Lula rebate Flávio na Globo e provoca: Se conhecesse o Brasil, saberia o que fizemos
Lula rebate Flávio no último debate presidencial e coloca infraestrutura no centro da disputa já antes do segundo turno
O último debate presidencial promovido pela TV Globo, realizado na noite desta sexta-feira nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, transformou a discussão sobre infraestrutura no eixo central de um confronto direto entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro. Transmitido logo após o Jornal Nacional e mediado pelo jornalista César Tralli, o encontro foi concebido como a derradeira oportunidade para que os dois candidatos apresentassem propostas frente a frente antes da votação de domingo. A estrutura do programa, dividida em quatro blocos, estabeleceu regras específicas que moldaram a dinâmica do embate. Nos três primeiros segmentos, a circulação pelo cenário foi restrita ao candidato com a palavra, obrigando o adversário a permanecer no púlpito. A medida buscava evitar cenas de confronto físico ou perseguição, como as que marcaram um debate anterior promovido por outra emissora. A emissora também definiu que o primeiro bloco teria uma discussão obrigatória sobre infraestrutura e exportações, com foco nos investimentos necessários para melhorar o desempenho econômico do país.
Foi nesse contexto que Lula partiu para a ofensiva. Ao responder a uma provocação de Flávio sobre a condução da máquina pública, o presidente elevou o tom e defendeu o legado de sua gestão na área de obras. Lula afirmou que, se o candidato conhecesse um pouco o Brasil, saberia que em nenhum momento na história do país se investiu tanto em obras de infraestrutura como nos últimos anos. O presidente sugeriu que se pesquisasse se algum outro governo havia investido mais no setor e citou a retomada de empreendimentos em todos os modais de transporte. Para Lula, a crítica do adversário revelava um desconhecimento da realidade nacional, e ele ironizou a postura do senador, comparando-o a um aluno que consegue decorar o conteúdo, mas não consegue aprender.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, adotou um tom mais cordial do que o utilizado em confrontos anteriores e optou por apresentar números para rebater o discurso do governo. O senador afirmou que o país convive com um passivo elevado de obras inacabadas e citou um relatório do Tribunal de Contas da União. Segundo Flávio, o governo anterior teria recebido o Brasil com cerca de 14 mil obras inacabadas em 2019 e entregado o país com pouco mais de 8 mil, enquanto o atual governo somaria mais de 11.500 obras paralisadas. O senador também prometeu concluir a TransNordestina, criar o Eixo Sul e investir na concessão de rodovias com pedágio zero para motociclistas. As declarações, no entanto, foram classificadas como enganosas por agências de checagem. Os três números citados têm origem no Tribunal de Contas da União, mas não medem o mesmo universo de obras. O diagnóstico de 2019 analisou mais de 38 mil contratos e encontrou 14.403 paralisados, enquanto o número de 2022 referia-se a 8.674 obras paradas entre 22.559 acompanhadas. A queda em termos absolutos reflete, sobretudo, uma mudança na metodologia e no universo de obras levantadas, e não uma redução proporcional do problema. Além disso, o dado mais recente do tribunal contabiliza as obras paralisadas com recursos federais independentemente de quando foram contratadas, de modo que boa parte delas foi iniciada em governos anteriores e não pode ser atribuída exclusivamente à gestão atual. A proporção de obras interrompidas, que era de cerca de 38 por cento em 2022, subiu para mais da metade no período mais recente, o que confirma um agravamento do quadro, ainda que a responsabilidade pela origem dos empreendimentos seja compartilhada entre diferentes administrações.
O embate sobre infraestrutura refletiu duas visões distintas sobre o papel do Estado e a avaliação das gestões passadas. De um lado, o presidente apostou na defesa enfática dos investimentos federais e na comparação com administrações anteriores como forma de mobilizar sua base e conquistar os eleitores indecisos. Dados de investimentos privados e públicos no setor mostram que os aportes totais saltaram mais de cinquenta por cento no atual governo em relação ao período anterior, impulsionados tanto pela retomada de obras públicas quanto pela maturação de concessões e leilões realizados em anos recentes. A pandemia, a alta dos juros e a instabilidade regulatória haviam congelado investimentos no setor durante a gestão anterior, e a retomada a partir de 2023 foi acompanhada por uma mudança na política ambiental e externa que atraiu novamente investidores estrangeiros para projetos de transição energética e infraestrutura.
Do outro lado, o senador tentou desconstruir esse legado com dados de obras paralisadas, ainda que a checagem tenha apontado imprecisões em sua fala. A estratégia de Flávio Bolsonaro de recorrer a números do Tribunal de Contas da União para sustentar a crítica ao governo revelou uma tentativa de disputar a narrativa sobre a eficiência da máquina pública, mas esbarrou na complexidade metodológica dos levantamentos do órgão. A ausência de checagem de fatos ao vivo durante a transmissão transferiu a verificação das declarações para o serviço de apuração do portal de notícias da emissora e para agências especializadas, que publicaram suas conclusões em tempo real e ao longo da madrugada.
O confronto na Globo ocorreu em um ambiente de cautela estratégica. Ambos os candidatos chegaram ao debate tecnicamente empatados nas pesquisas de intenção de voto, o que transformou o encontro em uma disputa decisiva pelos eleitores que ainda não haviam definido o voto. As campanhas ajustaram suas táticas após o primeiro confronto, e a emissora recusou a checagem ao vivo, deixando a verificação das declarações a cargo de serviços especializados. A troca de acusações sobre infraestrutura resumiu o tom do último debate antes da votação. De um lado, o presidente defendeu os investimentos federais e a retomada de obras como prova de sua capacidade de induzir o crescimento. Do outro, o senador tentou desconstruir esse legado com dados de obras paralisadas, ainda que a checagem tenha apontado imprecisões em sua fala. O embate televisionado deixou claro que a infraestrutura e a capacidade de o Estado induzir o crescimento se consolidaram como um dos eixos centrais da disputa presidencial, e a forma como cada candidato apresentou seus números e suas realizações pode ter um peso decisivo na escolha do eleitorado no segundo turno.
Fontes consultadas: Poder360; Carta Capital; Revista Fórum; Gazeta do Povo; UOL Economia; Agência Lupa; G1; Folha de S.Paulo; Aos Fatos.