma voluntária e sem formação técnica, o quadro Ecce Homo, que representa Jesus Cristo. A obra estava exposta em uma igreja local e apresentava sinais de desgaste natural causados pelo tempo, como rachaduras e perda de tinta.

O quadro original havia sido pintado no início do século 20 pelo artista espanhol Elías García Martínez. Ao perceber que a imagem estava se deteriorando, Cecilia, que tinha então 81 anos e frequentava a igreja, decidiu agir. Ela chegou a comunicar a prefeitura de Borja sobre o estado da obra e, acreditando estar ajudando, resolveu assumir a restauração por conta própria.
Sem autorização formal e sem conhecimentos técnicos em conservação artística, Cecilia utilizou materiais simples e métodos improvisados. O resultado final foi uma imagem completamente diferente da original, com traços distorcidos e feições irreconhecíveis, o que rapidamente gerou indignação entre fiéis, moradores da cidade e especialistas em arte sacra.
As fotos do antes e depois da restauração viralizaram nas redes sociais e na imprensa internacional. A obra passou a ser ironicamente apelidada de “a pior restauração da história” e se tornou alvo de memes, sátiras e reportagens ao redor do mundo. Na época, a situação causou forte revolta entre religiosos, que consideraram o ato uma ofensa à imagem de Jesus e ao patrimônio cultural local.

Com o passar do tempo, porém, o episódio ganhou um novo significado. O Santuário da Misericórdia de Borja, onde a pintura está localizada, transformou-se em um inesperado ponto turístico. Visitantes de diversos países passaram a ir à cidade apenas para ver de perto a obra que se tornou símbolo da cultura pop e da curiosidade coletiva.
A repercussão acabou gerando impactos positivos para a economia local, com aumento do turismo, venda de ingressos, souvenirs e produtos relacionados à imagem restaurada. Parte da arrecadação foi destinada à manutenção da igreja e a projetos sociais da região.
Apesar da fama tardia e das críticas iniciais, Cecilia Giménez sempre afirmou que sua intenção foi apenas ajudar e preservar a imagem religiosa que considerava importante para a comunidade. Nos anos seguintes, ela passou a viver de forma mais reservada, longe dos holofotes, enquanto sua história seguia sendo lembrada como um dos episódios mais curiosos da arte contemporânea.
Com a morte de Cecilia, encerra-se a trajetória da mulher que, mesmo sem querer, transformou uma pequena cidade espanhola em referência mundial e deixou uma marca definitiva na história da arte, da internet e do debate sobre preservação cultural.