Se você observar com atenção as representações da Imaculada Conceição, perceberá que Maria aparece quase sempre pisando uma serpente com o calcanhar. Esse detalhe não é decorativo, ele carrega um dos símbolos teológicos mais antigos da fé cristã. A imagem remete diretamente à primeira profecia registrada nas Escrituras, presente em Gênesis 3:15, quando, após a queda de Adão e Eva, Deus declara à serpente que haveria inimizade entre ela e a Mulher, entre suas descendências, e que a cabeça da serpente seria esmagada enquanto o calcanhar da Mulher seria ferido.
Esse versículo é conhecido como Protoevangelho, a primeira notícia da futura redenção. Para a tradição cristã, a “Mulher” anunciada é a figura da Imaculada Conceição, aquela que foi preservada do pecado original para estar plenamente apta a participar da missão do Redentor. Na leitura patrística e teológica, Maria aparece como contraponto perfeito de Eva, já que a história da salvação é apresentada como um grande movimento de restauração que desfaz a ruptura iniciada no Éden.

São Irineu, um dos primeiros teólogos da Igreja, descreve essa relação de modo profundo ao afirmar que a obediência de Cristo na cruz reverteu a desobediência que ocorreu no Éden, e que a boa nova anunciada pelo anjo a Maria reescreveu a história com uma nova resposta, humilde e fiel, que anulou a antiga mentira que enganou Eva. A queda entrou no mundo por meio de uma escolha de desobediência, a redenção entrou por um ato de obediência.
Nesse cenário, Maria não é apenas testemunha, ela é participante ativa. Sua presença na história da salvação se torna ainda mais evidente nos escritos de santos como Afonso de Ligório. Em As Glórias de Maria, ele afirma que a humildade da Mãe de Jesus venceu o orgulho do demônio, e que sua fidelidade permitiu a entrada do Messias no mundo. Há debates teológicos sobre quem exatamente esmaga a serpente, se Cristo diretamente ou Maria por participação. No entanto, as tradições espirituais convergem ao afirmar que a vitória é uma só, vivida pelo Filho e partilhada com a Mãe, já que ambos atuam unidos no plano divino.
Por causa dessa vitória, Maria recebe o título de Terror dos Demônios. Não por força própria, mas pela graça que a uniu de modo singular à obra do Salvador. Pela cruz de Cristo e pelo sim de Maria, a serpente é simbolicamente derrotada, e a humanidade recebe o anúncio de que a desobediência de Eva não é a palavra final.
A imagem de Maria esmagando a serpente continua atravessando séculos como um sinal de esperança. Ela representa a certeza de que o mal não tem a última palavra e de que a promessa feita no início da história humana encontrou cumprimento real. A Mulher que pisa a serpente permanece como símbolo de fé, redenção e vitória espiritual.