Papa Leão XIV declara que a extrema direita não representa o cristianismo
Pontífice diz que ódio e divisão não são Evangelho e pede retomada da compaixão e do acompanhamento.
O papa Leão XIV encerrou sua quinta viagem apostólica com uma declaração que ecoou para além dos círculos eclesiásticos. A bordo do Airbus A321 que deixou o aeroporto de Metz-Nancy-Lorraine às 19h33 desta segunda-feira, 28 de setembro, e pousou em Roma-Fiumicino às 20h53, o pontífice respondeu a jornalistas durante a tradicional coletiva de imprensa de balanço da viagem, que durou quatro dias e passou por Paris, Lourdes e Metz, cidade na fronteira franco-alemã. Entre os cerca de oitenta profissionais que acompanharam o voo, o jornalista Ludwig Ring-Eifel, do KNA, a principal agência de notícias católica da Alemanha, dirigiu ao papa uma pergunta que tocou em um dos pontos mais sensíveis da atualidade europeia: a relação entre o declínio vertiginoso da prática religiosa na Alemanha e a ascensão de partidos de extrema direita no país.
A resposta de Leão XIV foi direta e sem ambiguidades. O pontífice afirmou que a combinação entre posições políticas de extrema direita e determinadas formas de religiosidade não constitui uma expressão autêntica do cristianismo. Ele não se limitou a uma opinião pessoal. Fez questão de sublinhar que sua avaliação coincide com a das lideranças tanto da Igreja Católica quanto da Igreja Protestante na Alemanha, que já haviam se pronunciado publicamente no mesmo sentido. A declaração ganhou peso adicional por vir acompanhada de uma sugestão concreta de investigação. O papa disse que seria interessante estudar e analisar se existe, e de que maneira poderia existir, uma relação entre o crescimento desses grupos de extrema direita e a crise de participação religiosa que atinge o país.
O contexto que motivou a pergunta é tão eloquente quanto a resposta papal. Dados divulgados em agosto de 2026 pela Conferência Episcopal Alemã, no relatório Katholische Kirche in Deutschland – Zahlen und Fakten 2025/2026, revelam um cenário de contração sistêmica da Igreja Católica no país. Dos 19.219.609 católicos registrados, apenas cerca de 1.304.000 participam da missa dominical, o equivalente a 6,8% do total. Há pouco mais de uma década, em 2014, esse percentual era de 10,9%. Antes da pandemia, em 2019, ainda alcançava 9,1%. A tendência de queda se consolidou ao longo dos anos e não demonstra sinais de reversão. Em termos absolutos, menos de 2% da população total da Alemanha participa semanalmente da missa católica. No ano de 2025, a Igreja registrou 307.149 abandonos formais, um número ligeiramente inferior aos 321 mil de 2024, mas ainda em patamares historicamente elevados. No sentido inverso, apenas 2.269 pessoas ingressaram na Igreja e 5.445 foram readmitidas, enquanto os batismos continuaram a ser superados pelos funerais católicos, que ultrapassam 200 mil por ano. Os casamentos religiosos caíram abaixo de 20 mil anuais, quando no final da década de 1980 superavam 110 mil. As ordenações sacerdotais seguem em níveis baixíssimos, e o número de padres em exercício, que era de cerca de 18.600 em 1995, caiu para 11.083 no levantamento mais recente.
Paralelamente a esse esvaziamento das igrejas, a Alemanha assiste ao avanço eleitoral da Alternativa para a Alemanha, a AfD. No início de setembro de 2026, o partido venceu as eleições estaduais na Saxônia-Anhalt com quase 44% dos votos, consolidando uma trajetória de crescimento que já o havia colocado em segundo lugar nas eleições federais de 2025, com 20,8% dos votos. A legenda, que tem base principal na antiga Alemanha Oriental, é monitorada pelos serviços de inteligência do país por suspeitas de atividades extremistas e tem sido acusada de manter vínculos com círculos neonazistas. Mesmo partidos de direita radicular em outros países europeus, como o Reagrupamento Nacional francês, de Marine Le Pen, adotaram uma postura de distanciamento em relação à AfD. O partido tem sido repetidamente apontado por instrumentalizar a retórica dos valores cristãos para fins de mobilização política, especialmente em discursos contrários à migração e a minorias. Uma reportagem da Deutschlandfunk publicada em abril de 2026 documentou como políticos da AfD invocam o cristianismo e supostos valores cristãos para se posicionarem contra a migração, utilizando a religião sobretudo como ferramenta de demarcação entre o que consideram próprio e o que classificam como estrangeiro.
A preocupação com essa instrumentalização não é exclusiva do papa. Em setembro de 2026, o político social-democrata Wolfgang Thierse, ex-presidente do Bundestag, declarou que as Igrejas deveriam manter seu curso crítico em relação à AfD, observando que o partido havia se apresentado com sucesso como defensor da família e do cristianismo, conquistando assim eleitores que se sentem inseguros diante das mudanças migratórias e culturais. No campo teológico, a professora Hildegund Keul alertou que um eventual governo estadual da AfD na Saxônia-Anhalt poderia condicionar o financiamento de instituições religiosas a uma lógica de autodestruição, redirecionando recursos para o que o partido chama de cristianismo autêntico em igrejas menores. A Conferência Episcopal Alemã, por sua vez, já havia manifestado publicamente que a AfD busca se apropriar dos valores cristãos e instrumentalizá-los, ao mesmo tempo em que difama as Igrejas estabelecidas como decadentes.
Diante desse quadro, a fala de Leão XIV não se limitou a uma condenação genérica. O pontífice apresentou uma alternativa pastoral. Ele defendeu que a Igreja atue para prevenir o extremismo e incentive a participação política dos fiéis em defesa do bem comum e de escolhas conscientes. Segundo ele, é responsabilidade da Igreja, por meio de sua doutrina social, ensinar e pregar valores que dão vida, e não destruição, divisão e ódio. Os valores do Evangelho, afirmou, não dizem respeito ao ódio nem à divisão, mas à compreensão, à compaixão e ao acompanhamento das pessoas. O papa expressou preocupação com os efeitos de ideias extremistas, observando que seus danos talvez ainda não sejam plenamente conhecidos.
Leão XIV, no entanto, recusou a ideia de que a Igreja esteja morrendo na Alemanha. Ele lembrou que previsões semelhantes foram feitas sobre a França no passado, e que os últimos quatro dias de viagem haviam demonstrado o contrário, com multidões acima das expectativas e manifestações de devoção popular profundamente comoventes. O pontífice disse acreditar que, se a Igreja encontrar o verdadeiro espírito missionário e o caminho adequado, ainda há muitas pessoas na Alemanha que desejam viver e celebrar sua fé cristã e católica. Manifestou otimismo, embora reconhecendo os problemas e as diferentes causas que atingiram duramente não apenas a Igreja Católica, mas também a Igreja Evangélica e a própria sociedade alemã.
A coletiva de imprensa a bordo do voo papal abordou outros temas de relevância internacional. Sobre a inteligência artificial, o papa declarou que as preocupações levantadas por especialistas devem ser levadas a sério e não se tratam de notícias falsas, em contraste direto com declarações recentes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que havia classificado tais alertas como exageros. Leão XIV foi enfático ao afirmar que não acredita que se trate de fake news, como alguns sustentaram na tentativa de obter vantagens financeiras ou de outra natureza.
O pontífice também voltou ao tema do rearmamento europeu, que já havia abordado durante sua passagem por Metz. Ele criticou o aumento contínuo dos gastos militares e a lógica de uma indústria de armamentos da qual poucos privilegiados obtêm lucros enormes ao promover a guerra. Segundo ele, os bilhões de euros ou dólares despendidos poderiam ser empregados para resolver problemas como a fome no mundo, a emergência habitacional e o desemprego. O papa pediu uma voz que proponha um caminho diferente, que rejeite a ideia de gastar sempre mais em armamentos, e observou que potências buscam impor sua vontade pela força em vez de dialogar ou negociar divergências, tornando cada vez mais provável a perspectiva de guerras e conflitos múltiplos. A Igreja, disse, tem a responsabilidade de promover valores como a dignidade humana, a sacralidade da vida e a possibilidade de investir mais em saúde e educação do que em armas.
No encerramento de sua visita à França, Leão XIV havia sido recebido no aeroporto de Metz pelo presidente Emmanuel Macron, com quem manteve um colóquio privado de aproximadamente trinta minutos, não previsto na agenda oficial. Após a conversa, os dois participaram de uma breve cerimônia de despedida, com hinos, honras militares e o cumprimento das respectivas delegações. Macron acompanhou o papa até a base da escada do avião para um último cumprimento cordial. A quarta e última jornada em território francês havia sido marcada por três compromissos oficiais em Metz, cidade que foi disputada entre França e Alemanha ao longo da história e passou definitivamente ao controle francês apenas em 1945, ao final da Segunda Guerra Mundial. No Centro de Congressos Robert Schuman, o papa participou de um encontro inter-religioso no qual recordou que é profanação invocar o nome de Deus para legitimar a violência, e afirmou que a grandeza de uma civilização não se mede por seus sucessos materiais, mas pela forma como cerca, protege e eleva a pessoa humana. No mesmo centro, dedicado a um dos pais fundadores da União Europeia, presidiu o evento intitulado Alle radici dell’Europa per la pace e l’unità, no qual denunciou o que chamou de inútil massacre que ceifa inúmeras vítimas diariamente, invocando coragem na negociação e esforços criativos para a paz mundial. A viagem foi concluída com uma missa na catedral de Metz.
A declaração do papa sobre a extrema direita e o cristianismo representa, portanto, mais do que uma condenação pontual. Inserida em um contexto de crise profunda da prática religiosa na Alemanha, de ascensão eleitoral de um partido monitorado por extremismo e de instrumentalização explícita da fé para fins políticos, a fala de Leão XIV estabelece uma distinção teológica e pastoral que ecoa para além das fronteiras alemãs. Ao afirmar que a associação entre extremismo e religiosidade não é uma expressão autêntica do cristianismo, e ao mesmo tempo recusar o diagnóstico de morte da Igreja na Alemanha, o pontífice posiciona a instituição em um caminho duplo: de um lado, a firmeza doutrinária contra o ódio e a divisão; de outro, a confiança em um renovado espírito missionário capaz de alcançar aqueles que ainda desejam viver sua fé. Cabe agora observar como as Igrejas locais, as lideranças políticas e os fiéis alemães responderão a esse chamado.
Fontes consultadas
Vatican News, RSI, CNN Brasil, Revista Fórum, BNews, Estado de Minas, A Gazeta, Crux Now, La Sicilia, Gaudium Press, El Debate, EWTN, Deutschlandfunk, Evangelisch.de, Tagesspiegel, Il Foglio, Vatican News (estatísticas), Conferência Episcopal Alemã.