Pesquisas recentes têm aprofundado a compreensão sobre como a microbiota intestinal pode se relacionar com condições neuropsiquiátricas que afetam crianças e adolescentes. Estudos que analisam o Transtorno do Espectro Autista TEA, o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade TDAH e a Anorexia Nervosa mostram que esses grupos frequentemente apresentam padrões específicos de desequilíbrio no ecossistema microbiano do intestino, um ambiente composto por trilhões de microrganismos essenciais ao funcionamento do organismo.
Os pesquisadores observaram que jovens com esses diagnósticos tendem a apresentar redução na diversidade microbiana, um detalhe importante porque a variedade de espécies costuma estar ligada a um sistema digestivo mais estável e saudável. Também foram identificadas mudanças na proporção entre espécies consideradas fundamentais para a saúde intestinal, especialmente entre os filos Bacteroidetes e Firmicutes, que desempenham funções relacionadas à digestão, ao metabolismo e ao equilíbrio energético.

Outro ponto recorrente é o aumento de microrganismos associados a processos inflamatórios, algo que pode afetar tanto o intestino quanto a comunicação entre o intestino e o cérebro. Em paralelo, algumas espécies benéficas aparecem em menor quantidade, como Bifidobacterium e Faecalibacterium, reconhecidas por sua atuação anti-inflamatória e pelo suporte que oferecem à integridade da barreira intestinal.
Embora as descobertas sejam amplas e consistentes, os cientistas reforçam que os estudos demonstram apenas associação. Não há evidência de que o desequilíbrio da microbiota seja responsável pelo surgimento do autismo, do TDAH ou da anorexia. Essas condições apresentam origens complexas, que envolvem genética, ambiente, desenvolvimento neurológico, comportamento e fatores imunológicos.
A relevância da microbiota emerge porque ela participa de processos fundamentais do organismo. Ela influencia o metabolismo, modula a resposta imune e produz sinais bioquímicos que atuam no sistema nervoso central. A comunicação entre intestino e cérebro se tornou uma das áreas mais dinâmicas da ciência atual, e o interesse em compreender como essas interações podem contribuir para sintomas comportamentais ou metabólicos cresce rapidamente.
Apesar do avanço das pesquisas, os especialistas afirmam que ainda há muitas perguntas em aberto. Para alcançar conclusões mais sólidas, serão necessários estudos com amostras maiores, análise detalhada da dieta dos participantes, acompanhamento prolongado e métodos mais precisos de identificação microbiana. O objetivo é entender de forma mais clara como essas alterações surgem, por que aparecem em determinados grupos e como esse conhecimento pode ser aplicado na prática clínica no futuro.
Fonte:
Soltysova, M. et al.
Gut microbiota in children and adolescents with autism, ADHD and anorexia nervosa, and its link to the levels of satiety hormones
Neuroscience, 2025
DOI: 10.1016/j.neuroscience.2025.08.020