Vorcaro diz ter pago R$ 30 milhões por filme de Lula para acessar fundos
Antigo dono do Banco Master relata repasses por fora e pedido de comissão de 10% sobre fundos de pensão federais e esquema
Daniel Vorcaro, antigo dono do Banco Master, afirmou ter liberado cerca de 30 milhões de reais em dinheiro vivo para financiar um documentário sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O relato integra um conjunto de áudios e documentos entregue à Procuradoria Geral da República durante tentativas de negociação de delação premiada. O objetivo declarado dos pagamentos, conforme a versão apresentada pelo banqueiro, era assegurar o credenciamento e a entrada da instituição financeira em operações com fundos de pensão federais, entre eles a Previ, a Petros, a Caixa Asset e recursos ligados ao Banco do Brasil. O filme citado é o documentário dirigido pelo cineasta Oliver Stone, que reúne depoimentos de aliados do presidente.
A narrativa do antigo banqueiro descreve uma articulação com o antigo tesoureiro do Partido dos Trabalhadores, João Vaccari Neto, e com o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. A aproximação com dirigentes petistas teria contado com a intermediação do líder do governo no Senado, Jaques Wagner, e do então sócio de Vorcaro no Banco Master, Augusto Lima. Os repasses destinados ao filme teriam sido feitos sem registro oficial, além de transferências direcionadas a Paulo Okamotto, do Instituto Lula. Em um dos áudios, Vorcaro afirma que o pagamento pelo documentário sobre Lula ocorreu por fora e reconhece que a operação foi irregular. Ele compara o caso ao financiamento do filme Dark Horse, sobre o antigo presidente Jair Bolsonaro, que classificou como patrocínio normal.
O relato sustenta ainda que Vaccari teria exigido uma comissão de dez por cento sobre todos os recursos que o Banco Master conseguisse captar junto a fundos de pensão de servidores da Caixa Econômica Federal, do Banco do Brasil, da Petrobras e dos Correios. Caso a operação fosse concretizada integralmente, segundo estimativas atribuídas a Vorcaro, os valores movimentados poderiam render cerca de 1 bilhão de reais ao Partido dos Trabalhadores e 9 bilhões de reais ao banco. A inclusão do Banco Master em uma lista oficial de instituições autorizadas a receber recursos desses fundos ocorreu em 29 de abril de 2024. Mensagens também indicariam a cobrança de 500 mil reais como adiantamento de um pagamento relacionado às negociações, solicitado no mesmo dia em que o banco foi autorizado a operar nesse mercado.
Os fatos estão registrados em um anexo levado à Procuradoria Geral da República em junho do ano passado, quando a segunda proposta de delação foi descartada. O órgão não deu prosseguimento ao caso sob a justificativa de que não haveria provas suficientes da história, uma vez que os pagamentos teriam sido feitos em dinheiro vivo. A defesa de Vorcaro rebateu esse entendimento e afirmou que o banqueiro teria elementos como mensagens de WhatsApp, registros das pessoas que retiraram o dinheiro e a relação de lugares e rotas usadas por operadores nas entregas. As alegações, no entanto, são relatos do próprio empresário e não comprovam, por si sós, a realização dos pagamentos ou o envolvimento dos agentes públicos mencionados.
Procurado, o presidente Lula declarou que jamais solicitou ou recebeu qualquer vantagem financeira nem autorizou terceiros a receber recursos de Vorcaro em seu nome. O grupo jurídico Prerrogativas anunciou que vai pedir à Polícia Federal a abertura de um inquérito para investigar a suspeita de que Vorcaro tenha sido incentivado a prestar depoimento com informações prejudiciais à campanha petista. O coordenador do grupo, Marco Aurélio Carvalho, afirmou que teria recebido informações de que o banqueiro foi estimulado a declarar à Polícia Federal que financiou o documentário sobre Lula em troca de benefícios judiciais, incluindo a soltura de seu pai, Henrique Vorcaro, e a possibilidade de deixar a prisão após as eleições em regime domiciliar.
A campanha de Lula classificou a reportagem como irresponsável e anunciou que tomará medidas judiciais. Vorcaro está preso desde março em Brasília, sob acusação de protagonizar uma das maiores fraudes bancárias da história do país. As investigações sobre o caso seguem em curso, e novas apurações podem alterar o quadro descrito até aqui. A defesa do banqueiro continua a afirmar que ele possui provas documentais e mensagens capazes de corroborar a versão apresentada. Os demais citados não foram localizados ou não se manifestaram até a conclusão desta apuração.
Fontes consultadas: Revista Veja, Bahia Notícias, Rádio Itatiaia, GP1, Mais Goiás, SCC10, TNH1, GZH, BNews e Poder360.