“Cheguei a este debate para vencer as eleições”, afirma Lula ao chegar à TV Globo
Presidente critica Flávio Bolsonaro, chama adversário de “miliciano” e aposta no confronto final antes do segundo turno.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou aos Estúdios Globo, na zona oeste do Rio de Janeiro, às 20h43 desta sexta-feira, 23 de outubro, para o derradeiro confronto televisivo do segundo turno, agendado para o domingo seguinte. Antes de entrar no cenário montado pela emissora, o candidato do Partido dos Trabalhadores concedeu uma breve entrevista à repórter da GloboNews e foi enfático ao responder sobre a sua expectativa para o embate. Disse que comparecia àquele encontro com um propósito único e declarado: vencer as eleições. Em seguida, partiu para o ataque direto ao adversário, o senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal, a quem classificou como um miliciano, contrapondo a sua própria candidatura como a expressão do futuro para o país. A frase, reproduzida de imediato por diversos veículos de imprensa que acompanhavam a chegada, sintetizou o tom que a campanha petista pretendeu imprimir na reta final da disputa.
Lula desembarcou no local acompanhado da primeira-dama, Janja da Silva, do ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, e do governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles. A comitiva presidencial foi recebida em meio a um esquema de segurança reforçado, motivado pela presença de apoiadores de ambos os candidatos nas proximidades dos estúdios. O adversário, Flávio Bolsonaro, havia chegado aproximadamente cinquenta minutos antes, por volta das 19h55, acompanhado da esposa, Fernanda Bolsonaro, e do irmão, o senador eleito Carlos Bolsonaro, além de outros aliados políticos. Questionado pela imprensa no momento em que adentrava o prédio, o candidato do PL afirmou que a sua expectativa era a melhor possível e que esperava demonstrar aos eleitores que as suas propostas representavam o caminho da prosperidade, enquanto definiu o oponente como o símbolo de tudo o que estaria errado na condução do país.
O encontro ocorreu a menos de quarenta e oito horas da abertura das urnas e representou o último debate televisionado entre os dois presidenciáveis antes da votação de domingo. O confronto anterior, promovido pela Rede Bandeirantes no domingo, 18 de outubro, havia sido marcado por um clima de hostilidade e por trocas acaloradas de acusações, o que elevou a expectativa de que a emissora carioca adotasse um formato mais rígido e propiciasse maior espaço para a apresentação de propostas de governo. A organização do debate, mediado pelo jornalista César Tralli, previu quatro blocos distintos. Nos três primeiros, os candidatos teriam três minutos por rodada para administrar entre perguntas e respostas, com temas previamente definidos e sorteados ao vivo. O último bloco, de tema livre, concederia oito minutos de tempo de fala acumulado a cada candidato, sem limite de intervenções, mas com a restrição de que o oponente permanecesse em seu púlpito até ser chamado a responder. A emissora também mobilizou uma equipe de mais de trinta jornalistas para realizar a checagem em tempo real das declarações de ambos os postulantes, com publicações simultâneas em seus portais e desdobramentos ao longo da madrugada.
A chegada dos candidatos refletiu estratégias cuidadosamente calculadas para os minutos finais da campanha. Enquanto Lula buscava associar a imagem do adversário a um passado de práticas ilegais e a um suposto vínculo com grupos paramilitares, Flávio Bolsonaro apostava na apresentação de um contraste propositivo, procurando se desvencilhar da postura mais agressiva que marcou o debate anterior. A seu favor, o senador reuniu nos estúdios um grupo de governadores eleitos e aliados, entre os quais se destacavam Tarcísio de Freitas, de São Paulo, e Sérgio Moro, do Paraná, que acompanhavam o evento como convidados. Do lado petista, a presença do governador do Piauí e do ministro da Comunicação reforçava o caráter de continuidade administrativa e de articulação política que a campanha procurava projetar.
O cenário eleitoral que serviu de pano de fundo para o derradeiro debate era de absoluta imprevisibilidade. Levantamentos divulgados na semana anterior indicavam um empate técnico entre os dois candidatos, com variações mínimas dentro da margem de erro. Pesquisa do instituto Quaest, divulgada na quarta-feira, 21 de outubro, apontava Flávio Bolsonaro com quarenta e cinco por cento das intenções de voto e Lula com quarenta e quatro por cento, em um quadro de estabilidade que se repetia desde o início da segunda fase da campanha. Já o levantamento do BTG/Nexus, divulgado dois dias antes, mostrava o senador com cinquenta vírgula três por cento dos votos válidos, contra quarenta e nove vírgula sete por cento do presidente, uma diferença de apenas seis décimos percentuais, o que configurava a disputa mais acirrada das últimas décadas. Diante desse equilíbrio, cada palavra proferida no debate adquiria peso extraordinário, e a expectativa dos analistas políticos era de que os candidatos evitassem riscos desnecessários e se concentrassem em conquistar o eleitorado indeciso, estimado em cerca de oito por cento do total.
A declaração de Lula na chegada, ao afirmar que veio para vencer e ao recorrer a um termo de forte carga pejorativa para se referir ao oponente, sinalizou que a campanha petista não pretendia adotar uma postura meramente defensiva. A escolha do termo miliciano, carregado de implicações criminais, remete a um histórico de acusações envolvendo membros da família do adversário e foi utilizada pelo presidente como uma tentativa de desqualificar a candidatura do PL perante o eleitorado. A resposta de Flávio Bolsonaro, embora mais moderada no tom, também continha um ataque velado ao caracterizar o governo atual como o responsável por tudo o que estaria errado no país, estabelecendo um contraste direto entre a sua proposta de prosperidade e o que considerava o legado de gestão do oponente.
O debate teve início pontualmente às 21h20, logo após a exibição do Jornal Nacional, e foi transmitido ao vivo pela TV Globo, pela GloboNews e pelo portal g1. A ausência de movimentação livre nos três primeiros blocos, uma mudança em relação ao formato anterior, foi justificada pela emissora como uma medida para garantir a equidade entre os participantes e evitar que episódios de palco desviassem a atenção dos temas centrais. A checagem de fatos, conduzida pelo serviço Fato ou Fake, do Grupo Globo, acompanhou cada afirmação dos candidatos em tempo real, com o objetivo de oferecer ao público uma avaliação imediata da veracidade das informações apresentadas. Ao final do programa, estavam previstas entrevistas coletivas de dez minutos para cada candidato, com a ordem definida previamente: primeiro Lula e, em seguida, Flávio Bolsonaro.
A expectativa de ambas as campanhas era de que o confronto final pudesse consolidar tendências ou, ao contrário, produzir um fato novo capaz de alterar o delicado equilíbrio que marcava a disputa. A dois dias da votação, o que se viu na entrada dos estúdios foi um prenúncio do embate que se seguiria: de um lado, a aposta na desconstrução do adversário por meio de rótulos de forte impacto; de outro, a tentativa de se apresentar como a alternativa racional e propositiva para um eleitorado ainda indeciso. O resultado das urnas no domingo seria o árbitro final dessa estratégia, mas a noite de sexta-feira prometia ser o último grande palco para que ambos os projetos se confrontassem diante de milhões de telespectadores.
Fontes consultadas: Revista Fórum, G1, Estadão, ND Mais, Mais Goiás, Veja, Poder360, CNN Brasil, O Globo, Valor Econômico, Folha de S.Paulo, UOL.