Não é prudente supor que uma família com patrimônio estimado em mais de R$100 bilhões age por impulso, desconhecimento ou ingenuidade. Quando decisões aparentemente simples geram grande repercussão pública, quase sempre existe uma lógica estratégica por trás. O debate recente envolvendo a Havaianas, a família Moreira Salles e interesses geopolíticos ajuda a ilustrar como poder econômico, política e narrativa pública se entrelaçam.
A Havaianas pertence ao grupo empresarial controlado pela Família Moreira Salles, um dos clãs mais influentes do país. O nome costuma ser associado ao Itaú Unibanco, maior banco privado da América Latina, mas o alcance dos negócios vai muito além do setor financeiro. Um dos ativos mais estratégicos do grupo é a CBMM, responsável por cerca de 77 por cento do nióbio comercializado no mundo.

O nióbio é um mineral crítico para ligas metálicas avançadas, aplicações militares, indústria aeroespacial, geração de energia e tecnologias de ponta. Países como os Estados Unidos são altamente dependentes do fornecimento brasileiro, o que coloca o Brasil em posição central nesse mercado. A CBMM, sozinha, registra lucros anuais próximos de R$5 bilhões, um valor que supera em muitas vezes o resultado de marcas populares do mesmo grupo.
Nesse contexto, a Havaianas aparece como um ativo de visibilidade, não como o principal motor financeiro. Avaliada em torno de R$7,5 bilhões na bolsa e com lucro anual estimado em cerca de R$300 milhões, a marca representa algo próximo de 0,3 por cento da fortuna total da família. Em termos práticos, um boicote que cause prejuízo de algumas centenas de milhões de reais tem impacto limitado para quem opera em outra escala de poder.

É nesse ponto que entra a leitura estratégica. Manter uma relação estável com o governo brasileiro é fundamental para negociações internacionais envolvendo o nióbio, especialmente com parceiros estratégicos. Qualquer tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos pode travar contratos bilionários, afetando diretamente o negócio mais lucrativo do grupo. Nesse cenário, o custo de desgaste de uma marca de consumo pode ser visto como um preço aceitável para proteger interesses muito maiores.
A visibilidade cultural também desempenha papel relevante. O cineasta Walter Salles, membro da família, tem prestígio internacional. Produções associadas ao grupo, inclusive projetos com grande reconhecimento artístico, ajudam a construir capital simbólico. O apoio a obras e artistas, como a atriz Fernanda Torres, frequentemente citado em debates públicos, reforça essa presença em espaços de influência cultural e política.
Críticos apontam ainda uma continuidade histórica de adaptação ao poder. O patriarca da família apoiou o regime militar instaurado em 1964. Décadas depois, integrantes da geração seguinte produziram filmes críticos à ditadura, alcançando reconhecimento internacional. Para muitos analistas, isso não é contradição, mas demonstração de pragmatismo. A capacidade de dialogar com diferentes contextos políticos, sem perder espaço na mesa de decisões, é vista como um diferencial central.
Dentro dessa lógica, dificilmente se fala em erro de marketing. O que parece falha para o público pode ser, internamente, cálculo de risco. Aceitar perdas pontuais na Havaianas para preservar a estabilidade de um negócio que rende bilhões por ano resulta em uma relação custo-benefício extremamente favorável. Em termos financeiros, trata-se de proteger fluxos de caixa estratégicos, mesmo que isso implique desgaste de imagem em um segmento específico.
Enquanto parte da opinião pública reage a símbolos visíveis, como um produto de consumo, grandes grupos econômicos operam em outra camada. Decisões são tomadas considerando geopolítica, regulação, diplomacia e acesso a informações que não chegam ao cidadão comum. O verdadeiro diferencial não está apenas no produto, no marketing ou no discurso meritocrático, mas no acesso às mesas onde acordos estruturais são definidos.
A reflexão final é direta. Antes de reagir a narrativas que viralizam, vale observar quem ganha, o que está em jogo e por que determinados temas surgem em momentos específicos. Em disputas de poder, quase nunca existe ingenuidade. O que existe é estratégia, timing e informação privilegiada. E a pergunta que permanece é simples, mas incômoda. Em qual mesa cada um está sentado enquanto os grandes acordos são fechados.