A NASA procura quatro voluntários para passar um ano em uma missão simulada da Lua e de Marte, com início previsto para agosto de 2027
Quatro voluntários viverão isolados em um módulo que simula Marte e a Lua para ajudar a humanidade a conquistar o espaço profundo
A Agência Espacial dos Estados Unidos acaba de abrir o processo seletivo para um dos experimentos de isolamento mais longos e exigentes já concebidos pela instituição. Quatro pessoas serão escolhidas para viver trancadas dentro de uma estrutura que simula uma base extraterrestre durante 365 dias consecutivos, sem contato com o mundo exterior e sem qualquer possibilidade de interromper a experiência antes do prazo final. O início da missão está programado para agosto de 2027, podendo sofrer ajustes no cronograma conforme a conclusão das fases preparatórias.
O recrutamento busca cidadãos norte-americanos ou residentes permanentes que estejam dispostos a abandonar completamente sua rotina, suas famílias, seus empregos e qualquer forma de convívio social por um ano inteiro. A recompensa financeira existe, mas o valor jamais é revelado publicamente pela agência, que aposta no espírito científico e no senso de propósito como os verdadeiros motores da candidatura.
A instalação que abrigará os voluntários atende pelo nome de Human Exploration Research Analog, identificada pela sigla HERA, e fica situada dentro dos limites do Johnson Space Center, no Texas. O local não é um simples galpão adaptado. Trata-se de um módulo de três andares hermeticamente selado, onde cada centímetro quadrado foi planejado para reproduzir as limitações de uma nave em trânsito interplanetário ou de uma estação de superfície montada no solo de outro corpo celeste.
Dentro desse casulo tecnológico, a tripulação enfrentará uma sucessão de tarefas que imitam com fidelidade assustadora o cotidiano de uma missão real. Haverá simulações de caminhadas na Lua e em Marte, realizadas com equipamentos de realidade virtual que projetam paisagens extraterrestres diante dos olhos dos participantes enquanto eles se movimentam em esteiras especiais e manipulam ferramentas com luvas sensoriais. Haverá cultivo de vegetais em câmaras de crescimento controlado, operação de braços robóticos para coleta de amostras, reparos emergenciais em sistemas de ventilação e reciclagem de água, além de uma infinidade de experimentos biológicos e físicos cujos resultados serão transmitidos para equipes científicas do lado de fora.
O confinamento será absoluto. A comunicação com o centro de controle sofrerá atrasos crescentes ao longo das semanas, partindo de alguns segundos até alcançar mais de vinte minutos de latência em cada sentido, replicando o tempo que um sinal de rádio leva para viajar entre a Terra e as proximidades de Marte. Uma simples pergunta enviada ao suporte técnico poderá levar quase uma hora para ser respondida. Conversas espontâneas com familiares estarão fora de cogitação. Mensagens escritas substituirão qualquer forma de diálogo em tempo real, e mesmo assim passarão por filtros que simulam as restrições de largura de banda de uma transmissão interplanetária.
A alimentação será rigorosamente controlada. Os cardápios, pré-definidos e armazenados antes do fechamento da escotilha, são compostos majoritariamente por alimentos desidratados e termoestabilizados, semelhantes às rações consumidas a bordo da Estação Espacial Internacional. Nada entra e nada sai do módulo durante todo o ano. A água disponível para beber, cozinhar e tomar banho virá exclusivamente dos sistemas de reciclagem embarcados, que transformam a umidade do ar, o suor e até a urina em líquido potável novamente. A temperatura, a iluminação artificial e os ciclos de sono serão monitorados e, em alguns momentos, alterados propositalmente para estudar como o organismo e a mente reagem a perturbações controladas do ritmo circadiano.
Os requisitos para se candidatar são estreitos e eliminam a grande maioria dos interessados logo na primeira triagem. A faixa etária aceitável vai de 30 a 55 anos. A formação acadêmica mínima exigida é o mestrado completo em disciplinas do chamado eixo STEM, ciências, tecnologia, engenharia ou matemática, com pelo menos dois anos de atuação profissional comprovada após a titulação. Pilotos de aeronaves de alto desempenho que acumulem mais de mil horas de comando também se enquadram nos critérios, assim como indivíduos que tenham concluído programas de doutorado ou possuam experiência militar avançada. Todos os postulantes devem ser não fumantes e apresentar atestados de saúde física e mental considerados impecáveis pelos padrões rigorosos da medicina aeroespacial.
A fase de seleção será longa e desgastante. Exames clínicos minuciosos vasculharão o histórico médico de cada candidato. Testes de esforço cardiovascular, avaliações oftalmológicas, ressonâncias magnéticas e análises laboratoriais farão parte da rotina de triagem. Paralelamente, psicólogos especializados em dinâmica de grupo e psiquiatras com experiência em ambientes confinados aplicarão baterias de entrevistas individuais e exercícios coletivos, procurando sinais de agressividade passiva, intolerância à frustração, tendência ao isolamento social ou qualquer traço de personalidade que possa desestabilizar uma convivência forçada de doze meses entre quatro estranhos.
A razão de todo esse esforço reside na ambição de levar seres humanos até Marte na década de 2030. Antes que isso aconteça, a NASA precisa compreender, com precisão científica, o que ocorre no cérebro e no comportamento de pessoas submetidas a períodos extremos de confinamento, monotonia sensorial, distanciamento afetivo e pressão constante. As missões HERA funcionam como laboratórios vivos onde se testam protocolos de gerenciamento de conflitos, estratégias de manutenção do moral da tripulação, escalas de trabalho e descanso, e até mesmo a disposição física ideal dos móveis e equipamentos dentro de um espaço exíguo. Cada olhar, cada suspiro e cada interrupção de sono são registrados e transformados em dados que influenciarão diretamente o projeto das naves e das bases que um dia existirão em outros mundos.
Os interessados em fazer parte desse seleto grupo de cobaias de luxo já podem preencher os formulários eletrônicos oficiais. A expectativa da agência é concluir a montagem da tripulação titular e dos suplentes até meados de 2026, permitindo que os escolhidos passem por um período de ambientação e treinamento antes da contagem regressiva final, que culminará no trancamento definitivo da porta do módulo HERA em uma manhã de agosto de 2027. A partir daquele instante, o mundo exterior se tornará apenas uma memória distante, e a única realidade tangível será o zumbido constante dos ventiladores, a luz artificial que nunca se apaga e a certeza de que 365 dias separam aqueles quatro seres humanos do reencontro com o céu aberto da Terra.
Fontes:
NASA