A Santa Sé confirmou a saída de Dom Emanuel Hana Shaleta do comando da Eparquia de São Pedro Apóstolo dos Caldeus, situada em San Diego, no estado norte americano da Califórnia, após a aceitação formal de sua renúncia pelo papa Leão XIV. A decisão foi comunicada por meio de boletim oficial divulgado pelo Vaticano na terça feira, 10 de março, e ocorre em meio a um caso judicial que envolve acusações financeiras graves contra o religioso.
A renúncia ocorreu no mesmo dia em que o bispo deixou a prisão após pagar uma fiança estipulada em 125 mil dólares pelas autoridades judiciais dos Estados Unidos. A liberação provisória permite que ele responda às acusações em liberdade enquanto o processo segue em tramitação no sistema judicial norte americano.
De acordo com a comunicação divulgada pela Santa Sé, o papa aceitou o pedido apresentado pelo religioso e determinou uma mudança imediata na administração da eparquia. Para garantir a continuidade da liderança pastoral da comunidade, foi designado um administrador apostólico para conduzir temporariamente a circunscrição eclesiástica até que um novo bispo seja escolhido.
A função de administrador apostólico será exercida por Dom Saad Hanna Sirop, arcebispo titular de Hirta, que assume a responsabilidade de administrar a diocese durante o período conhecido no direito canônico como sede vacante, quando a diocese permanece sem um bispo titular.
A decisão ocorre em um momento delicado para a comunidade caldeia da região de San Diego, formada em grande parte por imigrantes originários do Iraque e de outras áreas do Oriente Médio. A eparquia desempenha papel importante no acolhimento religioso, cultural e social dessas comunidades, que encontram na igreja um espaço de preservação de sua tradição litúrgica e identidade religiosa.
A crise envolvendo o antigo líder religioso ganhou grande repercussão após a divulgação de acusações relacionadas ao suposto desaparecimento de recursos financeiros pertencentes à instituição religiosa. Investigações conduzidas pelas autoridades apontam que aproximadamente 272 mil dólares teriam sido desviados de contas e receitas vinculadas à eparquia.
Segundo os promotores responsáveis pelo caso, os valores teriam sido retirados de receitas provenientes de propriedades administradas pela igreja. Esses imóveis, alugados para diferentes finalidades, gerariam rendimentos destinados às atividades pastorais e administrativas da instituição religiosa.
As acusações indicam que parte desses recursos teria sido direcionada para uso pessoal do bispo ao longo de um período ainda sob investigação. As autoridades também afirmam que as movimentações financeiras teriam sido ocultadas por meio da utilização de fundos ligados a programas de caridade mantidos pela própria igreja.
Com base nas investigações preliminares, o religioso passou a responder a um conjunto de acusações criminais que inclui oito acusações de peculato, crime caracterizado pelo desvio de recursos administrados por uma autoridade pública ou institucional, e outras oito acusações relacionadas a operações de lavagem de dinheiro.
O caso veio à tona após um funcionário da própria instituição apresentar às autoridades documentos financeiros que indicariam irregularidades nas contas da eparquia. O material entregue teria incluído registros bancários, contratos de aluguel e outros documentos que ajudaram a embasar a investigação.
As suspeitas começaram a ser analisadas oficialmente em agosto de 2025, quando as autoridades passaram a examinar detalhadamente as movimentações financeiras da diocese. Desde então, investigadores realizaram auditorias, coleta de documentos e entrevistas com pessoas ligadas à administração da instituição religiosa.
Outro aspecto que chamou a atenção durante o andamento das investigações envolve acusações relacionadas à vida pessoal do religioso. De acordo com informações que surgiram durante o processo, ele teria frequentado com regularidade estabelecimentos de entretenimento adulto localizados na cidade de Tijuana, no México.
Entre os locais citados nas investigações aparece um conhecido estabelecimento situado na zona norte da cidade, região próxima à fronteira com os Estados Unidos e frequentemente associada ao turismo noturno. Segundo os relatos apresentados no processo, o bispo teria visitado o local diversas vezes.
As autoridades também investigam possíveis deslocamentos realizados entre San Diego e a cidade mexicana durante o período em que as movimentações financeiras suspeitas ocorreram.
A prisão do religioso aconteceu no dia 6 de março no aeroporto internacional de San Diego. Segundo as autoridades, ele se preparava para embarcar em um voo com destino à Alemanha quando foi abordado por agentes responsáveis pela investigação.
Durante a abordagem realizada no terminal aeroportuário, os agentes encontraram mais de 9 mil dólares em dinheiro em sua bagagem. O valor apreendido passou a integrar os elementos analisados no processo judicial que apura as acusações.
Após ser detido, o bispo foi conduzido às autoridades judiciais e posteriormente apresentado em audiência preliminar. Durante a sessão realizada no dia 9 de março, o religioso declarou oficialmente que se considera inocente de todas as acusações apresentadas contra ele.
A defesa argumenta que as movimentações financeiras teriam explicações administrativas e que os valores mencionados no processo não configurariam desvio de recursos. Os advogados também sustentam que as acusações são baseadas em interpretações equivocadas de registros contábeis da instituição.
Enquanto o processo judicial segue em andamento, a Santa Sé decidiu agir rapidamente para evitar impactos institucionais maiores na comunidade religiosa local. A aceitação da renúncia e a nomeação de um administrador temporário fazem parte do procedimento adotado pela Igreja Católica em situações de crise envolvendo autoridades eclesiásticas.
Dom Emanuel Hana Shaleta nasceu no Iraque e iniciou sua trajetória religiosa ainda jovem dentro da tradição da Igreja Católica Caldeia, uma das igrejas orientais em comunhão com Roma.
Ele foi ordenado sacerdote em 1984 pelo papa João Paulo II durante cerimônia realizada em Roma. Ao longo dos anos seguintes, exerceu diversas funções pastorais em comunidades caldeias estabelecidas na América do Norte.
Durante sua carreira eclesiástica, trabalhou em paróquias localizadas em Detroit, nos Estados Unidos, e também atuou em comunidades religiosas no Canadá. Sua experiência pastoral junto à diáspora iraquiana contribuiu para que fosse escolhido para assumir posições de maior responsabilidade dentro da igreja.
Em 2017, foi nomeado bispo da Eparquia de São Pedro Apóstolo em San Diego durante o pontificado do papa Francisco. A nomeação marcou uma nova etapa na organização pastoral da comunidade caldeia na região.
A eparquia atende milhares de fiéis e exerce papel importante no apoio espiritual e social a imigrantes que deixaram o Oriente Médio em busca de segurança e estabilidade nos Estados Unidos.
Diante da atual crise, líderes da comunidade religiosa e membros da igreja acompanham com atenção os desdobramentos do processo judicial. Enquanto isso, a administração da eparquia permanece sob responsabilidade provisória do administrador apostólico nomeado pelo Vaticano.
A expectativa dentro da igreja é que as investigações avancem nas próximas semanas e que a situação seja esclarecida judicialmente, ao mesmo tempo em que a comunidade busca preservar suas atividades religiosas e pastorais.
