O Bulletin of the Atomic Scientists divulgou nesta terça-feira, dia 27, uma nova atualização do Relógio do Juízo Final, símbolo mundial que avalia o grau de ameaça à sobrevivência da humanidade. Pela primeira vez desde a criação do projeto, o marcador passou a indicar 85 segundos para a meia-noite, estabelecendo o ponto mais crítico já registrado em quase 80 anos de acompanhamento.
A marca anterior, anunciada no ano passado, apontava 89 segundos para a meia-noite e já representava o cenário mais alarmante desde 1947, quando o relógio foi criado por cientistas envolvidos no desenvolvimento das primeiras armas nucleares. Com a nova redução, os especialistas sinalizam que os riscos globais aumentaram de forma significativa em um curto intervalo de tempo.
O Relógio do Juízo Final não tem função de prever eventos específicos, mas atua como um instrumento simbólico que traduz, em segundos, o nível de ameaça percebido pela comunidade científica internacional. Quanto mais próximo da meia-noite, maior é a probabilidade de uma crise global de grandes proporções, associada a conflitos nucleares, colapso ambiental ou falhas tecnológicas de impacto irreversível.
A decisão sobre o novo horário foi tomada por um conselho composto por cientistas, especialistas em segurança internacional e representantes da sociedade civil. Entre os responsáveis estão Daniel Holtz, Steve Fetter, Inez Fung, Asha M. George, John B. Wolfstal, Alexandra Bell e Maria Ressa. O grupo analisou dados geopolíticos, ambientais e tecnológicos antes de definir a nova posição dos ponteiros.
Entre os principais fatores que influenciaram a atualização estão a intensificação das tensões entre potências com arsenais nucleares, o prolongamento de conflitos armados com potencial de escalada internacional e o enfraquecimento de tratados de controle de armas. Segundo os cientistas, o risco de uso acidental ou deliberado de armamento nuclear voltou a crescer em razão da deterioração das relações diplomáticas em diversas regiões do mundo.
As mudanças climáticas também tiveram peso relevante na avaliação. O aumento da frequência de eventos extremos, a dificuldade de cumprir metas de redução de emissões e a lentidão na transição para fontes de energia mais limpas foram apontados como sinais de que o planeta se aproxima de pontos de não retorno ambiental. Para o conselho, a crise climática deixou de ser uma ameaça futura e passou a representar um perigo imediato.
Outro elemento considerado foi o avanço acelerado de tecnologias emergentes, como inteligência artificial, biotecnologia e sistemas autônomos de defesa. A ausência de regras globais claras para o uso dessas ferramentas, aliada ao seu potencial de causar danos em larga escala, elevou o nível de preocupação dos especialistas.
Os responsáveis pelo boletim ressaltaram que o relógio não representa um destino inevitável. A marca de 85 segundos serve como um alerta máximo para governos, líderes políticos e sociedade, indicando a necessidade urgente de ações coordenadas. Entre as medidas consideradas essenciais estão a retomada de negociações de desarmamento, o fortalecimento de acordos internacionais, investimentos mais robustos em políticas ambientais e a criação de normas globais para regular novas tecnologias.
Desde sua criação, o Relógio do Juízo Final já avançou e recuou diversas vezes, refletindo momentos de maior ou menor estabilidade mundial. O ponto mais distante da meia-noite ocorreu em 1991, com 17 minutos de margem, após o fim da Guerra Fria. O atual cenário, porém, é descrito como um dos mais complexos da história moderna, marcado por múltiplas crises simultâneas.
Para os cientistas, o principal objetivo da iniciativa continua sendo despertar a consciência coletiva sobre os riscos criados pela própria humanidade. O relógio não mede o tempo real, mas simboliza escolhas políticas, decisões científicas e comportamentos sociais que podem determinar o futuro das próximas gerações.
Fonte: Bulletin of the Atomic Scientists
