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Política

Lula critica Flávio na Globo e diz que ele ficou bajulando Trump para taxar o Brasil

By Régis Andrade
23 de outubro de 2026 5 Min Read
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Presidente acusa senador de “lambir” Trump para taxar o Brasil e rebate críticas ao agronegócio no último confronto antes do segundo turno

O último confronto televisionado antes do segundo turno colocou frente a frente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro em um embate que expôs divergências profundas sobre política agrícola, comércio exterior e o próprio papel do Estado na economia. Realizado nos estúdios da TV Globo, no Rio de Janeiro, na noite desta sexta-feira, o debate foi mediado pelo jornalista César Tralli e transmitido simultaneamente pela TV Globo, GloboNews, g1 e Globoplay, com duração dividida em quatro blocos temáticos e considerações finais.

A arquitetura do programa previa três blocos com temas determinados e um bloco de tema livre, com a ordem das perguntas definida por sorteios realizados ao vivo pelo mediador. No primeiro bloco, dedicado a regiões do país e a um tema nacional prioritário, os candidatos tiveram três minutos por rodada para pergunta, resposta, réplica e tréplica. No segundo e no terceiro blocos, os presidenciáveis escolheram os assuntos entre opções exibidas em um telão. Uma restrição imposta pela emissora determinou que, nos três primeiros blocos, apenas o candidato com a palavra poderia circular pelo cenário, enquanto o adversário permaneceria no púlpito até sua vez de falar. O quarto bloco, de tema livre, concedeu a cada candidato oito minutos de fala, sem limite de intervenções e com liberdade de movimentação pelo próprio lado do palco. A emissora também eliminou a plateia do estúdio e vedou provocações por gestos ou mímicas, em uma tentativa de conter a agressividade que marcou o encontro anterior, promovido pela TV Bandeirantes.

O agronegócio concentrou a primeira grande escaramuça da noite. Flávio Bolsonaro abriu o confronto ao questionar a relação do governo com os produtores rurais, afirmando que o setor enfrenta endividamento, crédito caro e burocracia excessiva. O senador chegou a declarar que é impossível plantar e colher no Brasil com a taxa de juros praticada no país, e acusou o presidente de tratar o agronegócio com arrogância e petulância. Lula rebateu de imediato, defendendo os investimentos realizados em sua gestão e comparando-os com os do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro. O petista afirmou duvidar que em algum momento do governo do pai do senador tenha havido investimento no agronegócio equivalente ao de sua administração, e destacou a destinação de recursos para a agricultura familiar e os incentivos à compra de máquinas agrícolas.

A resposta mais incisiva, no entanto, veio na sequência, quando Lula associou o adversário à pressão comercial exercida pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O presidente declarou que, quando o adversário ficou bajulando Trump para taxar o Brasil, não ficou preocupado, porque não nasceu com medo de cara feia. A frase, que se tornou o momento mais reproduzido do debate, foi completada com uma advertência: se o presidente norte-americano não quer comprar do Brasil, o país venderá a outros mercados. Lula sustentou que seu governo abriu setecentos novos mercados para produtos nacionais como forma de contornar as barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos, e afirmou que as exportações brasileiras atingiram níveis recordes durante sua gestão.

Flávio Bolsonaro tentou deslocar o eixo da discussão para a responsabilidade do governo petista sobre as tarifas. O senador sustentou que a postura ideológica de Lula teria contribuído para a imposição das sobretaxas e defendeu maior alinhamento com Washington como estratégia de proteção aos interesses brasileiros. O tema, porém, é um dos mais sensíveis da campanha: as tarifas norte-americanas atingem quase metade das exportações brasileiras para o mercado dos Estados Unidos, com alíquotas extras que chegam a até 37,5% sobre produtos taxados, em um universo estimado em cerca de US$ 19,1 bilhões em vendas anuais. Lula explorou politicamente essa vulnerabilidade ao vincular a proximidade do senador com o governo Trump à imposição das medidas, enquanto o adversário atribuiu a responsabilidade pela escalada tarifária à gestão petista.

Ainda no campo do agronegócio, o presidente contestou a crítica de Flávio sobre a taxa de juros, argumentando que o crédito agrícola possui juros subsidiados e não segue a taxa Selic. Lula também acusou os adversários de se incomodarem com a ascensão social dos mais pobres, afirmando que eles se incomodam com pobre na universidade. O senador, por sua vez, prometeu impedir o contingenciamento de recursos do seguro rural e garantir reajustes acima da inflação às aposentadorias rurais, além de propor o uso de tecnologia para facilitar o acesso ao benefício. Flávio também defendeu sua capacidade de administrar o país, citando sua formação acadêmica e suas pós-graduações, e afirmou ter passado quatro anos tomando decisões, direta ou indiretamente, ao lado do pai.

Um elemento que atravessou todo o debate foi a chamada estratégia do Google, adotada por ambas as campanhas para contornar a rejeição do eleitorado e explorar os pontos fracos do adversário sem soar abertamente agressivo. A tática consistiu em estimular os telespectadores a pesquisar, durante o próprio embate, episódios controversos ou indícios de irregularidades envolvendo o oponente. Lula orientou a audiência a buscar informações sobre as relações de Flávio com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e com o advogado Willer Tomaz, além de posições do senador sobre o Bolsa Família, a licença-maternidade e sua atuação como advogado em casos de assassinatos. Flávio, por sua vez, direcionou os pedidos de pesquisa ao escândalo do INSS, às declarações da lobista Roberta Luchsinger e a falas de Lula sobre segurança pública, como as chamadas saidinhas e furtos. O presidente chegou a sugerir explicitamente que os espectadores dessem um Google para verificar a bobagem que esse jovem fala quando vai debater.

O contexto eleitoral que envolveu o debate era de equilíbrio extremo. Pesquisas divulgadas ao longo da semana apontavam empate técnico entre os dois candidatos. O Datafolha da quinta-feira mostrou Flávio com 47% das intenções de voto totais e Lula com 46%, o que, no cálculo de votos válidos, resultava em 50% a 50%. A Quaest contratada pela Globo e pela TV Globo indicou Flávio com 45% e Lula com 44%, com margem de erro de dois pontos percentuais. O Ipespe/Abrapel, divulgado horas antes do debate, apontou Flávio com 50,5% dos votos válidos contra 49,5% de Lula, e registrou, pela primeira vez na série do segundo turno, a rejeição do senador superior à do presidente, em uma margem de 48% a 47%. O Datafolha sobre rejeição, também da quinta-feira, mostrava 46% dos eleitores dispostos a não votar em Flávio de jeito nenhum, contra 45% em relação a Lula.

A proximidade numérica e a elevada taxa de indecisos, que oscilava entre 2% e 14% a depender do instituto e da modalidade da pergunta, atribuíam ao debate um peso decisivo. As campanhas ajustaram suas estratégias para o encontro final. Aliados de Flávio avaliavam que o clima de vale-tudo do primeiro debate, promovido pela Band, não havia beneficiado o senador e orientaram uma postura mais moderada, com foco em segurança pública e inflação, temas identificados como pontos fortes em pesquisas qualitativas. A campanha de Lula, por sua vez, apostou na apresentação de propostas para um eventual quarto mandato e na tentativa de evitar provocações que pudessem desestabilizar o presidente, dedicando mais tempo a saúde e negócios.

O encontro desta sexta-feira encerrou a série de confrontos televisivos do segundo turno. A votação está marcada para domingo, e o resultado, segundo todas as pesquisas divulgadas na reta final, deve ser definido voto a voto, sem que nenhum dos dois candidatos tenha conseguido abrir vantagem consistente fora da margem de erro.

Fontes consultadas:
BNews, SBT News, Diário do Grande ABC, Jornal de Brasília, Folha de S.Paulo, UOL Notícias, O Globo, BBC News Brasil, G1, Portal Band, CNN Brasil, Rádio Itatiaia e Revista Fórum.

Tags:

debate na Globoeleições 2026Flávio BolsonaroLulatarifas de Trump
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Eu sou Régis Andrade, criador do Portal de Notícias.

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