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Pai desvia R$ 113 mil das doações do filho, gasta no Tigrinho e acaba preso

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Em Murici, município localizado na zona da mata de Alagoas, uma história marcada por comoção, solidariedade e esperança acabou se transformando em um dos casos mais chocantes do início do ano no estado. Um pai foi preso após ser acusado de desviar cerca de R$ 113 mil arrecadados em campanhas solidárias destinadas ao tratamento do próprio filho, um bebê que perdeu braços e pernas após graves complicações de saúde.

O menino, hoje com pouco mais de um ano de idade, foi internado ainda nos primeiros meses de vida com um quadro severo de pneumonia bacteriana. A infecção evoluiu rapidamente para uma sepse generalizada, comprometendo a circulação sanguínea e levando à necrose dos membros. Diante da gravidade do quadro, a equipe médica precisou realizar amputações para salvar a vida da criança. Desde então, o bebê passou a depender de tratamentos contínuos, reabilitação intensiva e da futura adaptação a próteses.

Sensibilizados com a situação, familiares, amigos e moradores da região organizaram uma grande mobilização. Rifas, bingos, doações via redes sociais e transferências bancárias foram promovidos com o objetivo de custear medicamentos, exames, deslocamentos para centros especializados e, principalmente, as próteses que permitiriam à criança ter melhores condições de desenvolvimento no futuro. Em poucos meses, a campanha conseguiu arrecadar aproximadamente R$ 113 mil.

A administração dos recursos ficou sob responsabilidade do pai da criança, já que a mãe acompanhava o filho em internações frequentes e tratamentos fora do município. A conta bancária teria sido aberta em nome do bebê, com a finalidade exclusiva de receber as doações e viabilizar os cuidados médicos.

O caso começou a levantar suspeitas quando a mãe tentou utilizar parte do dinheiro para pagar exames e consultas e percebeu que o saldo disponível era irrisório. Ao solicitar extratos bancários, descobriu que praticamente toda a quantia havia sido retirada ao longo dos meses, restando pouco mais de R$ 300 na conta. Questionado, o pai inicialmente apresentou versões contraditórias, até que a situação chegou ao conhecimento das autoridades.

As investigações conduzidas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de Alagoas apontaram que os recursos foram utilizados em gastos pessoais, incluindo apostas em jogos de azar online, pagamentos de aluguel, despesas supérfluas e consumo de entorpecentes. Parte significativa do dinheiro foi direcionada ao chamado “Tigrinho”, um jogo virtual de apostas que se popularizou nos últimos meses e já é alvo de diversas apurações em todo o país.

Diante das evidências, a Justiça decretou a prisão preventiva do pai, que foi detido em cumprimento a mandado judicial. Ele deve responder por crimes como furto qualificado, estelionato contra pessoa em condição de vulnerabilidade e abandono material. Caso seja condenado, as penas podem ultrapassar dez anos de reclusão.

A mãe da criança prestou depoimento emocionado, relatando surpresa, indignação e profunda decepção com a atitude do companheiro. Segundo ela, o dinheiro era a única esperança de garantir melhores condições de vida ao filho, que precisará de acompanhamento médico prolongado, fisioterapia diária e próteses de alto custo ao longo da infância e da adolescência.

Entidades assistenciais e moradores que participaram das campanhas também manifestaram revolta. Muitos afirmaram sentir-se traídos, já que contribuíram acreditando estar ajudando diretamente uma criança em situação extrema. Algumas organizações já estudam novas formas de arrecadação, desta vez com controle mais rigoroso e supervisão institucional, para tentar recompor parte dos valores e garantir a continuidade do tratamento do menino.

Atualmente, a criança segue sob acompanhamento médico em hospitais de referência, com quadro clínico estável. Especialistas afirmam que, apesar das limitações físicas, com reabilitação adequada e suporte psicológico, é possível que o menino desenvolva autonomia progressiva ao longo dos anos.

O caso reacende o debate sobre a fiscalização de campanhas solidárias, o uso responsável de doações e os riscos associados ao vício em jogos de azar, especialmente quando envolve recursos destinados a finalidades humanitárias. Para as autoridades, a investigação segue em andamento com o objetivo de recuperar parte do dinheiro e garantir que ele seja efetivamente utilizado no tratamento da criança.

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