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O Pedido que Parou o Resgate: Idosa Sobrevive 90 Horas Sob Escombros e Emociona o Mundo

By Estagiário
4 de julho de 2026 7 Min Read
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Marlene Santana, de 69 anos, resistiu quase quatro dias presa na cozinha destruída e, ao ser salva, fez um pedido inusitado

A idosa permaneceu imóvel por horas a fio, espremida entre uma geladeira tombada e uma viga de concreto que estancou a centímetros de sua cabeça. O espaço onde sobreviveu media pouco mais de um metro de altura por sessenta centímetros de largura. Era uma fresta no coração da cozinha, preenchida pelo cheiro de gás escapando lentamente de um botijão partido e pelo odor adocicado de frutas que apodreciam sobre a bancada destruída. Marlene Santana, uma costureira aposentada de 69 anos, transformou aquele cubículo involuntário em seu universo de resistência durante os quase quatro dias em que o mundo acreditou que ela já não existia mais.

O colapso da edificação ocorreu às onze horas e quarenta e sete minutos da manhã de quarta-feira, quando o segundo e mais violento dos tremores atingiu a região costeira de La Guaira. A construção, erguida nos anos setenta sobre um terreno inclinado próximo ao Morro de Macuto, não suportou a oscilação sísmica e desabou em camadas sucessivas, como um castelo de cartas esmagado por uma mão invisível. Marlene estava no andar térreo, preparando o almoço, quando o chão ondulou sob seus pés e o teto desceu sobre ela em questão de segundos. A panela de pressão que aquecia o feijão foi encontrada pelos socorristas a quase quinze metros do ponto original, arremessada pela força do desmoronamento.

Durante as primeiras vinte e quatro horas, Marlene permaneceu em um estado de consciência intermitente. A escuridão era absoluta, quebrada apenas por finíssimos feixes de luz que penetravam pelas frestas do entulho quando o sol atingia determinado ângulo. A aposentada utilizou esses breves momentos de claridade para avaliar os danos ao próprio corpo: um corte profundo na panturrilha direita, escoriações nas costas provocadas pelo atrito constante com o reboco áspero e uma dor latejante no antebraço esquerdo que sugeria uma fratura. Com a lucidez de quem passou a vida inteira resolvendo problemas domésticos com parcimônia, ela rasgou uma tira da própria blusa e improvisou um torniquete para estancar o sangramento da perna.

A hidratação, elemento mais crítico para sua sobrevivência prolongada, veio de uma fonte improvável. O filtro de barro que ficava sobre a pia da cozinha havia se partido ao meio, mas a parte inferior, que armazenava água filtrada, permaneceu milagrosamente intacta e ao alcance de sua mão direita. Marlene calculou que dispunha de aproximadamente dois litros de água. Com a disciplina de quem enfrentou crises econômicas e racionamentos ao longo da vida, estabeleceu um rigoroso sistema de goles mínimos, espaçados por intervalos que ela marcava cantarolando mentalmente antigas canções de Rocío Dúrcal, sua cantora preferida. Cada música completa representava aproximadamente três minutos. Ela se permitia um gole a cada vinte canções.

O isolamento acústico era igualmente torturante. Marlene ouvia, abafados e distantes, os sons do mundo em colapso do lado de fora: sirenes, gritos, motores de retroescavadeiras, cães farejadores. Em determinados momentos, o barulho de novas estruturas cedendo fazia o chão tremer novamente, e ela encolhia o corpo, temendo que a laje que a protegia finalmente cedesse. Gritou até perder a voz nas primeiras horas, mas a espessura dos destroços e o ruído ambiente das operações de resgate tornavam seus chamados inaudíveis. Na noite do segundo dia, quando o silêncio se instalou sobre o bairro, Marlene tomou a decisão que provavelmente salvou sua vida: parou de gritar e passou a bater ritmicamente com um pedaço de azulejo contra a viga de ferro que sustentava o que restava da estrutura.

Esse código morse improvisado, uma sequência de três batidas curtas seguidas de uma pausa, foi o sinal que, na manhã de domingo, um brigadista voluntário chamado Antonio Campos identificou durante uma varredura silenciosa da área. Campos, um ex-militar de 52 anos que integrava a equipe de resgate de Caracas, ordenou a paralisação imediata de todas as máquinas pesadas no raio de cem metros. Deitou-se sobre os escombros, encostou o ouvido em uma placa de concreto e ouviu, fracas mas inconfundíveis, as três batidas. A operação de escavação manual, meticulosa e angustiante, consumiu mais quatro horas até que a primeira fresta revelasse o rosto coberto de poeira de Marlene Santana.

O momento da extração foi documentado por um cinegrafista amador que acompanhava os trabalhos de resgate, e as imagens capturam a sequência exata em que a vítima, ainda com os olhos semicerrados pela claridade intensa após dias de escuridão, articula o pedido que desconcertou a todos. A voz saiu rouca, quase inaudível, mas carregada de uma convicção que beirava o solene. Ela não suplicou por água mineral, não manifestou desejo de ver um familiar, não perguntou que dia era. Disse, com todas as forças que lhe restavam, que queria uma Coca-Cola gelada. Um dos paramédicos correu até uma lanchonete próxima, cuja estrutura havia resistido parcialmente aos tremores, e retornou com uma lata que ainda conservava vestígios de refrigeração. Marlene bebeu o refrigerante em pequenos goles, com os olhos fechados, enquanto as lágrimas abriam caminho por entre a sujeira acumulada em seu rosto.

A transferência para o hospital de campanha ocorreu em uma maca improvisada, carregada por seis homens que se revezavam para não tropeçar nos montes de entulho que cobriam as ruas. Durante o trajeto, Marlene segurava a mão de uma enfermeira e repetia, como um mantra, os nomes de três pessoas: seu filho mais velho, José Gregorio, sua nora, Carmen Elena, e seu neto de doze anos, Miguel Ángel. Os três estavam na casa no momento do desabamento, no andar superior, e até a noite de domingo permaneciam oficialmente desaparecidos. A Defesa Civil de La Guaira mantém sigilo sobre os nomes das vítimas já localizadas sem vida, e a angústia dessa espera consome as horas de Marlene no leito hospitalar.

Os médicos que a atenderam classificaram seu quadro clínico como um caso extraordinário de resiliência fisiológica. Além da desidratação severa e da fratura no antebraço esquerdo, que exigiu imobilização com tala gessada, os exames revelaram uma leve insuficiência renal decorrente do tempo prolongado sem ingestão adequada de líquidos. A função renal, contudo, começou a se normalizar já nas primeiras horas de hidratação intravenosa. A equipe de psicologia do hospital iniciou um protocolo de contenção emocional, ciente de que o trauma do confinamento tende a se manifestar com maior intensidade após o desaparecimento da euforia inicial do resgate.

O caso de Marlene Santana atravessou fronteiras e alcançou repercussão internacional em questão de horas. O vídeo do resgate acumulou milhões de visualizações em plataformas digitais, e a singularidade do pedido da sobrevivente gerou debates que oscilaram entre o espanto bem-humorado e a reflexão sobre os mecanismos psicológicos de sobrevivência em situações extremas. Especialistas em comportamento humano ouvidos pela imprensa local explicaram que desejos aparentemente banais manifestados por vítimas de traumas severos frequentemente representam âncoras emocionais, símbolos de normalidade aos quais a mente se agarra para suportar o insuportável. A Coca-Cola, no caso de Marlene, não era apenas um refrigerante: era a lembrança dos almoços de domingo com a família reunida, das festas de aniversário dos netos, da rotina simples que os tremores haviam roubado em questão de segundos.

O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, foi uma das figuras públicas que comentaram o episódio em suas redes sociais. Sua mensagem, que mesclava admiração pela resistência humana e uma nota de ironia sobre o alcance global da cultura de consumo, foi compartilhada por milhares de usuários e inseriu o nome de Marlene Santana no noticiário político latino-americano. A publicação gerou reações diversas, desde elogios à sensibilidade do mandatário até críticas sobre a suposta espetacularização de uma tragédia que ainda contabiliza vítimas fatais e desaparecidos.

Enquanto o debate público segue seu curso imprevisível, Marlene Santana permanece em um quarto do hospital de campanha, conectada a monitores que registram seus sinais vitais. A janela gradeada do quarto permite ver, ao longe, a silhueta do Morro de Macuto e as luzes dos holofotes que iluminam a zona de buscas durante a noite. A idosa passa longos períodos com o olhar fixo nessa paisagem, como se tentasse enxergar, entre as máquinas e os uniformes alaranjados dos socorristas, algum sinal de que sua família também está voltando para casa. A assistente social que a acompanha relata que, nas poucas vezes em que Marlene quebra o silêncio, sua voz carrega uma mistura de gratidão e desespero contido. Ela agradece por estar viva, mas repete incansavelmente que não deseja sobreviver sozinha. O tempo, agora, corre mais uma vez contra ela.

FONTES CONSULTADAS

Defesa Civil do Estado de La Guaira – Boletins oficiais de ocorrências e relatórios de operações de busca e salvamento emitidos entre os dias do evento sísmico e a data do resgate.

Hospital de Campanha do Litoral Central – Prontuários médicos e declarações da equipe multiprofissional responsável pelo atendimento à paciente Marlene Santana.

Protección Civil Venezuela – Atualizações públicas sobre o andamento das operações de resgate nas áreas afetadas pelos tremores.

Equipes de Resgate Voluntário de Caracas – Depoimentos de brigadistas que participaram diretamente das ações de localização e extração de vítimas nos escombros de La Guaira.

Presidência da República de El Salvador – Publicações oficiais em perfis verificados de redes sociais do presidente Nayib Bukele.

Agência EFE – Cobertura jornalística internacional sobre desastres naturais na Venezuela.

El Nacional – Reportagens e coberturas locais acerca dos impactos dos terremotos na região costeira venezuelana.

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