A orca Tahlequah, identificada como J35 pelos cientistas que monitoram as orcas residentes do sul, voltou a protagonizar uma das histórias mais comoventes da conservação marinha em 2025. Conhecida mundialmente desde 2018, quando percorreu centenas de quilômetros carregando o corpo de seu filhote morto por cerca de 17 dias, ela foi novamente observada vivendo uma perda semelhante após o nascimento de um novo bebê no fim de dezembro. Poucos dias depois do parto, o filhote morreu, e Tahlequah passou a manter o corpo consigo por vários dias, repetindo um comportamento raro, intenso e fisicamente exaustivo, que voltou a chamar a atenção de pesquisadores, ambientalistas e do público em geral.

O nascimento havia sido inicialmente recebido como uma notícia positiva, já que cada novo filhote representa uma chance concreta de sobrevivência para uma população considerada criticamente ameaçada de extinção. As orcas residentes do sul vivem principalmente nas águas do noroeste do Pacífico, entre o Canadá e os Estados Unidos, e são acompanhadas individualmente há décadas por equipes científicas. Essa população é formada por três grupos familiares principais, conhecidos como pods J, K e L, e soma pouco mais de 70 indivíduos, um número extremamente baixo para garantir estabilidade genética e recuperação a longo prazo.
Quando a morte do filhote foi confirmada, observadores relataram que Tahlequah passou a equilibrar o corpo do bebê sobre a cabeça ou o focinho, mergulhando repetidamente para recuperá lo sempre que ele afundava. Esse tipo de comportamento exige grande gasto de energia, especialmente em um momento crítico, logo após o parto, quando a fêmea precisaria se alimentar bem para se recuperar fisicamente e manter suas reservas corporais. Ainda assim, ela persistiu por dias, o que reforça a interpretação científica de que se trata de um comportamento associado a forte vínculo social e a um processo de luto.

Na ciência do comportamento animal, esse tipo de atitude é classificado como comportamento epimelético, quando um indivíduo demonstra cuidado prolongado com outro que está morto ou incapacitado. Em cetáceos altamente sociais, como orcas e golfinhos, esse fenômeno já foi registrado em diferentes partes do mundo, mas continua sendo raro e pouco compreendido. No caso das orcas residentes do sul, que vivem em grupos familiares estáveis, liderados por fêmeas mais velhas, o episódio ganha ainda mais peso, pois reforça evidências de que esses animais possuem estruturas sociais complexas, memória duradoura e respostas emocionais sofisticadas.
A história de Tahlequah também escancara um problema que vai muito além do aspecto emocional. A mortalidade de filhotes entre as residentes do sul é alta, especialmente nos primeiros dias e no primeiro ano de vida. Pesquisas apontam que muitos nascem com peso abaixo do ideal ou não conseguem resistir às condições ambientais adversas que afetam diretamente as mães. Entre os principais fatores estão a escassez de alimento, sobretudo do salmão Chinook, que é a principal fonte de energia dessas orcas, a contaminação por poluentes químicos persistentes acumulados ao longo de décadas, e o aumento do ruído submarino causado pelo tráfego intenso de embarcações comerciais e turísticas.
A falta de salmão tem impacto direto na reprodução. Fêmeas grávidas ou em período de amamentação precisam de grandes quantidades de energia. Quando o alimento é escasso, elas entram em déficit nutricional, o que pode resultar em abortos espontâneos, nascimento de filhotes mais fracos ou dificuldade de produção de leite. Além disso, quando a gordura corporal é mobilizada em períodos de jejum, toxinas acumuladas ao longo da vida podem ser liberadas na corrente sanguínea, afetando tanto a mãe quanto o filhote.
O ruído das embarcações é outro fator crítico. As orcas dependem da ecolocalização para caçar, se orientar e se comunicar. O barulho constante interfere nesse sistema, reduz a eficiência de caça e aumenta o estresse, criando um ciclo negativo que se soma à falta de alimento e à poluição. Para uma população já pequena, qualquer pressão adicional pode ter consequências desproporcionais.
O novo episódio envolvendo Tahlequah ocorreu em um momento simbólico, porque, quase ao mesmo tempo em que a morte do filhote foi confirmada, pesquisadores também identificaram outro recém nascido no mesmo grupo, trazendo uma mistura de esperança e apreensão. Essa alternância entre boas e más notícias ilustra o quão frágil é a situação das residentes do sul. Cada nascimento é celebrado, mas nenhuma sobrevivência é garantida sem mudanças concretas no ambiente em que essas orcas vivem.
A imagem de Tahlequah carregando novamente o corpo de seu filhote não é apenas uma cena tocante, ela funciona como um retrato direto do estado crítico dessa população. Ela transforma estatísticas frias em uma narrativa compreensível, mostrando que por trás dos números existem indivíduos, laços familiares e perdas reais. Para pesquisadores e defensores da conservação, o caso reforça a urgência de medidas já amplamente defendidas, como a recuperação dos estoques de salmão, a restauração de habitats fluviais, a redução de ruídos e distúrbios causados por embarcações em áreas sensíveis, e o controle mais rigoroso de fontes de poluição.
Enquanto essas ações não avançam de forma suficiente, histórias como a de Tahlequah tendem a se repetir. Seu comportamento, observado pela segunda vez em menos de uma década, permanece como um alerta poderoso sobre a capacidade de sofrimento desses animais e sobre a responsabilidade humana na degradação do ambiente que ameaça sua sobrevivência.