Estátua gigante de 11 metros em homenagem ao diabo surge no Ceará
Monumento erguido em templo de Quimbanda na Taíba gera polêmica nacional e expõe feridas da intolerância religiosa.
A brisa salgada que vinha do oceano e o silêncio das ruas de areia, outrora pontuado apenas pelo canto de pássaros e pelo farfalhar das folhas de coqueiro, agora dividem espaço com uma silhueta imponente que se ergue contra o horizonte cearense. No distrito da Taíba, pertencente ao município de São Gonçalo do Amarante, na Região Metropolitana de Fortaleza, o que era um refúgio de sítios pacatos se transformou em palco de uma obra que desafia a discrição e provoca debates acalorados sobre fé, arte e tolerância. Trata-se de uma estátua de 11 metros de altura representando o Diabo, instalada no terreiro do Palácio Estrela Negra da Quimbanda, um templo religioso que completa quase três décadas de existência.
A inauguração do monumento ocorreu em uma cerimônia especial realizada no dia 25 de julho, data que marcou o 29º aniversário da casa religiosa comandada pela feiticeira Mãe Rainha das Trevas, como ela mesma se apresenta. A celebração reuniu fiéis e curiosos, todos atraídos pela grandiosidade da nova estrutura que, segundo a líder espiritual, exigiu um investimento superior a R$ 100 mil, retirados integralmente de seus recursos pessoais. “A verba foi toda tirada do meu próprio bolso. Eu fiz ela toda com dinheiro próprio, num local próprio, que é meu, porque aqui as terras são minhas, o terreno é meu”, enfatizou a sacerdotisa, ressaltando o caráter particular de todo o empreendimento.
Ao ser questionada sobre a magnitude da obra, Mãe Rainha das Trevas fez uma afirmação que rapidamente se espalhou pelas redes sociais e veículos de comunicação: a de que aquela seria a maior estátua do Diabo em todo o mundo. “Não existe outra estátua com essa dimensão. Eu procurei me informar”, garantiu, embora não exista qualquer registro oficial ou certificação internacional que valide tal comparação. O projeto arquitetônico foi elaborado por um engenheiro civil contratado para a tarefa, mas a feiticeira optou por não revelar o período exato de construção, mantendo certo mistério sobre os bastidores da empreitada. Quando perguntada sobre sua própria idade, a resposta foi igualmente enigmática: “É mistério”.
A figura esculpida remete a entidades conhecidas em diferentes tradições religiosas e culturais – Diabo, Lúcifer, Belzebu ou Satanás são alguns dos nomes pelos quais a força sobrenatural representada é chamada. Para a líder da Quimbanda, independentemente da nomenclatura, a essência espiritual é a mesma. O monumento está assentado dentro dos limites de uma propriedade privada, e não em logradouro público, o que, segundo a feiticeira, torna a questão uma questão de direito individual e liberdade de expressão religiosa. “Aqui foi feito tudo dentro da minha propriedade, não é em um local público. Essa propriedade é particular e eu pedi autorização para fazer uma construção dentro da minha propriedade”, explicou.
Do ponto de vista legal, a prefeitura de São Gonçalo do Amarante já se manifestou sobre a regularidade da edificação. Por meio da Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo, o poder público municipal informou que o templo religioso atendeu a todas as normas ambientais e urbanísticas exigidas. A licença para a construção só foi emitida após a anuência do Governo do Estado, através da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Mudança do Clima, uma vez que a Taíba está inserida na Área de Proteção Ambiental das Dunas do Litoral Oeste. A administração municipal reforçou seu compromisso com a legalidade dos atos e, principalmente, com o respeito irrestrito à liberdade de crença e de culto, princípios basilares do Estado laico brasileiro.
Apesar da regularidade documental, a imponência da estátua não passou imune a críticas e ataques. Com uma base de quase 800 mil seguidores no Instagram, Mãe Rainha das Trevas tem utilizado as plataformas digitais para divulgar sua fé e as atividades do palácio, mas também tem sido alvo de insultos e manifestações de intolerância religiosa. Em resposta às hostilidades, a sacerdotisa fez um apelo ao respeito mútuo, lembrando que o Brasil é um país de diversidade cultural e espiritual. “As pessoas têm que entender que o acreditar diferente do delas não pode ser tão julgado. Porque eu respeito tudo aquilo que é diferente do meu crer. E a única coisa que eu peço às pessoas é que elas respeitem também a minha fé”, declarou, em tom sereno, mas firme.
Historicamente, a trajetória de Mãe Rainha das Trevas já havia sido marcada por episódios de preconceito, especialmente quando ela mantinha a chamada “Casa dos Caixões” em Fortaleza, um espaço que antecedeu a atual sede na Taíba. Apesar das adversidades, a feiticeira demonstra confiança na segurança do monumento e acredita que a comunidade local respeitará o espaço sagrado. O Palácio Estrela Negra da Quimbanda realiza cerimônias abertas ao público, conhecidas como “giras”, que atraem entre 200 e 300 participantes por mês. Além das atividades rituais, o templo também desenvolve ações de cunho social, como a distribuição de toneladas de carne e brinquedos em datas festivas, uma tentativa de integrar a prática religiosa com o auxílio às comunidades carentes.
O culto praticado no local, a Quimbanda, é frequentemente envolto em equívocos e estigmas que remontam a séculos de demonização e desconhecimento. Diferentemente das religiões que possuem livros canônicos e escrituras formalizadas, a Quimbanda é essencialmente uma tradição de transmissão oral, centrada na evolução espiritual e na interação com entidades como exus e pombagiras, vistas como guardiãs e mensageiras. Especialistas na prática religiosa, como o sacerdote Barok, Tata N’ganga de Quimbanda brasileira, apontam que a visão popular que associa o culto ao “mal” é fruto de um processo histórico de marginalização e intolerância. “É um culto que, para muitos, é chamado de culto marginalizado, porque as pessoas têm uma certa visão da quimbanda, como se fosse um culto do mal”, afirmou o religioso, que complementa explicando que a reencarnação, dentro dessa cosmovisão, é vista como um ciclo a ser superado por meio do aprimoramento contínuo do espírito.
O surgimento da estátua de 11 metros na paisagem da Taíba, portanto, não é apenas um marco arquitetônico ou turístico. Ele representa um capítulo de uma luta mais ampla pelo reconhecimento e pela desestigmatização das religiões de matriz africana e afro-brasileiras. A obra, gigantesca e inegavelmente impactante, força a sociedade a olhar para um universo religioso que, embora presente no cotidiano de milhões de brasileiros, ainda é tratado com silêncio ou hostilidade em muitos círculos. A discussão ultrapassa os limites do município de São Gonçalo do Amarante e alcança uma dimensão nacional, revisitando o delicado equilíbrio entre o direito à livre expressão da fé e o dever do Estado de garantir que esse direito seja efetivo para todos, sem distinção.
Enquanto isso, moradores e turistas que passam pelas ruas de areia da Taíba agora se deparam com uma visão que não pede licença. O Diabo de concreto, com seus 11 metros de altura, observa o mar e desafia o observador a refletir sobre os limites da arte, da devoção e da convivência em uma sociedade plural. O que antes era apenas um ponto de pesca e descanso à beira-mar transformou-se, involuntariamente, em um palco para um dos debates mais sensíveis do Brasil contemporâneo: o direito de crer e de expressar essa crença, mesmo que ela se materialize em uma estátua que, para alguns, é ofensa, e para outros, é símbolo de resistência e identidade.