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Telescópio MeerKAT capta primeiro sinal de rádio de objeto interestelar 3IATLAS e intriga astrônomos

Ciência e Tecnologia

Astrônomos do mundo inteiro estão voltando sua atenção para o sul da África após uma descoberta que pode redefinir o estudo de objetos interestelares. O radiotelescópio MeerKAT, localizado no deserto do Karoo, detectou em 24 de outubro de 2025 um sinal de rádio incomum, com frequência central de 1,66 GHz, proveniente do objeto interestelar designado 3IATLAS.

Essa é a primeira vez que um sinal de rádio claro e consistente é captado de um corpo que veio de fora do Sistema Solar. As medições do MeerKAT revelaram duas linhas de absorção distintas, em 1,665 e 1,667 GHz, correspondentes à transição de radicais hidroxila (OH). Esses radicais são moléculas simples, mas fundamentais, frequentemente associadas a processos de sublimação de gelo e atividade cometária.

De acordo com o relatório preliminar do consórcio internacional de pesquisa, o sinal foi registrado quando o 3IATLAS cruzava o periélio, seu ponto de maior aproximação com o Sol. Durante esse momento, o telescópio observou variações sutis na intensidade e na largura das linhas espectrais, sugerindo que o objeto liberava moléculas de OH sob aquecimento térmico, a uma temperatura estimada em torno de 230 kelvins.

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A equipe mediu um deslocamento Doppler de aproximadamente -15,6 km/s, valor compatível com o movimento relativo entre o objeto e a Terra naquele instante. Essa velocidade reforça a hipótese de que o sinal não tem origem instrumental nem terrestre. A análise indica que a absorção observada resulta da interação entre a radiação solar refletida e a fina atmosfera de partículas que circunda o 3IATLAS.

A descoberta tem um peso especial porque sucede várias tentativas frustradas de detecção de emissão de rádio em objetos interestelares anteriores, como ‘Oumuamua (1I/2017 U1) e Borisov (2I/2019 Q4). Ambos despertaram enorme interesse, mas nunca apresentaram evidências diretas de atividade eletromagnética mensurável. O 3IATLAS, portanto, inaugura uma nova era de observação, mostrando que objetos vindos de outras estrelas podem, de fato, interagir com o ambiente solar de forma detectável por rádio.

Curiosamente, o evento ocorre pouco tempo após o fim da conjunção solar do 3IATLAS, fase em que o objeto fica alinhado com o Sol e, portanto, invisível aos telescópios terrestres. Essa coincidência temporal fortalece o entusiasmo da comunidade científica, que agora busca compreender se o sinal foi resultado de um fenômeno passageiro ou se poderá ser reproduzido em futuras observações.

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O astrofísico Avi Loeb, de Harvard, já havia proposto em artigos anteriores que radiotelescópios sensíveis como o MeerKAT e o futuro SKA deveriam monitorar objetos interestelares em busca de assinaturas não naturais ou incomuns. Ele sugeriu ainda que essas buscas se concentrassem em direções próximas à do lendário “Wow! Signal”, captado em 1977 pelo radiotelescópio Big Ear, em Ohio. Coincidentemente, a trajetória do 3IATLAS passa muito próxima dessa mesma região do céu, um detalhe que reacendeu debates e especulações entre especialistas e entusiastas da astrobiologia.

As próximas etapas incluem observações coordenadas com outros instrumentos, entre eles o observatório ALMA, no Chile, e o radiotelescópio FAST, na China. Além disso, a NASA planeja um monitoramento remoto do 3IATLAS através dos sensores da sonda Juno, atualmente em órbita de Júpiter. Essa campanha está prevista para março de 2026 e poderá fornecer dados cruciais sobre o comportamento espectral do objeto em diferentes ângulos e distâncias.

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Se confirmada, essa detecção representará um marco científico comparável ao da descoberta do primeiro pulsar ou do primeiro exoplaneta. Mais do que uma simples curiosidade astronômica, o sinal de 1,66 GHz do 3IATLAS pode ajudar a compreender a composição química e a origem de materiais interestelares, além de abrir caminho para investigações sobre possíveis assinaturas tecnológicas em objetos que cruzam o Sistema Solar vindos de outras estrelas.

Em um universo cheio de mistérios, o eco distante captado pelo MeerKAT é um lembrete poderoso de que ainda estamos apenas começando a decifrar as vozes que ressoam entre as estrelas.

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