O Cientista que Decifrou o Universo e Desapareceu no Próprio Mistério que Afirmou Ter Resolvido
Jacobo Grinberg dedicou a vida a provar que a realidade é uma projeção da mente. Em dezembro de 1994, ele sumiu sem vestígios.
A manhã de 8 de dezembro de 1994 encontrou Jacobo Grinberg Zylberbaum diante de uma certeza que ele perseguia havia mais de vinte anos. O neurofisiologista mexicano de 48 anos, diretor do Laboratório de Psicofisiologia da Universidade Nacional Autônoma do México e fundador do Instituto Nacional para o Estudo da Consciência, comunicou a pessoas de seu círculo íntimo que havia completado a jornada intelectual mais ambiciosa de sua carreira. Ele declarou ter desvendado os mecanismos fundamentais que sustentam a realidade. Doze horas depois, o homem que publicara 54 livros sobre o cérebro, a percepção e as tradições xamânicas do México desapareceu sem deixar vestígios físicos, inaugurando um capítulo que desafia até hoje as fronteiras entre investigação criminal, especulação filosófica e mistério científico.
A Construção de um Cientista Fora do Centro
Jacobo Grinberg nasceu na Cidade do México em 1946, em uma família de ascendência judaica que valorizava a educação como pilar inegociável. Ele ingressou na Faculdade de Psicologia da Universidade Nacional Autônoma do México no início dos anos sessenta, mas desde cedo demonstrou uma insatisfação com os limites que a psicologia convencional impunha ao estudo da consciência. Enquanto seus colegas se dedicavam aos paradigmas behavioristas e psicanalíticos, Grinberg se interessava por perguntas que a academia da época considerava extravagantes. O que é a percepção? Onde termina o cérebro e começa o mundo exterior? Existe uma matriz que conecta todas as mentes?
Essas questões o levaram, em 1970, ao Centro de Pesquisas Cerebrais de Nova York, onde obteve o doutorado em Neurofisiologia com uma tese sobre os correlatos eletrofisiológicos da atenção seletiva. O treinamento em Nova York lhe deu acesso a tecnologias de ponta para a época, como a eletroencefalografia quantitativa e os primeiros sistemas de imageamento funcional. Mas foi no retorno ao México que Grinberg encontrou o contraponto perfeito para sua formação científica de alto rigor. Ele descobriu o xamanismo mexicano, um universo de práticas e conhecimentos que parecia dialogar diretamente com suas hipóteses mais ousadas sobre a natureza da mente.
O Encontro com Pachita e a Virada Etnográfica
Em meados da década de 1970, Grinberg foi apresentado a Bárbara Guerrero, conhecida popularmente como Pachita, uma curandeira que realizava intervenções cirúrgicas com as mãos nuas em um bairro da periferia da Cidade do México. Pachita incorporava a figura de Cuauhtémoc, o último imperador asteca, e operava pacientes sem anestesia, sem bisturis e sem qualquer protocolo de assepsia reconhecido pela medicina ocidental. Havia relatos de órgãos materializados, tecidos regenerados e curas instantâneas. Para um neurofisiologista com doutorado nos Estados Unidos, o natural seria o ceticismo metodológico ou o desprezo acadêmico. Grinberg fez o oposto. Ele se aproximou de Pachita com instrumentos de medição, câmeras e uma equipe de auxiliares de pesquisa.
Durante mais de dois anos, o cientista documentou centenas de procedimentos. Ele registrou depoimentos de pacientes, mediu variáveis fisiológicas, analisou amostras de tecidos que surgiam durante as operações e submeteu todo o material a um escrutínio que misturava o rigor laboratorial com uma abertura epistemológica rara no meio universitário. O resultado dessa investigação apareceu no livro Pachita, publicado em 1979, no qual Grinberg afirmava ter testemunhado fenômenos que desafiavam completamente a compreensão ocidental de espaço, tempo e causalidade. Ele não usava a palavra milagre, termo que considerava impreciso e carregado de conotações religiosas. Preferia falar em manipulação da matriz energética, um conceito que se tornaria a pedra angular de toda a sua obra posterior.
A Teoria Sintérgica como Explicação do Real
A experiência com Pachita e com outros xamãs mexicanos catalisou em Grinberg a formulação da Teoria Sintérgica, apresentada de forma completa em 1988. O termo sintérgica resultava da fusão de síntese e energia, e apontava para um processo de convergência entre a atividade cerebral e um campo informacional de alcance cósmico. Para o neurofisiologista, o universo não era composto fundamentalmente de matéria ou energia no sentido físico tradicional, mas sim de um substrato informacional hipercomplexo que ele chamava de matriz energética ou campo sintérgico. Esse campo conteria todos os padrões possíveis de realidade, todas as configurações de espaço e tempo, todas as formas de vida e consciência. O cérebro humano, longe de ser um órgão que simplesmente reage a estímulos externos, funcionaria como um decodificador capaz de selecionar, dentro dessa matriz infinita, um recorte específico que experimentamos como realidade cotidiana.
A consequência mais radical da Teoria Sintérgica era que a realidade perceptível não existe independentemente da consciência que a percebe. Ela é construída, momento a momento, por um processo de interação ressonante entre o campo neuronal do cérebro e o campo informacional do cosmos. O que chamamos de mundo objetivo seria, nessa perspectiva, uma espécie de alucinação coletiva estabilizada por consenso, uma interface holográfica gerada pelo acoplamento entre mente e matriz. Grinberg insistia que sua teoria era falseável e que podia ser testada experimentalmente. Ele não se considerava um místico, mas um cientista que levava o método experimental até as últimas consequências.
Os Experimentos de Comunicação Direta entre Cérebros
Entre 1987 e 1993, Grinberg conduziu no Laboratório de Psicofisiologia da UNAM uma série de experimentos que desafiavam um dos pressupostos mais arraigados da neurociência convencional: o de que cada cérebro é uma unidade isolada, encapsulada no crânio e incapaz de se comunicar diretamente com outros cérebros sem a mediação dos sentidos. Ele colocava dois voluntários em salas separadas, blindadas eletromagneticamente, sem qualquer possibilidade de contato visual, auditivo ou tátil. Ambos eram conectados a eletroencefalogramas que registravam sua atividade elétrica cerebral em tempo real. Um dos sujeitos, chamado de emissor, recebia estímulos luminosos ou elétricos aleatórios. O outro, chamado de receptor, permanecia em repouso, sem receber estímulo algum.
Os resultados, publicados em periódicos como Physics Essays e no International Journal of Neuroscience, mostravam que, em uma proporção estatisticamente significativa de casos, o cérebro do receptor exibia padrões de atividade elétrica que se correlacionavam com os estímulos aplicados ao emissor. Grinberg chamou esse fenômeno de potencial transferido e o interpretou como evidência direta de que a consciência podia operar de forma não local, transcendendo as barreiras do espaço físico. Para ele, o cérebro não produzia a consciência, mas funcionava como uma antena que sintonizava e traduzia informações do campo sintérgico. Se duas mentes estavam sintonizadas na mesma faixa da matriz energética, a comunicação direta se tornava possível. Os experimentos foram replicados em condições controladas e, embora a comunidade científica internacional os tenha recebido com ceticismo, nunca houve uma refutação experimental conclusiva que invalidasse os dados obtidos pelo laboratório mexicano.
A Última Semana de Jacobo Grinberg
Os primeiros dias de dezembro de 1994 encontraram Grinberg em um estado de intensa atividade criativa. Ele havia se separado recentemente de sua segunda esposa e mantinha uma relação afetiva com Teresa Mendoza, psicóloga que colaborava com suas pesquisas. Testemunhas próximas relatariam depois que o cientista dormia pouco, alimentava-se de forma irregular e passava horas trancado em seu escritório doméstico, onde as pilhas de livros, artigos e fitas gravadas cresciam sobre a mesa de trabalho. Ele comentou com pelo menos três pessoas diferentes que estava prestes a amarrar todas as pontas soltas de sua investigação, que a Teoria Sintérgica estava recebendo uma formulação final e que o resultado desse esforço mudaria para sempre a compreensão humana sobre a realidade.
Na tarde do dia 7 de dezembro, Grinberg telefonou para um colega da Faculdade de Psicologia e mencionou que havia encontrado a demonstração matemática que faltava para validar o modelo do campo sintérgico. Ele não deu detalhes técnicos durante a conversa, mas sua voz carregava uma excitação que o interlocutor descreveu posteriormente como incomum, uma mistura de euforia contida com uma espécie de serenidade profunda. Na manhã seguinte, Grinberg encontrou Teresa Mendoza em um café próximo ao campus universitário. Foi nessa ocasião que ele pronunciou a frase que se tornaria célebre: havia desvendado os segredos do universo. Mendoza relatou que ele não parecia um homem exultante ou triunfante, mas alguém que carregava uma convicção tranquila, como se tivesse resolvido um problema matemático cuja solução era ao mesmo tempo simples e avassaladora.
O Relógio da Desaparição
O último registro confiável da presença física de Jacobo Grinberg data das 14 horas do dia 8 de dezembro de 1994. A partir desse momento, a cronologia se dissolve em silêncio. Ninguém o viu sair de casa. Nenhum vizinho notou movimentação incomum. Nenhuma câmera de segurança, recurso ainda escasso na Cidade do México daquela época, capturou sua imagem em deslocamento. Quando Teresa Mendoza tentou contatá-lo por telefone no início da noite, ninguém atendeu. Preocupada, ela foi até a residência do cientista e encontrou tudo em ordem: a porta trancada, as luzes acesas em alguns cômodos, o carro estacionado na garagem, os documentos pessoais sobre a cômoda do quarto. Apenas Jacobo Grinberg não estava lá.
A denúncia formal de desaparecimento foi registrada na Procuraduría General de Justicia del Distrito Federal no dia 10 de dezembro. Os investigadores encontraram um cenário desprovido de sinais de violência. Não havia sangue, objetos quebrados, marcas de arrombamento ou qualquer indício de luta corporal. As malas estavam no armário. As roupas, intactas. A agenda de compromissos para as semanas seguintes continuava sobre a escrivaninha, com anotações sobre reuniões acadêmicas e a organização de um congresso internacional sobre consciência que ele coordenaria em janeiro de 1995. O último extrato bancário não mostrava movimentações atípicas. O passaporte permanecia guardado. Grinberg simplesmente deixou de estar.
As Linhas de Investigação e Seus Becos sem Saída
A polícia mexicana trabalhou inicialmente com três hipóteses principais. A primeira apontava para crime passional. O relacionamento entre Grinberg e Teresa Mendoza foi vasculhado minuciosamente. Vizinhos foram interrogados, telefonemas rastreados, álibis confrontados. Mendoza cooperou integralmente com as autoridades e se submeteu a exames toxicológicos e psicológicos. Nada foi encontrado que a incriminasse. A segunda hipótese considerava sequestro com motivação econômica ou acadêmica. Grinberg vinha de uma família com posses, embora ele próprio levasse uma vida modesta. Investigou-se a possibilidade de que suas pesquisas tivessem despertado a cobiça de laboratórios farmacêuticos interessados em aplicações não convencionais da neurociência, mas essa linha também não produziu evidências concretas. A terceira hipótese oficial falava em desaparecimento voluntário, uma fuga planejada para recomeçar a vida em outro lugar, sob outra identidade. Essa possibilidade, contudo, esbarrava em um obstáculo lógico: Grinberg não levou consigo nada que permitisse uma existência autônoma. Nenhum dinheiro, nenhum documento, nenhuma muda de roupa.
Com o passar dos meses, a investigação formal foi perdendo fôlego. Em 1995, o caso foi arquivado sem conclusão. Nos anos seguintes, algumas reportagens investigativas tentaram reabrir o tema, aventando conexões com grupos esotéricos, disputas dentro da UNAM e até mesmo uma suposta relação de Grinberg com agências de inteligência mexicanas interessadas em aplicações militares de suas descobertas sobre comunicação não local. Nenhuma dessas pistas jamais se transformou em prova material.
A Interpretação Sintergica do Próprio Desaparecimento
Para os estudiosos da obra de Grinberg, o desaparecimento do cientista não pode ser compreendido apenas como um fato policial. Ele precisa ser lido também, e talvez principalmente, como um acontecimento que dialoga com os conceitos centrais da Teoria Sintérgica. Em seus escritos, Grinberg afirmava repetidamente que a realidade perceptível é um recorte arbitrário dentro de um campo infinito de possibilidades. O que chamamos de mundo material seria apenas uma das infinitas interfaces que a consciência humana pode ativar. Em pelo menos três livros, ele sugeriu que, em estados de expansão perceptiva, a consciência individual poderia se reintegrar ao campo sintérgico, dissolvendo temporária ou permanentemente a experiência de separação entre sujeito e objeto.
Grinberg não considerava essa possibilidade como uma crença metafísica, mas como uma consequência lógica de seu modelo. Se a mente e o campo informacional são aspectos de uma mesma realidade subjacente, então a barreira que separa o eu do universo é, ela própria, uma construção perceptual que pode ser desativada. Os xamãs que ele estudou durante anos seriam especialistas nessa desativação, indivíduos treinados para transitar entre diferentes interfaces da matriz sem se perder no processo. Pachita, segundo ele, não operava milagres, mas exercia uma competência sintérgica que lhe permitia reorganizar a realidade material a partir de níveis mais fundamentais da existência.
Nessa perspectiva, o desaparecimento de Grinberg adquire contornos que desafiam a lógica criminal. Ele pode ter sido a primeira pessoa a testar experimentalmente, e em si mesmo, a versão extrema da Teoria Sintérgica. A revelação que afirmou ter alcançado na manhã de 8 de dezembro não seria apenas uma descoberta intelectual, mas uma transformação no estado de consciência, uma reconfiguração tão radical de sua sintonia com o campo que o fez desaparecer da interface que chamamos de realidade consensual. Essa hipótese é obviamente impossível de provar nos termos da ciência convencional, mas também é impossível de descartar nos termos da própria teoria que Grinberg passou a vida construindo.
O Legado de uma Ausência
Trinta anos após o desaparecimento, a obra de Jacobo Grinberg continua a ser lida e debatida em círculos acadêmicos e fora deles. Seus livros foram traduzidos para vários idiomas. A Teoria Sintérgica encontrou interlocutores em campos tão diversos quanto a física quântica, as neurociências contemplativas, os estudos sobre a consciência e a filosofia da mente. Pesquisadores como o físico David Bohm, que propôs um modelo holográfico do universo, e o neurocientista Karl Pribram, que sugeriu que o cérebro opera como um holograma, são frequentemente citados ao lado de Grinberg, embora ele tenha desenvolvido seu pensamento de forma independente e com um acento muito particular na experiência xamânica.
O Laboratório de Psicofisiologia da UNAM foi desativado alguns anos após o desaparecimento do seu diretor. Parte do acervo de pesquisa, incluindo registros eletroencefalográficos e protocolos experimentais, foi perdida ou extraviada. O Instituto Nacional para o Estudo da Consciência fechou as portas. Ainda assim, novos grupos de pesquisa, no México e no exterior, têm se dedicado a retomar as hipóteses de Grinberg com instrumentos tecnológicos mais avançados. Os experimentos de comunicação direta entre cérebros, que ele realizou de forma pioneira, hoje encontram paralelos em estudos sobre ressonância neural e sincronização interpessoal conduzidos em universidades como Princeton, Harvard e a Universidade de Barcelona.
O que permanece sem resposta é a pergunta que persegue todo aquele que se debruça sobre essa história. O que aconteceu com Jacobo Grinberg Zylberbaum depois das duas horas da tarde de 8 de dezembro de 1994? A resposta oficial é o silêncio de um processo arquivado. A resposta sintérgica é que ele atravessou o limiar que separa a realidade consensual do campo informacional infinito. A resposta poética é que o cientista se tornou aquilo que estudava, desaparecendo no interior do segredo que afirmou ter desvendado. Nenhuma dessas respostas é completamente satisfatória. Talvez seja essa a natureza dos grandes mistérios: eles não existem para ser resolvidos, mas para manter acesa a inquietação de que o universo é muito mais estranho e vasto do que nossa percepção cotidiana nos permite imaginar.
Fontes
Grinberg, Jacobo. La teoría sintérgica. Ciudad de México: Instituto Nacional para el Estudio de la Conciencia, 1988.
Grinberg, Jacobo. Pachita: la curación milagrosa. Ciudad de México: Edamex, 1979.
Grinberg, Jacobo. El cerebro consciente. Ciudad de México: Trillas, 1979.
Grinberg, Jacobo. Los chamanes de México. Ciudad de México: UNAM, 1987.
Grinberg, Jacobo. La construcción de la realidad. Ciudad de México: INPEC, 1991.
Grinberg, Jacobo. “The Efecto Transferido en la comunicación humana”. International Journal of Neuroscience, vol. 46, 1989, pp. 77 85.
Procuraduría General de Justicia del Distrito Federal. Expediente de desaparición de Jacobo Grinberg Zylberbaum. Carpeta de investigación 3421/94, Ciudad de México, 1994.
Mendoza, Teresa. Declaraciones ante la Procuraduría General de Justicia del Distrito Federal. Diciembre de 1994. Arquivos da PGJDF.
Periódico La Jornada. Edições de 12 a 20 de dezembro de 1994. Hemeroteca Nacional, Ciudad de México.
Periódico Reforma. Edições de 11 a 18 de dezembro de 1994. Hemeroteca Nacional, Ciudad de México.
Cuéllar, Ida (diretora). El secreto del universo: Jacobo Grinberg. Documentário. Produção independente, México, 2018. 90 minutos.
Bohm, David. A totalidade e a ordem implicada. São Paulo: Cultrix, 1980.
Pribram, Karl. Languages of the brain. Englewood Cliffs: Prentice Hall, 1971.
Fique por dentro!
Receba notícias de Entretenimento/Celebridades no seu WhatsApp e fique por dentro de tudo! Basta acessar o canal de notícias do Régis Andrade no WhatsApp.
Para ficar por dentro de tudo sobre o universo dos famosos e do entretenimento siga o perfil Régis Andrade no Instagram.